A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três
— Arranque isso! — rosnou o pistoleiro.…
— Arranque isso! — rosnou o pistoleiro. Eddie enrolou uma grossa ponta de fita adesiva em cada mão e puxou
o mais forte que pôde. Doeu, doeu demais. Pare de espernear, pensou ele. As coisas poderiam ser piores. Você poderia ter o peito cabeludo, como Henry.
Olhou para baixo e viu a faixa vermelha de pele irritada com quase
vinte centímetros de largura cruzando seu esterno. Logo acima do plexo solar ficava o ponto onde ele havia se cortado. O sangue brotava de uma
cavidade e descia para o umbigo num fio escarlate. Sob as axilas, os saqui-nhos de droga balançavam agora como alforjes mal amarrados.
— Tudo bem — disse a voz abafada atrás da porta do banheiro para
outra pessoa. — Vamos em...
Eddie perdeu o resto da frase por causa do surto inesperado de dor
nas suas costas quando o pistoleiro arrancou sem cerimônia o resto do
cinturão de fita.
Ele trincou os dentes para não gritar.
— Vista a camisa — disse o pistoleiro, cujo rosto, que Eddie achou
que tinha o máximo de palidez admissível numa pessoa viva, apresentava agora o tom de cinzas ancestrais. O pistoleiro pegou as sobras da fita (trans-
formada num emaranhado caótico, onde os grandes saquinhos de coisa branca lembravam estranhos casulos) com a mão esquerda e atirou tudo de lado. Eddie viu sangue fresco vertendo da bandagem improvisada na
mão direita do pistoleiro. — Vista logo.
Houve um ruído surdo. Não era mais alguém batendo e pedindo
para ele sair. Eddie ergueu os olhos a tempo de ver a porta do banheiro estremecer, ver as luzes piscarem. Estavam tentando arrombá-la.
Levantou a camisa com dedos que, de repente, pareciam grandes e
desajeitados demais. A manga esquerda estava do avesso. Tentou ajeitá-la pelo buraco, deixou a mão parada um instante, depois puxou-a com tanta força que arregaçou de novo a manga para trás.
Pam, e a porta do banheiro novamente tremeu. — Deuses, como você consegue ser tão atolado? — queixou-se o
pistoleiro, enfiando seu próprio punho na manga esquerda da camisa de
Eddie, que agarrou a ponta da manga quando o pistoleiro puxou a mão. Agora o pistoleiro segurava a camisa para Eddie como um mordomo seguraria um casaco para o patrão. Eddie a vestiu e procurou o botão mais
baixo.