A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três

Stephen King · Capítulo 136 de 274

Páginas do PDF

A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três

rápido que a máquina (perdendo a própria…

rápido que a máquina (perdendo a própria vida ao fazê-lo, uh, uh) e como Bar'bry Allen havia rejeitado cruelmente um jovem pretendente cego de

amor (e acabara morrendo de vergonha, uh, uh), havia canções sobre como era estar por baixo, por fora e ser ignorado na cidade, como era ser afasta-do de um emprego que era capaz de exercer só porque a sua pele tinha a

cor errada, como era ser jogado numa cela de cadeia e chicoteado pelo Sr. Charlie porque sua pele era negra e você tinha se atrevido, uh, uh, a se

sentar na área reservada às pessoas brancas no balcão da F. W. Woolworths em Montgomery, Alabama.

Absurdamente ou não, foi apenas a partir daí que ela ficou curiosa

sobre os próprios pais, e os pais deles, e os pais dos pais antes deles. Nunca havia lido Raízes, vivia em outro mundo e outro tempo, muito antes de tal livro ser escrito, ou mesmo pensado por Alex Haley, mas foi naquele mo-

mento absurdamente tardio de sua vida que, pela primeira vez, brotou na frente dela a idéia de que, havia relativamente poucas gerações, seus ante-passados tinham sido postos em correntes por homens brancos. Certa-

mente o fato já lhe ocorrera antes, mas só como fragmento de informação, sem qualquer verdadeiro significado; como uma equação, jamais como algo que tocasse intimamente sua própria vida.

Odetta somou o que conhecia e ficou impressionada com a pequenez

da soma. Sabia que a mãe nascera em Odetta, Arkansas, a cidade de onde vinha o seu nome (filha única). Sabia que o pai fora um dentista de pequena

cidade que inventara e patenteara um processo de jaquetas dentárias. Esse processo, depois de dez anos hibernando, ignorado, acabou por transformá-lo da noite para o dia num homem razoavelmente rico. Odetta sabia que

o pai havia desenvolvido outros processos dentários durante os dez anos que precederam e os quatro anos que se seguiram ao afluxo de riqueza,

processos em geral de natureza ortodôntica ou cosmética. Também sabia que, pouco depois de se mudar para Nova York com a mulher e a filha (que nascera quatro anos após o registro da patente original), o pai abrira

uma empresa chamada Holmes Dental Industries, que era agora para os dentes o que a Squibb era para os antibióticos.

Mas quando Odetta perguntava como havia sido sua vida durante os

anos em que ela ainda não havia nascido, o pai não respondia. Falava de todo tipo de coisa, mas não lhe contavanaâa.. Essa parte era porta fechada para ela. Um dia sua mãe, Alice — ele a chamava de ma ou, às

vezes, de Allie, quando tinha tomado algumas e estava se sentindo bem —, um dia a mãe disse: — Conte sobre aquela vez em que uns homens atiraram quando você ia no Ford pela ponte coberta, Dan — e ele lançou

à mãe de Odetta um olhar tão sombrio e repressor que ma, sempre lembrando um pardal, encolheu-se na poltrona e não disse mais nada.

Odetta sondara a mãe só mais uma ou duas vezes depois daquela

noite, e sem resultado. Se tivesse tentado antes, talvez tivesse conseguido alguma coisa, mas depois que o pai deixou claro que não queria falar no

assunto, a mãe também não falaria. Para ele, Odetta percebeu, o passado — aqueles parentes, aquelas estradas de barro vermelho, aqueles arma-zéns, aqueles cubículos de chão de terra com janelas sem vidro tapadas no

máximo pela falta de graça de uma cortina, aqueles incidentes de provoca-ção e mágoa, aquelas crianças do vizinho vestidas com camisôes que ti-

nham começado a vida como sacos de farinha —, tudo aquilo estava enter-rado como dentes sem nervo sob capinhas brancas perfeitamente imper-

meáveis. O pai não falaria, talvez não conseguisse falar, talvez tivesse propositalmente se deixado atacar por uma amnésia seletiva; os dentes com capa eram sua vida nos Greymarl Apartments de Central Park South.

Todo o resto estava escondido sob essa intransponível cobertura externa. O passado fora tão bem guardado que não havia brecha por onde passar

para olhá-lo, era impossível ultrapassar a perfeita barreira daquela capa e penetrar na garganta da revelação.

Detta sabia de coisas, mas Detta não conhecia Odetta e Odetta não

conhecia Detta, e assim, também ali, os dentes permaneciam tão ordena-dos e trancados quanto um portão de fortaleza.

 

Odetta possuía um pouco da timidez da mãe, assim como da impassível (e às vezes muda) dureza do pai. Da única vez que se atreveu a interrogá-lo com decisão sobre o assunto — a sugerir que lhe estava sendo negado um manancial de memória e a confiança que ele, numa relação madura, deveria depositar nela —, essa única vez aconteceu uma noite na biblioteca. O pai havia sacudido cuidadosamente, fechado e dobrado o Wall Street Journal Depois o pousara na mesinha ao lado do abajur de pé, removera os óculos de aro fino e os colocara em cima do jornal. Então olhara para a filha. Era um negro magro, magro quase a ponto de ser esquálido, cujo cabelo grisalho, muito crespo, recuava rapidamente das fundas entradas nas têmporas onde veias de relevos delicados pulsavam, tinha se limitado a dizer: Não falo sobre essa parte da minha vida, Odetta, nem penso nela. Não faria sentido. 0 mundo seguiu adiante desde então. Roland teria compreendido.

 

7

 

Quando abriu a porta com a inscrição A DAMA DAS SOMBRAS, Roland viu coisas que absolutamente não entendeu — mas entendeu que não tinham importância.

