A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três

Stephen King · Capítulo 250 de 274

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A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três

O que está pensando, madame? Acha que…

O que está pensando, madame? Acha que posso despejar os comprimidos

pelo telefone? Bem, se ele fizesse isto, a cliente pelo menos faria o favor de

parar de falar, pois teria de encostar o fone na boca e abri-la completa-

mente para receber o remédio.

O pensamento lhe trouxe um riso fantasmagórico, que revelou a den-

tadura amarelada.

— Não está entendendo, Sra. Rathbun — ele a interrompeu, depois

de ter ouvido um minuto de sua raiva (um minuto inteiro, contado com o preciso ponteiro de segundos do relógio). Pelo menos num instante,

sentira vontade de dizer: Pare de gritar comigo, sua gralha estúpida! Vá gritar com o seu MÉDICO! Foi ele que a deixou viciada nessa merda! Certo. Os malditos médicos faziam as pessoas mascarem calmantes como

chiclete e quando resolviam cortar o suprimento, quem era atingido pela merda? Os enfermeiros e cirurgiões? Ah não! Era ele!

— O que está querendo dizer quando diz que eu não entendo? — A

voz em seu ouvido era como uma vespa irada zumbindo numa jarra. — Entendo que já comprei muita coisa em sua mal-afamada drogaria,

entendo que tenho sido uma freguesa leal todos esses anos, entendo...

— A senhora vai ter de falar com... — deu uma olhada na ficha da

arara com os óculos para perto —... o Dr. Brumhall, Sra. Rathbun. A

sua receita está vencida. É crime federal fornecer Valium sem receita. — E também, ele pensou, deveria ser crime federal receitar o Valium... a

não ser que você dê ao paciente o seu número de telefone que está fora da lista.

— Ele esqueceu! — gritou a mulher. Agora havia um áspero timbre

de pânico em sua voz. Eddie teria reconhecido aquele tom de imediato: era o grito do selvagem pássaro do vício.

— Então telefone e peça para ele completar a receita — disse Katz.

— Ele tem o meu número. — Sim. Todos tinham o seu número. Esse era justamente o problema. Ele parecia um moribundo aos 46 anos por causa dos malditos médicos.

E tudo que tenho a fazer para garantir que a última fina beirada de lucro

que, de alguma forma, consigo tirar deste lugar desapareça por completo é mandar que algumas dessas viciadas filhos-da-puta se fodam. Basta isso.

— NÃO POSSO TELEFONAR PARA ELE! — gritou a mulher. A

voz perfurou dolorosamente o ouvido de Katz. — ELE ESTÁ DE FÉRIAS COM O VEADO DO NAMORADO E NINGUÉM ME DIZ PARA ONDE

ELES FORAM!

Katz sentiu um ácido se destilar no estômago. Tinha duas úlceras, uma

tratada, a outra sangrando, e mulheres como aquela puta eram a explicação

desse fato. Fechou os olhos. Por isso não viu seu vendedor arregalar os olhos

para o homem de terno azul e óculos de aro dourado que se aproximava do

balcão, nem viu o olho de Ralph, o gordo e velho segurança (Katz pagava uma

miséria ao sujeito, mas mesmo assim se queixava amargamente da despesa; o

pai nunca havia precisado de um segurança, mas o pai, que Deus o fizesse

apodrecer, vivera numa época em que Nova York era uma cidade e não um

vaso sanitário), de repente sair de sua habitual tonalidade fosca enquanto a

mão se estendia para o revólver na cintura. Ouviu uma mulher gritar, mas

achou que fosse porque ela havia acabado de descobrir que toda a linha Revlon

estava em promoção — fora forçado a pôr o Revlon em promoção porque o

larápio do Dollentz no alto da rua o estava boicotando.

Quando o pistoleiro se aproximou como mensageiro do destino, Katz

se concentrava no Dollentz e na puta ao telefone, imaginando como seria

maravilhoso ver os dois nus, cobertos de mel e deitados sobre formiguei-ros no abrasador sol do deserto. Um formigueiro para ELE e outro para

ELA, maravilhoso. Estava pensando que isso era o pior que uma pessoa poderia conceber, o pior em termos absolutos. Seu pai ficara tão determi-nado a que o filho único seguisse sua carreira que se recusara a pagar por

qualquer coisa além de um diploma de farmácia, e assim ele seguira as pegadas do pai, que Deus o castigasse, pois aquele fora certamente o mo-mento mais baixo numa vida cheia de momentos baixos, uma vida que o

envelhecera antes do tempo.

Aquilo era o absoluto fundo do poço.

Ou assim ele imaginou com os olhos fechados.

— Se vier até aqui, Sra. Rathbun, posso lhe dar uma dúzia de Valiuns

de cinco miligramas. Está bem assim?

— O homem recuperou a razão! Obrigado, Deus, o homem

recuperou a razão! — E desligou. Exatamente assim. Sem uma palavra de agradecimento. Mas quando encontrasse o cu andante que se autodenominava médico, iria polir os bicos de seus mocassins Gucci com

o nariz, ia lhe dar uma chupada, iria...