A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três
O pistoleiro estremeceu involuntariamente. Nem todos os seus lon-
gos anos de treinamento puderam impedir o tremor.
— Será que eles cultivavam essas coisas de que você fala como na
ordem do dia de um maldito sargento responsável pelo recrutamento de
fuzileiros navais: aventuras, paixão pela busca, honra?
— Sim, eles entendiam o que era honra — disse Roland devagar,
pensando em todos que haviam desaparecido.
— Talvez ela tenha penetrado tanto neles quanto o vício da droga
penetrou no meu irmão.
O pistoleiro não disse nada.
— Conheço você — disse Eddie. — Tenho visto muitos caras como
você. Só mais um fanático cantando "Avante Soldados de Cristo" com
uma bandeira numa das mãos e o revólver na outra. Não quero nenhuma
honra. Só quero uma galinha no jantar e uma boa dose. Nessa ordem.
Então é o que estou lhe dizendo: vá em frente, passe. Você consegue. Mas
no minuto em que virar as costas, vou matar o que resta de você.
O pistoleiro não disse nada.
Eddie sorria com um ar velhaco e enxugava as lágrimas com as costas
das mãos.
— Quer saber como chamamos isso no meu mundo?
— Como?
— Empate mexicano.
Por um momento um se limitou a olhar para o outro e então Roland
cravou os olhos na porta. Ambos haviam estado parcialmente conscientes —
Roland um pouco mais que Eddie — de que ocorrera outra daquelas guina-
das, dessa vez para a esquerda. Lá estava uma cintilante coleção de jóias. Algu-
mas sob a proteção de um vidro, mas como a maioria não estava protegida os
dois deduziram que eram pedras de imitação... aquilo que Eddie teria chama-
do de bijuterias. Enquanto as mãos marrom-escuras examinavam certas peças
de um modo nitidamente descuidado, outra vendedora apareceu. Houve uma
conversa em que nenhum deles prestou muita atenção e a Dama (que dama,
pensou Eddie) pediu para ver mais alguma coisa. A vendedora se afastou e foi
então que os olhos de Roland recuaram energicamente.
As mãos escuras reapareceram, só que agora segurando uma bolsa. A
bolsa se abriu. E de repente as mãos estavam recolhendo coisas — aparen-
temente, quase certamente, ao acaso — e pondo na bolsa.
— Bem, você está reunindo uma boa tripulação, Roland — disse
Eddie, num tom amargamente divertido. — Primeiro consegue o básico,
um viciado branco, depois outra peça fundamental, uma negra ladra de
loja...
Mas Roland já andava para o portal entre os mundos, andava depres-
sa, sem olhar absolutamente para Eddie.
— Estou falando sério! — gritou Eddie. — Você atravessa e corto
sua garganta, corto a porra da sua gar...
Antes que ele tivesse tempo de concluir, o pistoleiro sumiu. O que
restou foi seu corpo inerte jogado na praia, respirando.
Por um momento Eddie ficou parado, incapaz de acreditar que Roland
fizera aquilo, que realmente tomara a frente e fizera aquela idiotice a des-
peito de tudo que ele dissera, da sincera garantia que Eddie tinha se esme-
rado em dar sobre quais seriam as conseqüências.
Ficou um instante parado, olhos rolando como os olhos de um cavalo
assustado no início de um temporal... só que, é claro, não havia temporal,
exceto dentro da sua cabeça.
Tudo bem. Tudo bem, porra.
Só mais um instante. Era tudo que o pistoleiro podia ganhar, tudo
que Eddie iria lhe conceder. Deu uma olhada na porta e viu as mãos ne-
gras imobilizadas com um colar de ouro, metade dentro e metade fora da
bolsa que já brilhava como a caverna dos tesouros de um pirata. Embora
não pudesse ouvir o que estava sendo dito, Eddie sentiu que Roland estava
falando com a dona das mãos negras.
Então ele tirou a faca da mochila do pistoleiro e se aproximou do
corpo inerte jogado diante da porta. Os olhos abertos, vítreos e revirados,
exibiam a parte branca.
— Observe, Roland! — gritou Eddie. Aquele vento monótono, idiota,
incessante soprava em seus ouvidos. Meu Deus, só isso já era suficiente para
deixar qualquer um pirado. — Observe com muita atenção! Quero
completar a porra de sua educação! Quero mostrar o que acontece
quando você fode com os irmãos Dean!
Baixou a faca para a garganta do pistoleiro.
CAPITULO 2
Checando as Opções
Agosto, 1959:
Quando o interno saiu meia hora depois, encontrou Júlio encostado
na ambulância que ainda estava estacionada na vaga da emergência do
Hospital Irmãs da Misericórdia na rua 23. O salto de uma das botas de bico
pontudo de Júlio estava apoiado na grade da frente. Ele trocara de roupa e
usava agora uma calça rosa brilhante e uma camisa azul com seu nome
bordado em dourado sobre o bolso esquerdo: era o uniforme da liga de
boliche. George consultou o relógio e viu que a equipe de Júlio — Ases da
Supremacia — já devia estar jogando.
— Achei que você fosse jogar — falou George Shavers. Era um interno
do hospital. — Como eles vão vencer sem o Lançador Prodígio?
— Chamaram o Miguel Basale para ficar no meu lugar. Não é dos
melhores, mas às vezes joga muito. Eles vão ficar bem. — Júlio fez uma
pausa. — Estou curioso para saber como terminou. — Ele era o motorista,
um cubano com um senso de humor que George achava que nem ele
mesmo sabia que tinha. George olhou em volta. Não viu nenhum dos
paramédicos que tinham vindo na ambulância.
— Onde estão? — George perguntou.
— Quem? Os incríveis irmãos Bobbsey? Onde você acha que estão?
Procurando mulher no Village. E a mulher que trouxemos, sabe se ela vai
morrer?