Era o mundo de Eddie Dean, mas era apenas uma confusão de luzes,

pessoas e objetos — mais objetos do que jamais tinha visto. Coisas de fino

artesanato, a julgar pela aparência, e sem dúvida à venda. Algumas atrás de vidros, outras arrumadas em tentadoras pilhas e mostruários. Mas até isso deixou de importar quando o quadro se movimentou e o novo mundo

fluiu pelas beiradas da porta. A porta eram os olhos da Senhora. Ele estava olhando através deles exatamente como tinha olhado através dos olhos de Eddie quando Eddie avançara pelo corredor da carruagem aérea.

Eddie, por sua vez, estava atônito. O revólver tremia na mão dele e se

inclinava um pouco para baixo. O pistoleiro poderia facilmente recuperá-lo, mas não o fez. Ficou parado, quieto. Era uma manobra que tinha apren-

dido havia muito tempo.

Então a vista através da porta deu um daqueles giros que o pistoleiro

achava tão vertiginosos — mas para Eddie, esse caráter brusco do rodopio

pareceu singularmente confortador. Roland nunca tinha visto um filme; Eddie vira milhares, e o que estava vendo agora lembrava uma daquelas panorâmicas tão comuns em filmes como Halloween e O Iluminado. Sabia

até como chamavam o suporte da câmera que permitia esse movimento. Giroscópio. Era isso.

— Em Guerra nas Estrelas também — murmurou ele. — Na Estrela

da Morte. Na porra daquela fenda, lembra?

Roland olhou-o e não disse nada.

Mãos — mãos marrom-escuras — penetraram no que Roland via como

uma porta e no que Eddie já começava a imaginar como uma espécie de tela mágica de cinema... uma tela de cinema que, sob certas circunstâncias, podia ser penetrada pela pessoa, assim como aquele

cara saía da tela e entrava no mundo real em A Rosa Púrpura do Cairo. Um puta filme.

Só naquele momento Eddie conseguiu perceber toda a grandeza do

filme.

Só que ali, do outro lado da porta através da qual ele estava olhando,

aquele filme ainda não fora feito. Tudo bem, era Nova York — bastava o

barulho das buzinas dos táxis, por mais abafadas e distantes que pudessem parecer, para deixar isso claro — e era uma loja de departamentos de Nova York, uma loja onde sem a menor dúvida ele já havia entrado, mas era...

era...

— É mais antiga — murmurou.

— Antes do seu quando? — perguntou o pistoleiro.

Eddie olhou para ele e deu uma risada.

— É. Se quiser dizer isso, está certo.

— Como vai, Sra. Walker — disse uma voz hesitante. A visão na

porta se elevou tão bruscamente que mesmo Eddie ficou um pouco tonto. Viu uma vendedora que obviamente conhecia a dona das mãos pretas — além de conhecê-la, não gostava dela ou a temia. Ou ambas as coisas.

— Posso ajudá-la?

— Este. — A dona das mãos pretas levantava um cachecol branco

com uma vistosa beirada azul. — Não precisa embrulhar, meu bem, basta

enfiar numa sacola.

— A vista ou...

— À vista, foi sempre à vista, não foi?

— Sim, está ótimo, Sra. Walker.

— Fico feliz por também ter gostado, querida.

Houve um ligeiro esgar no rosto da vendedora - Eddie captou-o de

relance quando ela se virou. Talvez se explicasse pelo fato de a vendedora estar sendo tratada com tanta intimidade por uma mulher que

ela considerava uma "negra rica" (outra vez foi mais a experiência de

Eddie com o cinema e não qualquer conhecimento de história ou da vida nas ruas que provocou essa reflexão, pois era como ver um filme

ambientado ou produzido nos anos 60, como aquele com Sidney Steiger

e Rod Poitier, No Calor da Noite), mas o esgar também podia ser resultado de uma coisa ainda mais simples: talvez a Dama das Sombras

de Roland, branca ou preta, fosse uma tremenda puta.O que realmente

não tinha importância, não é? Nada daquilo tinha a menor importância. Eddie só se importava com uma coisa e apenas uma: sair agora dali.

Aquilo era Nova York, quase podia sentir o cheiro de Nova York.

E Nova York significava heroína.

Quase podia cheirar isso também.

Só que havia um obstáculo, não é?

Um filho-da-puta de um obstáculo.

 

8

 

Roland observava Eddie cuidadosamente e embora pudesse tê-lo matado seis vezes consecutivas a praticamente qualquer momento que escolhesse, prefe-

rira permanecer quieto, silencioso, deixando Eddie lidar sozinho com a situa-

ção. Eddie era um monte de coisas e várias delas não eram boas (sendo um sujeito que deixara conscientemente uma criança ir ao encontro da morte, o

pistoleiro sabia muito bem a diferença entre coisas boas e más), mas um defeito Eddie sem dúvida não tinha: não era estúpido.

Ele era um rapaz inteligente.

Ele entenderia.

E foi o que Eddie fez.

Tornou a olhar para Roland, sorriu sem mostrar os dentes, girou

uma vez o revólver do pistoleiro no dedo, desajeitadamente, parodiando um mocinho de teatro infantil, e depois estendeu a coronha para Roland.

— Acho que esta coisa seria como um pedaço de merda na minha

mão, não estou certo?

Você consegue se expressar muito bem, quando quer, pensou Roland. Só

não entendo por que essa preferência em falar como um idiota, Eddie. Será

porque era o modo como se falava nos lugares onde seu irmão gostava de ir?

— Não estou certo? — repetiu Eddie.

Roland assentiu.

— Se eu tivesse lhe dado um tiro — disse Eddie —, o que teria

acontecido com aquela porta?