A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três
— Diga meu nome todol — Uma…
— Detta.
— Diga meu nome todol — Uma histeria perigosa ondulou na voz
dela e nesse momento Eddie achou ótimo não poder vê-la.
— Detta Walker.
— Bom. — O laço afrouxou mais um pouco. — Agora me escute,
coisa ruim, e preste atenção se quisé ficá vivo té o pôr do sol. Num tente fazê gracinhas. Ti vi tentá puxá aquele revólver que eu peguei enquanto tu
tava dormindo. Num tenta nada pruquê Detta tá vendo tudo. Ela vê o que tu vai tentá antes de tu começá. Cum certeza.
E ela continuou:
— Também num pensa que pode bancá o engraçadinho pruquê num
tenho perna. Aprendi a fazer um monte de coisas desde que perdi as per-nas e já consegui pegá os dois revólveres de vocês, putos otários. Isso devia
servir de lição procês. Num acha que sim?
— Acho — resmungou Eddie. — Não estou vendo graça em nada. — Bem, bom. Isso é muito bom. — Ela deu uma risada. — Farejei
como uma cadela esperta enquanto tu tava dormindo. Preparei todo esse lance em que te meti. E aqui tá o que eu quero que tu faça, pão careca: põe as mão atrás das costas e vai tateando té encontrar um laço
como aquele que pus em volta do teu pescoço. Tem três deles. Fiquei trançando os laço enquanto tu tava drumindo, preguiçoso! — Ela voltou a rir. — Quando sentir o laço, põe os pulso um contra o outro
e enfia os pulso nele.
"Então tu vai sentir minha mão puxando o nó até ele ficar firme, e
quando tu sentir isso, tu vai dizer: 'Esta é minha chance pra atacar essa
negra puta. Enquanto ela não consegue puxar de vez a porra dessa corda.’ Mas... — Aqui a voz de Detta ficou abafada e reproduziu uma caricatura
do sotaque sulista. — E melhor dá uma olhada em volta antes de começá a fazê alguma coisa precipitada.”
Eddie obedeceu. Detta lembrava como nunca uma bruxa, uma coisa
suja, pastosa, que teria provocado medo em corações muito mais destemi-dos que o de Eddie. O vestido que estivera usando na Macy's quando Roland a raptou estava agora imundo e rasgado. Usara a faca que tinha
trazido da bolsa do pistoleiro (aquela que Eddie e Roland tinham usado no avião ao cortar a fita que amarrava a droga) para cortar o vestido em dois pontos, improvisando coldres logo acima do contorno dos quadris.
As coronhas gastas dos revólveres do pistoleiro despontavam deles.
Detta tinha a voz abafada porque a ponta da corda estava presa em
seus dentes. Uma ponta recentemente cortada brotava de um dos lados
do sorriso; o resto da corda, a parte que levava ao laço em volta do pes-coço de Eddie, projetava-se do outro lado. Havia algo tão predatório e bárbaro naquela imagem — com a corda presa entre os dentes — que
Eddie ficou petrificado, fitando-a com um horror que só fazia o riso dela aumentar.
— Nenhuma gracinha enquanto cuido dos lacinhos, certo? — disse
ela com aquela voz abafada. — Experimenta brincá e vai vê como cuido da tua traquéia com meus próprios dentes, puto. E dessa vez eu não vou
afrouxar. Tá entendendo?
Eddie não confiou em sua voz para responder. Só abanou a cabeça.
— Bom. Talvez consiga tornar tua vida um pouquinho mais longa,
quem sabe.
— Se eu não viver — gemeu Eddie —, você nunca mais terá o prazer
de roubar alguma coisinha na Macy's. Porque ele vai saber e todo mundo vai cair fora do jogo.
— Cala a boca — disse Detta... quase num murmúrio. — Cala essa
boca. Deixa tuas idéias pras pessoas que ainda podem tê idéias. Tudo que
tu tem a fazer é ir levando as mãos pra aquele laço.
Estive trançando os laços enquanto tu tava dormindo, dissera ela, e com nojo e crescente alarme Eddie descobriu que Detta sabia muito bem o que
estava dizendo. A corda fora transformada numa série de nós de correr
com três voltas cada um. O primeiro Detta havia laçado ao redor de seu pescoço enquanto ele dormia. O segundo mantinha suas mãos atrás das
costas. Então Detta o empurrou bruscamente para o lado e mandou que
ele erguesse os pés até os calcanhares encostarem nas nádegas. Eddie per-cebeu onde aquilo iria chegar e não se mexeu. Então Detta tirou um dos
revólveres de Roland de uma das fendas do vestido, engatilhou e pressio-
nou o cano contra a têmpora de Eddie.