A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três

Stephen King · Capítulo 140 de 274

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A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três

O pistoleiro estremeceu involuntariamente. Nem todos os seus lon-

gos anos de treinamento puderam impedir o tremor.

— Será que eles cultivavam essas coisas de que você fala como na

ordem do dia de um maldito sargento responsável pelo recrutamento de

fuzileiros navais: aventuras, paixão pela busca, honra?

— Sim, eles entendiam o que era honra — disse Roland devagar,

pensando em todos que haviam desaparecido.

— Talvez ela tenha penetrado tanto neles quanto o vício da droga

penetrou no meu irmão.

O pistoleiro não disse nada.

— Conheço você — disse Eddie. — Tenho visto muitos caras como

você. Só mais um fanático cantando "Avante Soldados de Cristo" com

uma bandeira numa das mãos e o revólver na outra. Não quero nenhuma

honra. Só quero uma galinha no jantar e uma boa dose. Nessa ordem.

Então é o que estou lhe dizendo: vá em frente, passe. Você consegue. Mas

no minuto em que virar as costas, vou matar o que resta de você.

O pistoleiro não disse nada.

Eddie sorria com um ar velhaco e enxugava as lágrimas com as costas

das mãos.

— Quer saber como chamamos isso no meu mundo?

— Como?

— Empate mexicano.

Por um momento um se limitou a olhar para o outro e então Roland

cravou os olhos na porta. Ambos haviam estado parcialmente conscientes —

Roland um pouco mais que Eddie — de que ocorrera outra daquelas guina-

das, dessa vez para a esquerda. Lá estava uma cintilante coleção de jóias. Algu-

mas sob a proteção de um vidro, mas como a maioria não estava protegida os

dois deduziram que eram pedras de imitação... aquilo que Eddie teria chama-

do de bijuterias. Enquanto as mãos marrom-escuras examinavam certas peças

de um modo nitidamente descuidado, outra vendedora apareceu. Houve uma

conversa em que nenhum deles prestou muita atenção e a Dama (que dama,

pensou Eddie) pediu para ver mais alguma coisa. A vendedora se afastou e foi

então que os olhos de Roland recuaram energicamente.

As mãos escuras reapareceram, só que agora segurando uma bolsa. A

bolsa se abriu. E de repente as mãos estavam recolhendo coisas — aparen-

temente, quase certamente, ao acaso — e pondo na bolsa.

— Bem, você está reunindo uma boa tripulação, Roland — disse

Eddie, num tom amargamente divertido. — Primeiro consegue o básico,

um viciado branco, depois outra peça fundamental, uma negra ladra de

loja...

Mas Roland já andava para o portal entre os mundos, andava depres-

sa, sem olhar absolutamente para Eddie.

— Estou falando sério! — gritou Eddie. — Você atravessa e corto

sua garganta, corto a porra da sua gar...

Antes que ele tivesse tempo de concluir, o pistoleiro sumiu. O que

restou foi seu corpo inerte jogado na praia, respirando.

Por um momento Eddie ficou parado, incapaz de acreditar que Roland

fizera aquilo, que realmente tomara a frente e fizera aquela idiotice a des-

peito de tudo que ele dissera, da sincera garantia que Eddie tinha se esme-

rado em dar sobre quais seriam as conseqüências.

Ficou um instante parado, olhos rolando como os olhos de um cavalo

assustado no início de um temporal... só que, é claro, não havia temporal,

exceto dentro da sua cabeça.

Tudo bem. Tudo bem, porra.

Só mais um instante. Era tudo que o pistoleiro podia ganhar, tudo

que Eddie iria lhe conceder. Deu uma olhada na porta e viu as mãos ne-

gras imobilizadas com um colar de ouro, metade dentro e metade fora da

bolsa que já brilhava como a caverna dos tesouros de um pirata. Embora

não pudesse ouvir o que estava sendo dito, Eddie sentiu que Roland estava

falando com a dona das mãos negras.

Então ele tirou a faca da mochila do pistoleiro e se aproximou do

corpo inerte jogado diante da porta. Os olhos abertos, vítreos e revirados,

exibiam a parte branca.

— Observe, Roland! — gritou Eddie. Aquele vento monótono, idiota,

incessante soprava em seus ouvidos. Meu Deus, só isso já era suficiente para

deixar qualquer um pirado. — Observe com muita atenção! Quero

completar a porra de sua educação! Quero mostrar o que acontece

quando você fode com os irmãos Dean!

Baixou a faca para a garganta do pistoleiro.

 

CAPITULO 2

 

Checando as Opções

 

Agosto, 1959:

Quando o interno saiu meia hora depois, encontrou Júlio encostado

na ambulância que ainda estava estacionada na vaga da emergência do

Hospital Irmãs da Misericórdia na rua 23. O salto de uma das botas de bico

pontudo de Júlio estava apoiado na grade da frente. Ele trocara de roupa e

usava agora uma calça rosa brilhante e uma camisa azul com seu nome

bordado em dourado sobre o bolso esquerdo: era o uniforme da liga de

boliche. George consultou o relógio e viu que a equipe de Júlio — Ases da

Supremacia — já devia estar jogando.

— Achei que você fosse jogar — falou George Shavers. Era um interno

do hospital. — Como eles vão vencer sem o Lançador Prodígio?

— Chamaram o Miguel Basale para ficar no meu lugar. Não é dos

melhores, mas às vezes joga muito. Eles vão ficar bem. — Júlio fez uma

pausa. — Estou curioso para saber como terminou. — Ele era o motorista,

um cubano com um senso de humor que George achava que nem ele

mesmo sabia que tinha. George olhou em volta. Não viu nenhum dos

paramédicos que tinham vindo na ambulância.

— Onde estão? — George perguntou.

— Quem? Os incríveis irmãos Bobbsey? Onde você acha que estão?

Procurando mulher no Village. E a mulher que trouxemos, sabe se ela vai

morrer?