A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três

Stephen King · Capítulo 141 de 274

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A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três

George tentou parecer prudente e senhor da…

— Não sei.

George tentou parecer prudente e senhor da situação, mas o fato é

que primeiro o residente de serviço e depois uma dupla de cirurgiões tive-ram de socorrer a mulher negra mais depressa do que alguém poderia dizer ave-maria cheia de graça (palavras que tinham andado realmente na

ponta da língua de George — embora de fato não parecesse que a mulher negra fosse resistir por muito mais tempo).

— Ela perdeu uma tremenda quantidade de sangue.

— É.

George era um dos 16 internos no Irmãs da Misericórdia e um dos

oito indicados para um novo programa chamado Maratona de Emergên-cia. A teoria era que um interno integrado a uma dupla de paramédicos poderia, às vezes, significar a diferença entre a vida e a morte numa situação

de emergência. George sabia que a maioria dos motoristas de ambulância e paramédicos achava que internos sem nenhuma experiência serviam tanto para salvar a turma que subia nas macas quanto para matá-la, mas George

achava que poderia funcionar.

De vez em quando.

De um modo ou de outro, a coisa havia melhorado em muito a ima-

gem do hospital e embora os internos participantes do programa andas-sem meio putos por causa das oito horas extras (sem pagamento), o pro-

grama foi ganhando força a cada semana. George Shavers não deixava de pensar que a maioria dos colegas se sentia como ele próprio: orgulhoso,

empenhado, capaz de pegar qualquer bola que lhe atirassem. Então chegou a noite em que o Tri-Star da TWA se espatifou. Sessenta e cinco pessoas a bordo, sessenta delas na situação que Júlio Estevez

classificava como ML — Mortas no Local. Três das cinco restantes pare-ciam o tipo de coisa que alguém poderia ter resgatado do fundo de uma fornalha de carvão... só que aquilo que a pessoa resgatasse do fundo de

uma fornalha de carvão não iria gemer, gritar, nem implorar para alguém lhe aplicar morfina ou matá-lo, certo? