A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três

Stephen King · Capítulo 205 de 274

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A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três

E, como um mau presságio, um gato…

E, como um mau presságio, um gato selvagem berrou em algum ponto

das tortuosas ravinas que cortavam os montes... só que esse gato selvagem

sugeria um bicho grande — como um leão rugindo numa selva africana.

Eddie acelerou ainda mais, empurrando o assento vazio da cadeira.

Logo o vento começou a produzir um fino, horrível lamento entre as ro-

das da frente erguidas, onde os aros giravam livres.

 

11

 

Quando o guincho agudo chegou mais perto, o pistoleiro ficou tenso,

mas logo relaxou ao ouvir a respiração ofegante. Era Eddie. Mesmo sem

abrir os olhos, o pistoleiro soube disso.

Só quando o guincho cessou e as passadas pararam de correr foi que

ele abriu os olhos. Eddie estava parado na sua frente, sem fôlego, o suor

escorrendo pelos lados do rosto. A camisa, ensopada no peito, era uma

nódoa escura. Qualquer último vestígo daquele ar de universitário que

Jack Andolini identificara nele havia desaparecido. Seu cabelo caía na testa.

Ele havia rasgado a calça no meio das pernas. Olheiras roxo-azuladas com-

pletavam o quadro. Eddie Dean estava uma lástima.

— Consegui — disse ele. — Estou aqui. — Olhou em volta, depois

voltou a encarar o pistoleiro como se não estivesse acreditando no que via.

— Meu Deus, estou realmente aqui.

— Deu a ela o revólver.

Eddie achou que o pistoleiro parecia estar mal — tão mal quanto antes

da primeira e incompleta dose de Keflex, talvez um pouco pior. O calor da

febre parecia estar se irradiando em ondas e Eddie sabia que deveria estar

sentindo pena dele, mas por ora só era capaz de sentir uma tremenda agitação.

— Estourei as bolas para chegar aqui em tempo recorde e tudo que

você me diz é: "Deu a ela o revólver." Obrigado, cara. Quero dizer, eu

esperava alguma expressão de gratidão, mas essa porrada foi realmente

aniquilante.

— Acho que eu disse a única coisa que importa.

Bem, já que você tocou no assunto, eu dei sim — disse Eddie, pondo

as mãos na cintura e atirando um olhar meio truculento para Roland.

— Agora você escolhe. Pode se sentar nesta cadeira ou posso dobrá-

la e tentar enfiá-la no seu cu. Qual a sua escolha, mestre?

— Nenhuma das duas. — Roland sorria um pouco, o sorriso de

alguém que não quer sorrir mas não pode evitar. — Primeiro você vai

dormir um pouco, Eddie. Saberemos o que fazer quando chegar a hora,

mas por enquanto você precisa dormir. Está quebrado.

— Quero voltar para perto dela.

— Eu também. Mas se não descansar, vai cair no meio do caminho.

Simples assim. Mau para você, pior para mim e pior ainda para ela.

Eddie ficou um instante imóvel, em dúvida.

— Seu tempo foi muito bom — admitiu o pistoleiro, contraindo os

olhos para o sol. — São quatro horas, talvez quatro e quinze. Você dorme

cinco, talvez sete horas e ainda vai estar totalmente escuro...

— Quatro. Quatro horas.

— Está bem. Até o início da noite; acho que é a coisa mais

importante. Depois você come. Depois partimos.

— Você come também.

De novo aquele sorriso fraco.

— Vou tentar. — O pistoleiro olhou calmamente para Eddie. —

Minha vida agora está em suas mãos; desconfio que saiba disso.

— Sei.

— Eu o seqüestrei.

— Foi.

— Você quer me matar? Se quiser, faça isso antes que algum de nós

fique sujeito a... — A respiração assobiava baixa. Eddie ouviu o chacoalhar no peito do pistoleiro e não gostou nada do som. — ... a ainda mais desconforto — ele concluiu.

— Não quero matá-lo.

— Então... — Roland foi interrompido por uma severa e repentina

explosão de tosse — ... deite-se.

Eddie obedeceu. O sono não flutuou sobre ele como às vezes

acontecia; agarrou-o com as mãos rudes de um amante desajeitado, pesado em sua avidez. Eddie ouviu (ou talvez fosse apenas um sonho)

Roland dizer: Mas não deveria ter dado o revólver a ela, e entrou simplesmente no escuro por um tempo desconhecido. Então, de repente, Roland o sacudia para que acordasse e quando ele finalmente conseguiu

se sentar tudo que havia em seu corpo era dor: dor e peso. Os músculos tinham se convertido em guinchos enferrujados e polias numa construção deserta. Seu primeiro esforço para ficar de pé não foi bem-sucedido. Tornou

a cair pesadamente na areia. Conseguiu se levantar na segunda tentativa, mas teve a impressão de demorar vinte minutos para executar um ato tão simples quanto se virar. E fazer isso doeu.Os olhos de Roland estavam

pousados nele, com ar indagador.

— Está pronto?

— Estou — disse Eddie abanando a cabeça. — E você — Também.

— Vai conseguir?

— Vou.

Então os dois comeram... e logo Eddie começava sua terceira e últi-

ma jornada por aquela amaldiçoada extensão de praia.

 

12

 

Avançaram um bom trecho naquela noite, mas Eddie não deixou de ficar muito desapontado quando o pistoleiro quis dar uma parada. Só não dis-

cordou porque também estava cansado demais para continuar, embora tivesse esperado chegar mais longe na primeira estirada. O peso. Era esse o grande problema. Em comparação com Odetta, empurrar Roland era como

empurrar um vagão com lingotes de ferro. Eddie dormiu mais quatro horas antes do amanhecer e despertou com o sol cobrindo os montes co-midos pela erosão, que era o que havia restado das montanhas. Prestou

atenção na tosse do pistoleiro. Uma tosse fraca, cheia de estertores, a tosse de um homem velho que estivesse com pneumonia.