A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três

Stephen King · Capítulo 143 de 274

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A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três

Ficou espantado ao ver que agora era…

Ficou espantado ao ver que agora era Júlio quem parecia aliviado,

mas continuou com uma sensação de vergonha. Júlio Estavez, que nunca

iria fazer mais do que pilotar uma limusine com algumas luzes vermelhas pulsando na capota, pelo resto da vida, tinha sem dúvida mostrado mais coragem do que ele.

— Isso mesmo, doutor. Era cem por cento esquisita. — Puxou um

maço de Chesterfields e enfiou um deles no canto da boca.

— Essas coisas ainda vão matar você, meu amigo — disse George. Júlio assentiu e estendeu o maço.

Os dois fumaram algum tempo em silêncio. Os paramédicos talvez

tivessem encarado tudo como rotina, como Júlio comentara... talvez nada mais mexesse com eles. George, no entanto, ficara assustado, nenhuma dúvida quanto a isso. Mesmo assim George sabia que fora ele quem salvara

a mulher, não os paramédicos, e percebia que Júlio também sabia. Talvez por essa razão Júlio houvesse esperado. A velha mulher negra ajudara, um garoto branco chamara a polícia, mas fora esses dois todo mundo se limi-

tara a ficar parado observando, como se aquilo fosse um maldito filme, show de tevê ou coisa do gênero. Seja como for, no fim das contas tudo caíra em cima dele, George Shavers, um gato assustado cumprindo seu

dever da melhor forma possível.

A mulher esperava o trem que Duke Ellington tinha em tão alta

conta: aquele famoso trem A. Apenas uma bela jovem negra, de calça jeans

e camisa cáqui, à espera do famoso trem A que a levaria a algum ponto ao norte da cidade.

Alguém a havia empurrado.

George Shavers não tinha a menor idéia se a polícia pegara o patife que

fizera aquilo — não era problema dele. Seu problema era a mulher que caíra

gritando na boca do túnel, diante daquele famoso trem A. Fora um milagre que tivesse escapado da terceira linha; a famosa terceira linha que teria feito com ela o que o estado de Nova York fazia com os maus elementos em

Sing-Sing, que faziam uma viagem grátis no famoso trem que os conde-nados chamavam de Velha Faísca.

Ah, os milagres da eletricidade.

Ela tentou rastejar para o lado, mas não houve tempo e o famoso trem

A entrou guinchando na estação, resfolegando, vomitando centelhas porque o condutor vira a mulher mas infelizmente tarde demais, tarde demais para

ele e tarde demais para ela. E as rodas de aço do famoso trem A cortaram as pernas vivas da moça de cima dos joelhos para baixo. E enquanto todos (exceto o garoto branco que chamara a polícia) tinham ficado parados de

olho arregalado (ou sentindo coceira pelo corpo, George supunha), uma negra idosa havia pulado na linha, deslocando um quadril ao fazê-lo (mais tarde receberia uma Medalha por Bravura da prefeitura), e usara a fita que

tinha na cabeça para fazer um torniquete e amarrá-lo em volta de uma das coxas da jovem, onde o sangue esguichava. O rapaz branco gritava por

uma ambulância num dos lados da estação e a velha senhora negra gritava para alguém ajudar, para alguém lhe dar pelo amor de Deus uma gravata, qualquer coisa, não importava o quê, e finalmente um branco também

idoso, tipo executivo, havia relutantemente passado seu cinto enquanto a idosa dama negra erguia os olhos para ele e falava as palavras que, no dia

seguinte, virariam manchete no Daily News de Nova York, palavras que a transformariam numa autêntica e exemplar heroína americana: "Obrigada,

brou." Aí ela enrolou o cinto em volta da perna esquerda da mulher, na metade do caminho entre a virilha e o ponto onde ficava seu joelho esquerdo antes da chegada do famoso trem A.

George tinha ouvido alguém dizer a alguém que as últimas palavras

da jovem negra antes de desmaiar tinham sido: QUEM FOI O SAFA-

DO? VOU ENCONTRAR ELE E LHE DAR UM TIRO NO CU!

Não havia modo de prender o cinto, pois não havia mais buracos na

altura certa. Então a negra idosa manteve a coisa segura no muque até

Júlio, George e os paramédicos chegarem.

