A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três

Stephen King · Capítulo 10 de 274

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A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três

Segurando-se na iúca com a mão esquerda,…

Segurando-se na iúca com a mão esquerda, arrebatou o cantil não de

todo vazio com o braço direito e passou-o por cima do ombro. Depois

pegou sua bolsa. Quando se levantou, a fraqueza se derramou novamente sobre ele e o fez baixar a cabeça, esperando, conformado.

A fraqueza passou.

Caminhando com os passos oscilantes, hesitantes de um homem nos

últimos estágios de deambulação embriagada, o pistoleiro foi descendo a

praia. Em certo ponto, parou contemplando um oceano escuro como vi-nho de amora e depois tirou da bolsa o resto do charque. Comeu metade e dessa vez tanto a boca quanto o estômago aceitaram a carne com um

pouco menos de relutância. Virou-se e comeu a outra metade enquanto via o sol brotar sobre as montanhas onde Jake havia morrido: primeiro parecendo se agarrar nos dentes áridos e cruéis dos picos, depois se er-

guendo sobre eles.

Roland manteve o rosto voltado para o sol, fechou os olhos e sorriu.

Comeu o resto do charque.

Pensou: Muito bem. Agora sou um homem sem comida, com dois de-

dos a menos na mão e um a menos no pé do que tinha quando nasci; sou um

pistoleiro com balas que podem não disparar; estou passando mal por causa

da mordida de um monstro e não tenho medicamentos; tenho água para um

dia, com sorte; posso conseguir andar talvez uns vinte quilômetros se puser

em ação minhas últimas forças. Sou, em suma, um homem à beira de qual-

quer coisa.

Para que lado deveria andar? Tinha vindo do leste; não poderia an-

dar sobre o mar a oeste sem os poderes de um santo ou de um messias.

Sobravam, então, norte e sul.

Norte.

Foi essa a resposta de seu coração. Não havia dúvida.

Norte.

O pistoleiro começou a andar.

 

Andou por três horas. Caiu duas vezes e da segunda achou que não

conseguiria mais se levantar. Então uma onda veio em sua direção.

Chegou tão perto que ele se lembrou dos revólveres e estava em pé

antes de perceber, apoiado em pernas que tremiam como pernas-de-

pau.

Achou que tinha conseguido andar uns seis quilômetros naquelas

três horas. Agora o sol estava ficando mais quente, mas não o bastante

para explicar o martelar em sua cabeça ou o suor correndo pelo rosto; nem

a brisa marinha era forte o bastante para explicar os acessos de tremedeira

que vez por outra tomavam conta dele, fazendo seu corpo se encolher com

a pele arrepiada e os dentes batendo.

Febre, pistoleiro, disse rindo o homem de preto. O que sobrou dentro

de você acabou de se incendiar.

Os traços vermelhos da infecção estavam mais pronunciados; vindo

do pulso direito, tinham marchado para cima e se encontravam a meio

caminho do cotovelo.

Completou outro quilômetro e meio e esvaziou o cantil, que amar-

rou na cintura junto com o outro. A paisagem era monótona, desagradá-

vel. O mar à sua direita, montanhas à esquerda, a areia cinzenta e coberta

de conchas sob as solas das botas cortadas. As ondas indo e vindo. Procu-

rou as lagostrosidades e não viu nenhuma. Caminhava de lugar nenhum

para lugar nenhum, um homem de outro tempo que, ao que tudo indica-

va, tinha alcançado um ponto final sem nenhum sentido.

Pouco antes do meio-dia, tornou a cair e novamente achou que não

conseguiria mais se levantar. O lugar era ali, então. Ali. Era o limite, afinal.

Apoiado nas mãos e nos joelhos, ergueu a cabeça como um lutador

atordoado... e a alguma distância à sua frente, talvez um quilômetro e

meio, talvez cinco (era difícil avaliar as distâncias com aquelas extensões

de praia que não se alteravam e a febre trabalhando dentro dele, fazendo as

pálpebras pulsarem para cima e para baixo), viu algo novo. Algo que esta-

va em pé na praia.

O que seria?

(três)

Não tinha importância.

(três é o número do seu destino)

O pistoleiro conseguiu se levantar de novo. Resmungou

alguma coisa, algum lamento que só as aves marinhas que o

circundavam ouviram (e como elas gostariam de me arrancar os olhos,

pensou, como gostariam de um petisco tão saboroso!), e foi em frente,

oscilando mais agora, deixando atrás de si estranhas marcas em

forma de curvas e arcos.