A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três
Roland Toma Seu Remédio
Agora Jack Mort sabia que o pistoleiro estava ali. Se Mort fosse outra
pessoa — um Eddie Dean ou uma Odetta Walker, por exemplo —, Roland teria confabulado com ele, nem que fosse apenas para abrandar seu pânico
e confusão naturais ao sentir de repente o ego de outra pessoa abrir brutal-
mente caminho para o banco do carona de seu corpo, um corpo que o cérebro pilotara toda a sua vida.
Mas como Mort era um monstro — pior do que Detta Walker ja-
mais fora ou poderia ser —, Roland não se esforçou para dar explicações,
sequer para falar. Ouvia os clamores (Quem é você? O que está me aconte-
cendo?), mas não os levava em conta. O pistoleiro se concentrava em sua curta lista de necessidades, usando a mente do homem sem qualquer cons-
trangimento. Os clamores se transformaram em gritos de terror. O pisto-
leiro continuou simplesmente a desconsiderá-los.
O único jeito de permanecer no covil de vermes que era a mente
daquele sujeito era encará-lo como mera combinação de atlas e enciclopé-
dia. Mort tinha toda a informação de que Roland precisava. O plano de Roland era grosseiro, mas às vezes o grosseiro era superior ao sutil. Quando
se tratava de planejar, não existiam no universo duas criaturas mais dife-
rentes do que Roland e Jack Mort.
Num planejamento grosseiro, você deixa espaço para a improvisação.
E a improvisação a curto prazo sempre fora um dos pontos fortes de Roland. Um homem gordo com lentes nos olhos, como o homem calvo que enfiara a cabeça na sala de Mort cinco minutos atrás (ao que parecia, no mundo de Eddie muita gente usava essas lentes, que o linguajar de Mort identificava como "óculos"), entrou no elevador com ele. Olhou para a maleta na mão do homem que ele acreditava ser Jack Mort e depois para o próprio Mort.
— Vai se encontrar com Dorfman, Jack?
O pistoleiro não disse nada.
— Se acha que vai demovê-lo daquela idéia de partir para o leasing,
tenha certeza de que vai perder seu tempo — disse o homem gordo,
piscando quando o colega deu um rápido passo para trás. As portas da
pequena caixa se fecharam e de repente eles estavam caindo.
Roland se agarrou com toda força à mente de Mort, ignorando os
gritos, e percebeu que estava tudo bem. A queda era controlada.
— Se falei fora de hora, desculpe — disse o homem gordo. O pistoleiro
pensou: Este também está com medo. — Você sabe lidar com o jumento melhor que qualquer um na empresa, essa é a verdade.
O pistoleiro não disse nada. Só queria sair daquele caixão que caía.
— Sei como é difícil — continuou o homem gordo avidamente. —
Ora, ontem mesmo eu estava almoçando com...
A cabeça de Jack Mort se virou e, atrás dos óculos de aro dourado de
Jack Mort, olhos que pareciam mostrar um tom azulado um tanto dife-rente do tom que os olhos de Jack tinham tido até então fitaram o homem
gordo.
— Cale a boca — disse o pistoleiro numa entonação neutra. A cor abandonou o rosto do homem gordo, que deu dois passos rápidos
para trás. As nádegas flácidas encostaram nos painéis de compensado imi-
tando madeira que havia nos fundos do pequeno ataúde móvel. De repente a coisa parou. As portas se abriram e o pistoleiro, usando o corpo de Jack
Mort como uma muda de roupas feita sob medida, saiu sem olhar para trás.
O gordo manteve o dedo no botão ABRIR PORTA do elevador e esperou lá dentro até Mort estar fora de vista. Ele sempre teve um parafuso solto, pensou
o gordo, mas isso pode ser sério. Pode ser um colapso nervoso.