A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três

Stephen King · Capítulo 151 de 274

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A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três

Então a imagem rodopiou e Eddie estava…

Então a imagem rodopiou e Eddie estava olhando para si mesmo. A

visão correu para ele, que queria levantar a mão com a faca para proteger

os olhos porque de imediato a sensação de olhar através de dois pares de olhos pareceu demais, maluca demais, ia deixá-lo maluco se ele não a des-pachasse, mas tudo aconteceu muito depressa e ele não teve tempo de

fazer nada.

A cadeira de rodas atravessou a porta. Uma passagem meio apertada;

Eddie ouviu os centros dos aros rasparem nos umbrais. No mesmo instan-te ouviu outro som: um barulho grave de rasgar que o fez pensar numa palavra

{placentário)

que não conseguiu inteiramente pensar porque nem sabia que tinha

consciência de sua existência. Então a mulher foi rolando para ele na areia

socada e já não parecia uma louca varrida — quase nem parecia a mulher que Eddie vira de relance no espelho, mas ele não achou que aquilo fosse de espantar; quando a pessoa passa num piscar de olhos de um vestiário da

Macy's para o litoral de um mundo abandonado por Deus, onde há lagos-tas do tamanho de cachorros, é normal que a agitação altere um pouco as feições. Eddie Dean achava que tinha um testemunho pessoal a dar sobre

esses efeitos das passagens bruscas.

A mulher rodou pouco mais de um metro antes de parar e só chegou

ao ponto que chegou por causa do declive e da natureza extremamente

compacta da areia. As mãos não empurravam mais as rodas {amanhã quando a senhora acordar com dor nos ombros, minha Lady, pode ter certeza que a culpa é de Sir Roland, Eddie pensou amargamente); em vez disso, as mãos

foram para os braços da cadeira e os agarraram enquanto a Dama fitava os dois homens.

Atrás dela, a porta já havia desaparecido. Desaparecido? Isso não era de todo exato. A porta parecia ter se dobrado sobre si mesma, como um rolinho de filme correndo para trás. Aquilo começou a acontecer assim que o gerente da

loja escancarou a outra porta, bem mais trivial — aquela que ficava entre a loja e o vestiário. O homem veio com vontade, achando que a ladra poderia ter trancado a porta e Eddie achou que ele daria uma

tremenda pancada contra a parede oposta, mas Eddie não ia ver isso acontecer ou não acontecer. Antes que o estreito interior do vestiário que ligava a porta com aquele outro mundo desaparecesse por

completo, Eddie viu tudo que ele continha se congelar.

O filme havia se transformado numa foto.

Tudo que restava agora era a trilha, com as duas marcas da cadeira de

rodas, começando num ponto qualquer da areia e avançando pouco mais de um metro até onde ela, cadeira, e sua ocupante se achavam.

— Será que alguém faria a gentileza de me explicar onde estou e

como vim parar aqui? — perguntou a mulher na cadeira de rodas... quase num tom de súplica.

— Bem, vou lhe dizer uma coisa, Dorothy — disse Eddie. — Você

não está mais no Kansas.

Lágrimas cintilaram nos olhos da mulher. Eddie viu como ela tentava

reprimi-las, mas em vão. Ela começou a soluçar.

Furioso (e também meio enojado de si mesmo), Eddie se virou para

o pistoleiro, que conseguira ficar de pé. Roland se moveu, mas não para a Dama que chorava. Na realidade avançou para pegar sua faca.

— Diga a ela! — gritou Eddie. — Você a trouxe, portanto vá em

frente e conte a ela, cara! — E após um instante acrescentou num tom mais baixo. — E depois conte a mim como é possível que ela não se lembre de

nada.

Roland não respondeu. Não de imediato. Curvou-se, apertou o cabo da

faca com os dois dedos restantes da mão direita, transferiu cuidadosamen-te a faca para a mão esquerda e a enfiou na bainha ao lado de um dos cinturões. Ainda estava tentando lidar com o que sentira ao entrar na

mente da Dama. Ao contrário de Eddie, ela havia lutado contra ele, luta-do como um gato, do momento em que Roland tomou a frente até quando atravessaram a porta. A luta tinha começado no momento em que ela o

sentiu. Não houvera hesitação, porque não houvera surpresa. Ele percebera as reações da mulher, mas de nenhum modo as compreendera. A mulher não revelara nenhuma surpresa por ter a mente invadida por outra pessoa,

só uma raiva instantânea, o terror e o início da batalha para se libertar. Não chegara nem perto de vencer aquela batalha — não podia, ele suspeitava — mas isso não a impedira de lutar como uma leoa. Roland sentira a

presença de uma mulher insana, cheia de medo, raiva, ódio.

Só sentira escuridão nela — a mente sepultada numa caverna. Só que...

Só que no momento em que irromperam pela porta e os dois se sepa-

raram, ele havia lamentado — lamentado com desespero — não ter podido permanecer mais um instante. Um instante teria significado muito. Por-

que a mulher que agora estava diante deles não era a mulher em cuja mente ele penetrara. Estar na mente de Eddie fora como estar num quarto

com paredes instáveis, trêmulas. Estar na mente da Dama fora como estar deitado sem roupa no escuro, com cobras venenosas rastejando em cima do corpo.

Menos no fim.

Ela havia mudado no fim.

E houvera outra coisa, algo que ele sabia que era vitalmente impor-

tante, mas que não conseguia compreender nem lembrar. Algo como

(um olhar)

a própria porta, sozinha na mente dela. Algo envolvendo {você quebrou o prato muito especial era você)

algum repentino clarão de compreensão. Como numa prova de esco-

la, quando você finalmente se lembra...

