A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três
— Está bem, Sra. Holmes — ele…
— Está bem, Sra. Holmes — ele tinha dito e sorrido. Um sorriso
forçado, e não fora fácil forçá-lo. Aquele ferimento não tinha um dia; tinha
uma semana ou mais... e ele não era bobo, era? Passara a semana lhe tele-fonando toda noite às sete, pois se havia uma hora em que a Sra. Holmes podia ser encontrada em casa era durante o noticiário Huntley-Brinkley
Report. A Sra. Holmes era uma viciada convicta nesse noticiário. Ele havia ligado todas as noites, com exceção da noite anterior. Então tinha partido
para as providências e recorrido à chave-mestra de Howard. A convicção de que Odetta tivera algum acidente dentro de casa, talvez no banheiro, cres-cera firmemente dentro dele... e em em vez de ficar com uma contusão ou
um osso quebrado, ela havia morrido, morrido sozinha e estava estirada lá dentro. Ele havia entrado com cuidado no apartamento e, com o coração batendo, sentira-se como um gato num quarto escuro repleto de cordas de
piano esticadas. Mas nada encontrou que o deixasse nervoso. Havia um prato de manteiga no balcão da cozinha e, embora coberta, a manteiga já estava fora da geladeira por tempo suficiente para exibir uma boa camada
de mofo. Tinha chegado lá às dez para as sete e saído às sete e cinco. No decorrer de seu rápido exame do apartamento, dera uma olhada no ba-nheiro. A banheira estava seca, as toalhas cuidadosamente — até mesmo
austeramente — arrumadas, os muitos suportes de metal transformados pelo polimento em brilhantes coisas douradas, onde não havia sequer manchas de água.
Andrew sabia que o acidente que ela havia descrito não tinha
acontecido.
Mas Andrew também não acreditava que ela estivesse mentindo. Ela
acreditava no que havia lhe contado.
Olhou de novo pelo retrovisor e viu-a esfregar levemente as têmporas
com as pontas dos dedos. Não gostou. Muitas e muitas vezes já a vira fazer isso antes de seus desaparecimentos.
Andrew deixou o motor funcionando para não desligar a calefação, depois
saltou e foi até a mala. Observou as duas valises com outro estremecimento. Era como se homens agressivos, com pouca cabeça e muito corpo, tivessem chutado furiosamente aquelas maletas, jogando-as
de um lado para o outro, danificando a bagagem com uma raiva que não se atreveram de todo a aplicar à Sra. Holmes - raiva que poderiam ter voltado, por exemplo, contra Andrew, se ele tivesse estado lá. Não se
tratava apenas de ela ser mulher; era uma negra, uma orgulhosa negra do norte se metendo onde não era chamada, e eles provavelmente achavam que uma mulher como aquela merecia o que levasse. Para complicar, ela
era também uma negra rica. Para complicar, era quase tão conhecida do público americano quanto Medgar Evers ou Martin Luther King. Para complicar, tinha aparecido com sua rica cara negra na capa da revista
Time e era meio difícil colocar para sempre uma pessoa dessas dentro de uma arca fechada e depois dizer: 0 quê? Não patrão, a gente nunca viu
uma dona como essa por aqui, vimos, pessoal? Para complicar, era meio difícil alguém se dispor a ferir uma mulher que era a única herdeira da Holmes Dental Industries, numa época em que existiam 12 fábricas da
Holmes no Sul ensolarado, uma delas só a um condado de distância de Oxford Town, Mississipi.Então tinham feito às maletas o que não se
atreveram a fazer com ela.
Andrew contemplou aqueles indícios silenciosos da estada de Odetta
em Oxford Town com vergonha, fúria e amor, emoções tão mudas quan-
to as cicatrizes numa bagagem que partira com aparência elegante e volta-ra com aspecto bronco e espancado. Ele só olhava, temporariamente inca-
paz de se mexer, o bafo da respiração se condensando no ar gelado.
Howard se aproximava para ajudar, mas Andrew estendeu um pouco
sua pausa antes de agarrar as alças das maletas. Quem é a senhora, Sra.
Holmes? Quem é a senhora de verdade? Onde a senhora vai às vezes e o que faz que parece tão mau a ponto de obrigá-la a inventar uma história falsa para justificar, até para si mesma, as horas ou dias perdidos? E ele pensou outra
coisa um momento antes de Howard chegar, algo estranhamente perspicaz: onde está o resto de você?
Você precisa parar de pensar desse jeito. Se alguém por aqui deve ter
algum pensamento assim, é a própria Sra. Holmes, mas ela não faz isso e você também não precisa fazer.
Andrew tirou as valises da mala e passou-as a Howard, que pergun-
tou em voz baixa:
— Tudo bem com ela?