A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três
Pegava duas cartas e equilibrava uma contra…
Construía com eles.
Pegava duas cartas e equilibrava uma contra a outra, formando um A
sem o traço horizontal. Ao lado fazia outra forma de A. Por cima das duas estendia uma única carta, formando um telhado. E assim colocava A após
A, com as respectivas coberturas, até haver uma casa de cartas no tampo da escrivaninha. Quando a pessoa se curvava e olhava com atenção, via algo
que lembrava uma colmeia de triângulos. Cimi tinha visto essas casas caí-rem centenas de vezes (Cláudio também vira isso acontecer de vez em quan-do, não tantas vezes, pois era trinta anos mais novo que Cimi, o mesmo
Cimi que esperava em breve poder se aposentar com a vaca da sua mulher e ir para uma fazenda que possuíam no norte de Nova Jersey, onde dedicaria todo o seu tempo ao jardim... e a sobreviver à vaca com quem tinha se
casado; à mulher, não à sogra, que há muito o fizera abandonar qualquer idéia otimista que pudesse ter cultivado de comer fettucini no velório de La Monstra, La Monstra era eterna, ainda que sobreviver à vaca fosse pelo me-
nos uma esperança; seu pai usava um ditado que, quando traduzido, signi-ficava algo como "Deus mija todo dia na sua nuca, mas só te afoga uma vez", e embora não tivesse certeza absoluta, Cimi achava que isso significava
que Deus, afinal, era um cara muito legal e assim ele, Cimi, podia esperar sobreviver a uma delas, mesmo que não à outra), mas só uma vez vira Balazar perder as estribeiras por causa do desabamento. Em geral era algum aconte-
cimento imprevisível que provocava a queda — alguém fechando com força uma porta em outro cômodo ou um bêbado esbarrando numa parede; hou-
ve ocasiões em que Cimi tinha visto um edifício que o Sr. Balazar (que ele ainda chamava de Patrão, como se o homem fosse personagem de uma tira em quadrinhos de Chester Gould) passara horas construindo cair porque os
graves do toca-discos automático eram altos demais. Outras vezes as leves construções caíam aparentemente sem qualquer razão. Um dia — era uma história que ele contara pelo menos cinco mil vezes, uma história de que
cada pessoa que ele conhecia (com exceção de si mesmo) estava farta — o Patrão erguera os olhos das ruínas e dissera:
— Está vendo isto, Cimi? Por cada mãe que amaldiçoou Deus pelo
filho morto na estrada, por cada pai que amaldiçoou o homem que o
despediu da fábrica e o deixou sem trabalho, por cada criança que
nasceu para sofrer e pergunta por quê, esta é a resposta. Nossas vidas
são como essas coisas que construo. Às vezes elas caem por alguma
razão, às vezes caem por absolutamente nenhuma razão.
Carlocimi Dretto considerou aquele o mais profundo depoimento
que já ouvira sobre a condição humana.
A única vez em que Balazar perdera as estribeiras por causa do colap-
so de uma de suas estruturas acontecera 12, talvez 14 anos antes. Havia
um sujeito que fora se encontrar com ele para falar da venda de bebidas.
Um cara sem nenhuma classe, sem educação. Um cara que cheirava como
se tomasse um banho por ano, precisasse dele ou não. Um irlandês, em
outras palavras. E naturalmente era só bebida. Com irlandeses era sempre
bebida, nunca narcóticos. E aquele irlandês achou que o que havia em
cima da mesa do Patrão era uma piada.
— Faça um pedido! — gritou ele depois de o Patrão ter lhe explicado,
do modo como um cavalheiro explica a outro, por que era impossível
negociarem. E então o irlandês, um daqueles caras com cabelo ruivo
ondulado e uma pele tão branca que era como se tivesse tuberculose ou
algo do gênero, um daqueles caras cujos nomes começavam com O e
que depois tinham aquela pequena marca curva entre o O e o verdadeiro
nome, tinha soprado na mesa do Patrão como um bambino soprando as
velas num bolo de aniversário, e cartas voaram para todo lado ao redor da
cabeça de Balazar e Balazar tinha aberto a gaveta superior esquerda da
escrivaninha, a gaveta onde outros executivos talvez guardassem seus
documentos pessoais ou seus memorandos particulares ou algo do
gênero, e de lá
havia puxado um 45 e atirado na cabeça do irlandês. A expressão de Balazar
nem se alterou, e depois de Cimi e um sujeito chamado Truman Alexander,
que morrera de um ataque cardíaco quatro anos atrás, enterrarem o
irlandês sob um galinheiro em algum lugar nos arredores de
Sedonville, Connecticut, Balazar tinha dito a Cimi:
— Cabe aos homens construir coisas, paisano. Cabe a Deus soprá-
las. Concorda?
— Sim, Sr. Balazar — tinha dito Cimi. Ele concordava.
Balazar abanara a cabeça satisfeito.
— Fizeram o que eu disse? Puseram o cara em algum lugar onde
galinhas, patos ou algo desse tipo possam cagar em cima dele?