A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três
Cerca de três horas mais tarde, com…
Cerca de três horas mais tarde, com a lua indo agora para o outro
lado, Eddie finalmente mergulhou no sono.
Detta não gritou mais naquela noite. Ou porque Roland a consegui-
ra assustar, ou porque quisesse conservar a voz para futuros alvoroços e
escaramuças, ou — talvez, só talvez — porque Odetta ouvira e estava
exercendo controle como o pistoleiro pedira.
Eddie finalmente adormeceu, mas quando despertou estava enchar-
cado de suor e nada revigorado. Olhou para a cadeira, esperando, contra
todas as probabilidades, encontrar Odetta ali sentada, por favor meu Deus
que seja Odetta esta manhã...
— Bom-dia, coisa branca — disse Detta, mostrando o sorriso de
tubarão. — Achei que tu fosse drumi té meio-dia. Mas tu num pode fazer
isso, né? Ainda vamo tê de andá uns quilômetro, é ou num é? Claro! E
acho que é tu qui vai ter de fazê a maioria do esforço, porque aquele outro
sujeito, aquele com olho de vudu, tá olhando pra mim como se estivesse
nas últimas, como tenho certeza que está! É! Acho mesmo que daqui a
pouco ele não vai tá mais comendo coisa nenhuma, nem aquela incrível
carne defumada que cês coisas brancas continuam mastigando enquanto
um sacode a velinha branca do outro. Então vamos, coisas brancas! Detta
não qué sirvi de estorvo pra vocês.
As pálpebras e a voz caíram um pouco; os olhos espreitavam Eddie
com os cantos.
— Qui tal puxa de novo o carro, pelo menos vamo tenta.
Este vai ser um dia de que você vai se lembrar, coisa branca, promete-
ram os olhos velhacos. Vai ser um dia de que você vai se lembrar por muito,
muito tempo.
Cum certeza.
14
Fizeram cinco quilômetros naquele dia, ou algo muito próximo
disso. A cadeira de Detta virou duas vezes. Uma vez ela fez de
propósito, movendo os dedos devagar e não encontrando obstáculos
até atingir de novo o freio de mão e puxá-lo. Da segunda vez Eddie não
precisou que ela ajudasse. A cadeira virou quando foi impelida com
muita força por uma das malditas valas. Isso aconteceu quase no final
do dia e ele simplesmente entrou em pânico, achando que daquela vez
não iria conseguir levantá-la, simplesmente não conseguiria. Mas então
fez um último esforço titânico com os braços trêmulos. Infelizmente, a
coisa foi forte demais e ela caiu para o outro lado, como Humpty Dumpty caindo de seu muro. Logo ele e Roland estavam lutando juntos
para suspendê-la. Acabaram o trabalho na hora certa. A corda já se
apertara demais sob os seios e na traquéia. Os eficientes nós de correr
do pistoleiro ameaçavam sufocá-la até a morte. Sua face tinha
adquirido uma engraçada cor azul, ela estava à beira de perder a
consciência, mas ainda continuava deixando escapar o riso asqueroso.
Deixe-a ir, por que nâo? foi o que Eddie quase pediu quando Roland
se curvou rapidamente para a frente tentando afrouxar o nó. Deixe que
sufoque! Não sei se Deita quer mesmo que acabem com ela como você disse,
mas sei que quer acabar CONOSCO... então deixe-a ir!
Aí se lembrou de Odetta (embora o encontro dos dois tivesse sido
muito breve e parecesse ter ocorrido há tanto tempo que a lembrança já
quase se apagara) e adiantou-se para ajudar.
O pistoleiro empurrou-o impaciente para o lado com uma das mãos.
— Só há espaço para um.
Quando a corda foi afrouxada e a Dama começou a arquejar com
força para recuperar o fôlego (que expelia entre jorros de riso raivoso),
Roland se virou e olhou criticamente para Eddie.
— Acho que deveríamos dar uma parada para passar a noite.
— Mais um pouco. — Eddie quase implorava. — Posso avançar
mais um pouco.
— Claro! Ele é um animal forte, consegue capina mais uma fileira de
algodão e ainda vai ficá cum muita energia pra dá uma ótima noite
de mamada na sua velinha branca.
Detta ainda não queria comer e o rosto estava se enchendo de gran-
des rugas e marcas. Os olhos brilhavam em órbitas cada vez mais fundas.
Roland não lhe deu a menor importância, mas observou Eddie com
atenção. Por fim aquiesceu.
— Um pouco mais. Não muito, só um pouco mais de caminho.