A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três
Pois é, concordou Eddie. Vivemos como um…
Pois é, concordou Eddie. Vivemos como um monte de formigas num
formigueiro. Isso pode parecer bom para você, mas lhe digo uma coisa, Roland,
não tem a menor graça. Logo vai se fartar.
O carro azul seguiu; a van da pizza fez a volta e se aproximou. Eddie
se enrijeceu, sentindo Roland fazer o mesmo. Será que tinham realmente
concluído que era melhor dar um sumiço nele?
A porta?, perguntou Roland. Acha melhor atravessar? Quer atravessar?
Eddie sentiu que Roland estava pronto — para qualquer coisa —, mas sua voz era calma.
Ainda não, disse Eddie. Talvez eles só queiram conversar. Mas fique ligado. Sentiu que fora desnecessário dizer aquilo; mesmo no sono mais pro-
fundo, Roland estaria mais preparado para se mover e agir do que Eddie
em seu instante mais desperto.
A van da pizza com o garoto sorridente na lataria encostou. O vidro
do carona desceu e Eddie ficou parado diante da entrada do prédio, sua
sombra partindo da ponta dos mocassins e se estendendo bastante na frente dele. Não sabia o que ia surgir — um rosto ou um revólver.
4
A segunda vez que Roland se ausentou acontecera no máximo cinco mi-nutos depois do pessoal da alfândega finalmente desistir e liberar Eddie.
O pistoleiro havia comido, mas não o bastante; precisava de água;
mais que tudo, precisava de um remédio. Eddie não podia fornecer o remédio de que Roland tanto necessitava (embora suspeitasse que o
pistoleiro tivesse razão: Balazar poderia ajudar... se quisesse ajudar). Uma simples aspirina, no entanto, talvez fizesse pelo menos baixar a febre que Eddie sentira quando o pistoleiro dera um passo à frente para cortar a
parte de cima do cinturão de fita. Deu uma parada na frente do quiosque de jornais do terminal principal.
Não existe aspirina no lugar de onde você veio?
Nunca ouvi falar. E magia ou remédio?
Acho que as duas coisas.
Eddie entrou no quiosque e comprou um envelope de aspirina super-forte.
Depois foi até a lanchonete e comprou dois supercachorros-quentes e uma Pepsi de 800 ml. Estava pondo mostarda e ketchup nos sanduíches (Henry chamava os supercachorros de Godzilla) quando, de repente, se lembrou que a coisa não era
para ele. Roland poderia não gostar de mostarda e ketchup. Roland poderia ser vegetariano. Aquela porra poderia matar Roland.
Bem, agora é tarde demais, pensou Eddie. Quando Roland falava —
quando Roland agia —, Eddie percebia o que estava acontecendo como
fato real. Quando Roland ficava quieto, a vertiginosa sensação de que
tudo não passava de um sonho — um sonho extraordinariamente nítido
que estava tendo enquanto dormia no vôo 901 da Delta, a caminho do
aeroporto de Kennedy — insistia em voltar.
Roland tinha lhe dito que podia carregar comida para seu próprio
mundo. Disse que já fizera algo parecido uma vez, quando ele, Eddie,
estava dormindo. Eddie achava impossível acreditar naquilo, mas Roland
garantiu que era verdade.
Bem, ainda precisamos tomar muito cuidado, disse Eddie. Puseram dois
caras da alfândega para me vigiar. Ou a nós dois. Não sei quantas pessoas eu
sou agora.
É, precisamos tomar cuidado, respondeu Roland. Não são dois caras;
são cinco. Eddie de repente sentiu uma das mais estranhas sensações de
toda a sua vida. Não mexeu os olhos, mas sentiu que eles haviam se
mexido. Roland os mexera.
Um cara numa camiseta apertada falando ao telefone.
Uma mulher sentada num banco, revirando a bolsa.
Um jovem negro que seria espetacularmente bem-apessoado se não
tivesse um lábio leporino cuja cirurgia só consertara em parte. Ele
examinava as camisetas expostas no quiosque de onde Eddie há pouco
saíra.
Na realidade, não havia nada em nenhuma daquelas pessoas que cha-
masse de fato atenção, mas Eddie as reconheceu. Foi como descobrir aquelas imagens ocultas em quebra-cabeças de crianças, imagens que, uma vez
percebidas, jamais desaparecem. Sentiu um calor mortiço no rosto, por-que o outro é que havia mostrado o que ele devia ter percebido de imedia-to.
