A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três
Conservava-se atento ao que estava parado na…
Conservava-se atento ao que estava parado na areia. Quando o cabe-
lo caía em seu rosto, tirava-o dos olhos. A imagem parecia não estar se aproximando. O sol alcançou o ponto mais alto do céu, onde pareceu ficar por tempo demais. Roland imaginou que estava outra vez no deserto,
em algum lugar entre a última choça de colono
(a fruta musical quanto mais você come mais você toca)
e o posto de parada onde o garoto
(o seu Isaac)
tinha esperado sua chegada.
Os joelhos vergaram, se endireitaram, vergaram de novo, tornaram a
se endireitar. Quando o cabelo caiu outra vez em seus olhos, ele não se preocupou em tirá-lo; não teve a energia necessária. Olhou para o objeto,
que agora lançava uma sombra estreita em direção ao interior, e conti-nuou andando.
Então, febril ou não febril, pôde ver o que era.
Era uma porta.
A menos de quatrocentos metros dela, os joelhos de Roland fraque-
jaram de novo e dessa vez ele não conseguiu aprumar as juntas. Caiu; a mão direita se arrastou com força pela areia e pelas conchas, as pontas dos
dedos esbravejando quando as cascas recentes das feridas eram raspadas. Os tocos começaram a sangrar de novo.
Então ele rastejou. Rastejou com o ímpeto constante, o rugido e o
recuo do mar Ocidental em seus ouvidos. Usou os cotovelos e os joelhos, abrindo sulcos na areia, avançando sobre monturos do limo verde das algas que marcavam a linha da maré alta. Acreditou que o vento ainda
estivesse soprando — devia estar, pois os calafrios não paravam de lhe fustigar o corpo —, mas o único vento que conseguia ouvir era o sopro áspero que entrava e saía veloz de seus próprios pulmões.
A porta foi ficando mais perto.
Mais perto.
Finalmente, por volta das três horas daquele dia longo e frenético,
com sua sombra começando a se alongar para a sua esquerda, ele a alcan-
çou. Acocorou-se e olhou-a com ar fatigado.