— Ah, vá se foder — disse Eddie num tom de repulsa. — Você não

passa de uma porra de uma máquina.

Cruzou por Roland em passos largos, se aproximou da mulher, se

ajoelhou a seu lado e, quando ela apertou os braços em volta dele, cheios de pânico, como os braços de um nadador se afogando, Eddie em vez de recuar pôs seus próprios braços em volta dela e puxou-a num abraço.

— Tudo bem — disse. — Não está ótimo, é claro, mas está tudo

bem.

— Onde estamos?— chorava ela. — Eu estava sentada em casa vendo

TV. Queria saber se iam mostrar meus amigos saindo vivos de Oxford e agora

estou aqui e NÃO SEI SEQUER ONDE FICA ESTE LUGAR! Bem, eu também não sei — disse Eddie, abraçando-a com mais força,

começando a balançá-la um pouco —, mas acho que entramos no mesmo barco. Sou de onde você veio, da pequena e velha cidade de Nova York, e passei pela mesma experiência... bem, foi um pouco diferente, mas

o princípio era o mesmo... e vai ficar tudo bem com você. — Em seguida, distraído, ele acrescentou: — Contanto que goste de lagosta.

Ela o apertava, chorava. Eddie a segurava, a balançava um pouco e

Roland pensou: Vai ficar tudo bem com Eddie. Seu irmão está morto mas agora apareceu uma pessoa para ele cuidar, por isso vai ficar tudo bem com

Eddie.

Mas ele sentiu uma pontada: uma profunda mágoa reprovadora no

coração. Era capaz de atirar (pelo menos com a mão esquerda), de matar,

de fazer mais e mais, de avançar com brutal determinação através de qui-lômetros e anos, até mesmo dimensões, em busca da Torre. Era capaz de sobreviver, às vezes era até capaz de atitudes protetoras — tinha salvado o

garoto chamado Jake de uma morte lenta no posto de parada e escapara da absorção sexual pelo Oráculo no sopé das montanhas —, mas no fim deixara Jake morrer. E isso não acontecera por acaso; ele havia cometido

um ato consciente de danação. Observava os dois, via Eddie abraçá-la, garantindo que tudo iria ficar bem. Talvez não devesse ter feito aquelas coisas. Agora o remorso no peito se unia a um medo secreto.

Se pensou em abrir mão de suas emoções para só se concentrar na Torre,

Roland, você já perdeu. Uma criatura sem coração é uma criatura sem amor e uma criatura sem amor é um animal. Ser animal é talvez suportável, embora

o homem que se tornou um certamente acabe, no final, pagando o preço do próprio inferno, mas e daí se você alcançar o seu objetivo? E daí se você, impla-

cável, conseguir realmente assaltar a Torre Negra e conquistá-la? Se nada houver em seu coração além do escuro, o que você poderia fazer a não ser degenerar de animal a monstro? Atingir seu objetivo como animal seria sem

dúvida amargamente cômico — como dar uma lente de aumento a um elefaunte. Mas atingir o objetivo como monstro...

Pagar o preço do inferno é uma coisa. Mas será que ele iria querer pos-

suí-lo definitivamente?

Pensou em Allie e na garota que um dia havia esperado por ele na

janela, pensou nas lágrimas que tinha derramado sobre o cadáver sem vida

de Cuthbert. Ah, então ele tinha amado. Sim. Então.

 

Eu realmente quero amar!, gritou, mas embora agora Eddie estivesse

chorando um pouco com a mulher na cadeira de rodas, os olhos do pistoleiro permaneciam secos como o deserto que ele havia cruzado para

alcançar aquele mar sem sol. Ele responderia mais tarde à pergunta sobre

o inferno. Por enquanto era bom ajudar Eddie a ficar de guarda. A razão pela qual a mulher não se lembrava de nada era simples. Ela não era

uma mulher, mas duas. E uma delas era perigosa.

Eddie contou a ela o que podia, enrolando um pouco sobre o verdadeiro teor da batalha, mas sendo honesto sobre tudo mais.

Quando acabou, ela ficou perfeitamente silenciosa por algum tem-

po, as mãos entrelaçadas no colo.

Pequenos riachos desciam pelas montanhas rasas, avançando alguns

quilômetros para leste e sumindo. Desses riachos Roland e Eddie haviam tirado sua água enquanto marchavam para o norte. A princípio fora Eddie

quem pegara a água porque Roland estava fraco demais. Mais tarde ti-nham se revezado em turnos, tendo sempre de ir um pouco mais longe e procurar um pouco mais antes de encontrar um regato. Iam ficando cada

vez mais cansados à medida que as montanhas se tornavam menos eleva-das, mas a água não os deixara doentes.

Até aquele momento.

Roland tinha ido na véspera, e embora isso fizesse com que naquele

dia fosse a vez de Eddie, o pistoleiro fora de novo, com os cantis de couro no ombro, caminhando em silêncio. Eddie considerou aquilo um gesto

de cortesia bastante estranho. Não queria dar muita importância ao ges-to — na realidade a nada que partisse de Roland —, mas mesmo assim ficou um tanto impressionado.

A Dama ouviu Eddie com atenção, sem abrir a boca, olhos fixos nos

dele. Num momento Eddie achava que ela era cinco anos mais velha que ele, logo depois apostava nuns 15. Mas havia uma coisa que ele não preci-

sava tentar adivinhar: estava ficando apaixonado por ela.