Só identificara dois. Sem dúvida o disfarce daqueles três era um
pouco melhor. O que falava ao telefone não tinha um olhar vazio, devia estar de fato imaginando falar com alguém, realmente olhava, e o lugar
onde Eddie estava... era obviamente o ponto para onde os olhos do sujeito insistiam em se voltar. A mulher da bolsa, contudo, não encontrava o que queria, mas nunca desistia; continuava remexendo sem parar. E o
interessado nas camisas teve a chance de examinar pelo menos uma dúzia de vezes cada peça do mostruário giratório.
De repente Eddie se sentiu de novo com cinco anos, com medo de
atravessar a rua sem Henry para segurar sua mão.
Não importa, disse Roland. E também não se preocupe com a comida.
Já comi insetos suficientemente vivos para alguns descerem correndo pela minha
garganta.
E, Eddie respondeu, mas isto é Nova York.
Levou os cachorros e o refrigerante para a ponta do balcão e ficou de
costas para o principal saguão do terminal. Então deu uma olhada no
canto à sua esquerda. Um espelho convexo se projetava como um olho com muita pressão. Pôde ver todos que o seguiam, mas nenhum estava suficientemente próximo para ver a comida e o copo de papel com o refri-
gerante. Isso era bom, porque Eddie não tinha a menor idéia do que iria acontecer.
Ponha a asmina nas coisas com carne. Depois segure tudo em suas mãos. Aspirina.
Bom. Chame como muito bem entender, prisio... Eddie. Mas faça o que
pedi.
Ele tirou o remédio do envelope fechado que enfiara no bolso e,
quando ia colocá-lo no meio de um dos sanduíches, percebeu que Roland
poderia se assustar com o gosto dos sanduíches e se julgar sob risco de
envenenamento. Talvez fosse melhor separar o remédio.
Pôs três comprimidos num dos guardanapos, virou uma aba, depois
acrescentou mais três.
Três agora, três mais tarde, disse. Se houver um mais tarde. Tudo bem. Obrigado.
E então?
Segure tudo.
Eddie tornara a olhar para o espelho convexo. Dois agentes já
caminhavam com ar distraído para a lanchonete, talvez não gostando do
modo como Eddie ficara de costas para eles, talvez suspeitando de algum
truque de mágico em andamento e querendo ver mais de perto. Se
alguma coisa ia acontecer, melhor que acontecesse logo. Eddie pôs as
mãos ao redor da comida e do refrigerante, sentindo o calor dos cachorros-
quentes dentro dos macios guardanapos brancos e o frio da Pepsi. Naquele
momento parecia um sujeito se preparando para transportar o lanche dos
garotos... e então tudo começou a derreter.
Eddie olhou para baixo, os olhos se arregalando, se arregalando, até
parecer que iam saltar das órbitas e ficar balançando.
Podia ver os cachorros-quentes através dos guardanapos. Podia ver a
Pepsi através do copo de papel, o líquido gelado se curvando sobre si
mesmo, assumindo uma nova forma até não poder mais ser visto.
Então pôde ver o balcão de fórmica vermelha através dos cachorros e
uma parede branca através da Pepsi. Suas mãos se aproximavam uma da
outra, a resistência entre elas ficando cada vez menor... De repente as mãos
se fecharam uma na outra, palma contra palma. A comida... os guardana-
pos... a Pepsi... os seis comprimidos... todas as coisas que tinham estado
entre as mãos de Eddie haviam desaparecido.
Isso mais parece um milagre, pensou Eddie atônito, piscando os olhos
para o espelho convexo.
A porta sumira... exatamente como Roland sumira de sua mente.
Coma para valer, meu amigo, pensou Eddie... Mas será que aquela
estranha presença alienígena que se chamava Roland era seu amigo? Isso
parecia longe de estar provado, não é? Roland havia salvado Eddie, não
havia dúvida, mas isso não significava que fosse um escoteiro bonzinho.
Mesmo assim, Eddie gostava de Roland. Tinha medo dele... mas tam-
bém gostava dele.
Achava que, no devido tempo, passaria a gostar muito de Roland,
assim como gostava muito de Henry.
Coma com vontade, forasteiro, pensou. Coma com vontade, não mor-
ra... e volte.
Do seu lado havia alguns guardanapos sujos de mostarda, deixados
por outro freguês. Eddie fez uma bola com eles, começou a sair da lancho-
nete, atirou a bola dos guardanapos numa cesta de lixo e simulou uma