A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três
Quase 150 metros sobre eles e talvez…
Quase 150 metros sobre eles e talvez a uns quatrocentos metros para
o leste, olhos escuros — olhos tão cheios de inteligência quanto carentes
de misericórdia humana — contemplavam atentamente aquele quadro. Era impossível escutar o que estavam dizendo: o vento, as ondas e o baque surdo da arrebentação cavando seu canal subterrâneo o impediam, mas
Detta não precisava ouvir o que diziam para saber do que estavam falando. Não precisava de um telescópio para ver que o Homem Realmente Mau
era agora também o Homem Realmente Doente. Talvez o Homem Real-mente Mau continuasse disposto a perder alguns dias, ou mesmo algumas semanas, torturando uma mulher negra sem pernas (pela aparência que
tinham as coisas ali, não deveria ser muito fácil conseguir diversão), mas ela achava que o agora Homem Realmente Doente só queria uma coisa: tirar o cu esbranquiçado daquele lugar. Usar a porta mágica para puxar a
porra do carro. Antes, no entanto, ele não pensara em tirar o rabo. Antes não pensara em puxar o carro. Antes, o Homem Realmente Mau não fora a parte alguma, mas penetrara, sim, na cabeça dela. Ainda não gostava de
se lembrar como fora, de como havia se sentido com aquilo, da facilidade com que ele havia neutralizado todos os seus dilacerantes esforços para tirá-lo de lá, jogá-lo fora, tornando a assumir controle sobre si mesma.
Aquilo fora medonho. Terrível. E o que tornava a coisa pior era o fato de ela não compreender. Qual, exatamente, seria a fonte real de seu terror? Que não fosse a invasão em si mesma era bastante assustador. Ela sabia
que poderia entender tudo se examinasse a si própria mais intimamente, mas não queria fazer isso. Tal exame poderia levá-la a um lugar como aquele que os marinheiros temiam nos velhos tempos, um lugar que era
nada mais nada menos do que a beirada do mundo, um lugar que os cartógrafos tinham marcado com a legenda AQUI HÁ SERPENTES. A
coisa hedionda na invasão do Homem Realmente Mau fora a sensação de familiaridade, como se aquele fato assombroso já tivesse acontecido antes — não uma vez, mas muitas. Assustada ou não, porém, ela se negara a
entrar em pânico. Observara tudo com atenção, mesmo durante os mo-mentos de resistência, e se lembrava de ver aquela porta quando o pistoleiro usou as mãos dela para virar a cadeira de rodas. Lembrava-se de ver o
corpo do Homem Realmente Mau estirado na areia com Eddie agachado sobre ele, segurando uma faca.