A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três
— O negociador. O... — Uma breve…
— O negociador. O... — Uma breve pausa. — O balconista.
O'Mearah e Carl Delevan trocaram um olhar.
— Cabelo preto? — perguntou Delevan. — Meio atarracado?
— Sim. — De novo uma pausa muito breve. — Olhos castanhos.
Uma pequena cicatriz embaixo de um deles.
Havia algo naquele sujeito... 0'Mearah não conseguiu identificar o
que naquele momento, mas lembrou-se disso mais tarde, quando já não
havia muitos outros assuntos em que pensar. Dos temas restantes, o mais
importante era o fato de a insígnia dourada de detetive não mais importar;
o simples fato de terem conseguido conservar os empregos já poderia ser
considerado puro e simples milagre.
Mas anos mais tarde houve um breve momento de revelação quando
O'Mearah levou os dois filhos ao Museu da Ciência em Boston. Tinham uma
máquina ali — um computador — que fazia tic-tac-tou e a não ser que você
selecionasse um X no quadrado do meio logo de cara, a máquina rejeitaria
todas as suas tentativas posteriores de identificação. Havia sempre uma pausa
enquanto ela checava todas as possíveis combinações. Ele e os filhos ficaram
fascinados. Mas havia alguma coisa fantástica naquilo... e então O'Mearah
se lembrou do homem de terno azul. Lembrou-se porque o Terno Azul
tinha aquela mesma mania. Falar com ele fora como falar com um robô.
Delevan não teve a mesma sensação, mas uma noite, nove anos mais
tarde, quando levou seu próprio filho (então com 18 anos e prestes a en-
trar para a universidade) ao cinema, cerca de trinta minutos depois de o
filme começar, ficou inesperadamente de pé e gritou: É ele! É ELE! É o cara
da porra do terno azul! O cara que estava no Cie...
Alguém gritou cala essa boca!, mas foi uma reclamação inútil; Delevan,
mais de 30 quilos acima do peso e fumante pesado, seria fulminado por
um ataque do coração fatal antes de o queixoso acabar de pronunciar a
segunda palavra. O homem de terno azul que se aproximou naquele dia
daquele carro-patrulha e contou a eles sobre o roubo de sua carteira não
era parecido com o astro do filme, mas as palavras ditas de modo inteira-
mente amorfo tinham sido as mesmas; assim como o modo um tanto
rígido, mas gracioso, como ele se movia também era o mesmo.
O filme, é claro, chamava-se O Exterminador do Futuro.