George se lembrava da linha amarela, de como a mãe lhe dissera para

nunca, nunca, nunca ultrapassar a linha amarela enquanto estivesse

esperando um trem (famoso ou não). Quando saltou para os trilhos, o cheiro de óleo e eletricidade se misturava ao calor que havia por todos os lados. 0 calor parecia estar emanando dele, da negra idosa, da jovem negra, do trem,

do túnel, do céu invisível lá em cima e do próprio inferno lá embaixo. Lembrava-se de ter pensado de forma meio incoerente: Se tirassem agora a minha pressão, eu arrebentaria o mostrador do aparelho, e então ficou calmo

e gritou pedindo sua maleta, e quando um dos paramédicos tentou pular com ela até onde George estava ele lhe disse para ficar longe, e o paramédico pareceu surpreso, como se estivesse vendo George Shavers pela primeira

vez, e tinha mesmo ficado longe.

George suturou a maior quantidade possível de veias e artérias e,

quando o coração dela começou a falhar, aplicou-lhe uma seringa cheia de

Digitalin. Novo sangue chegou. Trazido por policiais. Quer trazê-la para cima, doutor?, um deles perguntara e George tinha dito que ainda não e

em seguida pegou a agulha e enfiou o líquido na veia dela como se ela fosse uma viciada tremendamente necessitada de uma dose.

Então deixou que a levassem para cima.

Então a levaram embora. No caminho ela acordou.

Então a coisa estranha começou.

 

George deu-lhe uma injeção de Demerol quando os paramédicos a puse-ram na ambulância — ela começara a se mexer e a chorar baixinho. Apli-cou-lhe uma dose capaz de garantir que continuasse tranqüila até chega-

rem ao Irmãs da Misericórdia. Tinha noventa por cento de certeza que, quando chegassem lá, ela ainda continuaria tão viva quanto eles, o que

sem dúvida só marcaria pontos para ele e os outros rapazes.

Os olhos da moça, no entanto, começaram a se agitar quando

eles ainda estavam a seis quadras do hospital. Ela deixou escapar um gemido

espesso.

— Podemos sedá-la de novo, doutor — disse um dos paramédicos.

George mal teve consciência de que era a primeira vez que um para-

médico se dignara a chamá-lo de qualquer outra coisa além de George ou, pior ainda, Georgie.

— Está maluco? Misturando as bolas? Quer dar uma overdose nela? O paramédico recuou.

George tornou a olhar para a jovem negra e os olhos dela o contem-

plavam, despertos e conscientes.

— O que houve comigo? — perguntou ela.

George se lembrou do homem que contara a outro homem o que ela

supostamente teria dito (como acharia o filho-da-puta e lhe daria um tiro no

cu etc. etc). O homem era um branco. George concluiria que isso fora pura

invenção, inspirada pela estranha pulsão humana de tornar situações

naturalmente trágicas ainda mais trágicas ou por puro e simples

preconceito. Tratava-se, afinal, de uma mulher culta, inteligente.— A

senhora teve um acidente — disse ele. — A senhora estava... Os olhos se

fecharam de repente e George achou que ela iria tornar a dormir. Bom.

Que outra pessoa lhe contasse que tinha perdido as pernas. Alguém que

ganhasse mais que 7.600 dólares por ano. Ele havia se deslocado um

pouco para a esquerda, para verificar de novo sua pulsação, quando ela abriu

os olhos mais uma vez. E nesse momento George Shavers teve a

impressão de estar olhando para outra mulher.

— A porra du trem rapô minhas perna. Sinti quandu elas foram

simbora. Tô numa ambulânsss?

— S-s-sim — disse George, de repente sentindo necessidade de

beber alguma coisa. Não necessariamente álcool. Só tomar alguma

coisa. Sua garganta estava seca. Aquilo fora como ver Spencer Tracy em O

Médico e o Monstro, só que tinha sido real.

— Cunsiguiram pegá a porra daquele safado?

— Não — disse George, pensando: o cara ouviu direito, droga, o cara

realmente ouviu direito o que ela disse.

Estava vagamente ciente de que os paramédicos, que pareciam dis-

traídos (mas que talvez estivessem torcendo para ele fazer uma coisa erra-

da), voltavam agora a prestar atenção.

— Bom. Di qualqué jeitu num importa si u cara correu. Eu pego ele.

Corto o piru dele. Fiodaputa! Tu num sabi u qui vô fazê cum aquele

fiodaputa! Eu te digo uma coisa, sua porra de médico! Vou te dizer... te

dizer...

Os olhos dela tornaram a se fechar e George pensou: sim, vá dormir,

por favor durma, não sou pago para isto, não entendo isto, nos falaram em

traumatismo, mas ninguém mencionou esquizofrenia como uma das...

Os olhos se abriram de novo. A primeira mulher voltara. — Que tipo de acidente? — perguntou. — Me lembro de sair do...

— De onde? — disse ele estupidamente.

Ela deu um sorriso breve. Um sorriso doloroso.