A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três
Não encontrou ninguém quando desceu os dois lances de escada
mas manteve a encenação, balançando um pouco enquanto andava, mas
sem cambalear. Uma oscilação não seria lembrada. Um cambalear osten-
sivo poderia ser. Resmungava, mas jamais dizia qualquer coisa que alguém
pudesse compreender. Melhor atravessar o palco assim, sem entrar em
alguma representação inoportuna.
Saiu pela quebrada porta dos fundos em direção a uma viela cheia de
lixo e de garrafas quebradas que faziam cintilar galáxias de raios de sol.
Tinha planejado antecipadamente a fuga. Era seu hábito planejar
tudo antecipadamente (e só assumindo riscos aceitáveis, procurando mini-
mizar os outros, sendo manhoso em todas as coisas). Por causa da vocação
para planejar, ficou marcado pelos colegas como um homem que poderia
ir longe (e de fato ele pretendia ir longe, embora um dos lugares para onde
não pretendia ir fosse a cadeia, ou a cadeira elétrica).
Algumas pessoas corriam pela rua onde a viela ia dar, mas muito
curiosas para descobrir a razão daquela gritaria. Ninguém olhou para Jack
Mort, que havia tirado o antiquado gorro de tricô mas não os óculos escu-
ros (e eles não pareciam deslocados numa manhã tão ensolarada).
Entrou em outra viela.
Saiu em outra rua.
Agora descia a passo vagaroso uma viela não tão suja quanto as duas
primeiras — quase, de fato, uma alameda. Ela dava em outra rua, onde,
uma quadra acima, havia um ponto de ônibus. Menos de um minuto
depois de ele chegar lá, apareceu um ônibus, o que também estava de
acordo com a programação que fizera. Jack entrou quando as portas
de sanfona se abriram e jogou a moeda de 15 cents na fenda do coletor de
moedas. O motorista não olhou para ele sequer de relance. Aquilo era
bom, mas mesmo que o homem tivesse olhado só teria visto um sujeito
banal de calça jeans, alguém que talvez estivesse desempregado — o
moletom parecia ter saído de algum bazar do Exército da Salvação.
Esteja pronto, esteja preparado, seja um cara safo.
O segredo do sucesso de Jack Mort tanto no trabalho quanto no
lazer.
A nove quadras de lá havia um estacionamento. Jack saltou do ôni-
bus, entrou no pátio, abriu a porta do carro (um Chevrolet, sem nada