A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três

Stephen King · Capítulo 145 de 274

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A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três

— Espete alguma coisa nela, doutor!— gritou um dos paramédicos.

O rosto dele estava pálido. — Um bom sedativo fecha essa boca! — O

paramédico estendeu a mão para o estojo de medicamentos. George

empurrou a mão dele.

— Pare com essa merda, bundão.

Ao se virar para a paciente, George via agora o olhar calmo e refinado

da outra a observá-lo.

— Vou sobreviver? — perguntou ela no tom descontraído de uma

conversa num salão de chá. E George pensou: Ela não tem consciência dos

lapsos. Nenhuma consciência. E após um instante: E o mesmo acontece com a

outra.

— Eu... — Ele engoliu em seco, esfregou através do jaleco o coração

que galopava e ordenou a si mesmo que controlasse a situação. Tinha

salvado a vida dela. Os problemas mentais daquela paciente não eram de

sua conta.

— Você está bem? — perguntou ela, e a genuína preocupação na voz

da mulher fez George sorrir... ela se preocupando com ele.

— Sim, senhora.

— A que pergunta está respondendo?

Ele demorou um pouco para compreender.

— ´Às duas — disse por fim, pegando a mão dela. Ela apertou a mão

de George que, ao encarar aqueles olhos brilhantes, luminosos, pensou:

Seria fácil um homem se apaixonar por esta mulher. Mas nesse momento a

mão dela se converteu numa garra e ela começou a chamá-lo de branco sa-

fado. Já não queria apenas lhe pegar as bolas, mas mastigar as bolas de

safados como ele.

George se afastou, procurando ver se não estava saindo sangue de sua

mão, pensando incoerentemente que, se estivesse, alguma providência te-

ria de ser tomada, pois seria sinal de que ela era venenosa, a mulher era

venenosa e ser mordido por ela seria mais ou menos como ser mordido

por uma jararaca ou uma cascavel. Não havia sangue. E quando ele tornou

a olhar, já era a outra mulher... a primeira mulher.

— Por favor — dizia ela. — Não quero morrer. Por... — Então ela

perdeu definitivamente os sentidos, o que foi bom. Para todo mundo. — Então, o que acha? — perguntou Júlio.

— Sobre quem vai estar na final? — George esmagou a guimba do

cigarro com o salto do mocassim. — O White Sox. Apostei neles no bolão.

— O que acha daquela mulher?

— Acho que ela pode ser esquizofrênica — disse George devagar.

— Sim, disso eu sei. Mas o que acha que vai acontecer com ela? — Não sei.

— Ela precisa de ajuda, cara. Quem vai ajudar?

— Bem, já fiz o que pude — disse George, mas seu rosto parecia

quente, como se estivesse corando.

Júlio o olhava.

— Se já fez tudo que podia fazer por ela, deveria deixá-la morrer, doutor. George encarou Júlio por um instante, mas sentiu que não conseguiria suportar o que viu nos olhos dele — não acusação, mas tristeza.

Então se afastou. Tinha

lugares aonde ir.

 

A Hora da Escolha:

Pela maior parte do tempo transcorrido desde o acidente, Odetta

Holmes continuara no controle, mas Detta Walker havia passado a tomar cada vez mais a frente e a coisa que Detta mais gostava de fazer era roubar. Pouco importava que em geral o roubo se limitasse a bugigangas, como

também não importava que com freqüência ela mais tarde as jogasse fora.

O que importava era o ato de roubar. Quando o pistoleiro entrou em sua cabeça, na Macy's, Detta gritou

numa combinação de fúria, confusão e terror, as mãos imobilizadas sobre as bijuterias que estava colocando na bolsa.

Gritou porque quando Roland entrou em sua mente, quando ele

tomou a frente, por um instante ela sentiu o outro, como se uma porta tivesse sido aberta dentro de sua cabeça.

E gritou porque a presença que a invadia e estuprava era um branco.