A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três
Segurando-se na iúca com a mão esquerda,…
Segurando-se na iúca com a mão esquerda, arrebatou o cantil não de
todo vazio com o braço direito e passou-o por cima do ombro. Depois
pegou sua bolsa. Quando se levantou, a fraqueza se derramou novamente sobre ele e o fez baixar a cabeça, esperando, conformado.
A fraqueza passou.
Caminhando com os passos oscilantes, hesitantes de um homem nos
últimos estágios de deambulação embriagada, o pistoleiro foi descendo a
praia. Em certo ponto, parou contemplando um oceano escuro como vi-nho de amora e depois tirou da bolsa o resto do charque. Comeu metade e dessa vez tanto a boca quanto o estômago aceitaram a carne com um
pouco menos de relutância. Virou-se e comeu a outra metade enquanto via o sol brotar sobre as montanhas onde Jake havia morrido: primeiro parecendo se agarrar nos dentes áridos e cruéis dos picos, depois se er-
guendo sobre eles.
Roland manteve o rosto voltado para o sol, fechou os olhos e sorriu.
Comeu o resto do charque.
Pensou: Muito bem. Agora sou um homem sem comida, com dois de-
dos a menos na mão e um a menos no pé do que tinha quando nasci; sou um
pistoleiro com balas que podem não disparar; estou passando mal por causa
da mordida de um monstro e não tenho medicamentos; tenho água para um
dia, com sorte; posso conseguir andar talvez uns vinte quilômetros se puser
em ação minhas últimas forças. Sou, em suma, um homem à beira de qual-
quer coisa.
Para que lado deveria andar? Tinha vindo do leste; não poderia an-
dar sobre o mar a oeste sem os poderes de um santo ou de um messias.
Sobravam, então, norte e sul.
Norte.
Foi essa a resposta de seu coração. Não havia dúvida.
Norte.
O pistoleiro começou a andar.
Andou por três horas. Caiu duas vezes e da segunda achou que não
conseguiria mais se levantar. Então uma onda veio em sua direção.
Chegou tão perto que ele se lembrou dos revólveres e estava em pé
antes de perceber, apoiado em pernas que tremiam como pernas-de-
pau.
Achou que tinha conseguido andar uns seis quilômetros naquelas
três horas. Agora o sol estava ficando mais quente, mas não o bastante
para explicar o martelar em sua cabeça ou o suor correndo pelo rosto; nem
a brisa marinha era forte o bastante para explicar os acessos de tremedeira
que vez por outra tomavam conta dele, fazendo seu corpo se encolher com
a pele arrepiada e os dentes batendo.
Febre, pistoleiro, disse rindo o homem de preto. O que sobrou dentro
de você acabou de se incendiar.
Os traços vermelhos da infecção estavam mais pronunciados; vindo
do pulso direito, tinham marchado para cima e se encontravam a meio
caminho do cotovelo.
Completou outro quilômetro e meio e esvaziou o cantil, que amar-
rou na cintura junto com o outro. A paisagem era monótona, desagradá-
vel. O mar à sua direita, montanhas à esquerda, a areia cinzenta e coberta
de conchas sob as solas das botas cortadas. As ondas indo e vindo. Procu-
rou as lagostrosidades e não viu nenhuma. Caminhava de lugar nenhum
para lugar nenhum, um homem de outro tempo que, ao que tudo indica-
va, tinha alcançado um ponto final sem nenhum sentido.
Pouco antes do meio-dia, tornou a cair e novamente achou que não
conseguiria mais se levantar. O lugar era ali, então. Ali. Era o limite, afinal.
Apoiado nas mãos e nos joelhos, ergueu a cabeça como um lutador
atordoado... e a alguma distância à sua frente, talvez um quilômetro e
meio, talvez cinco (era difícil avaliar as distâncias com aquelas extensões
de praia que não se alteravam e a febre trabalhando dentro dele, fazendo as
pálpebras pulsarem para cima e para baixo), viu algo novo. Algo que esta-
va em pé na praia.
O que seria?
(três)
Não tinha importância.
(três é o número do seu destino)
O pistoleiro conseguiu se levantar de novo. Resmungou
alguma coisa, algum lamento que só as aves marinhas que o
circundavam ouviram (e como elas gostariam de me arrancar os olhos,
pensou, como gostariam de um petisco tão saboroso!), e foi em frente,
oscilando mais agora, deixando atrás de si estranhas marcas em
forma de curvas e arcos.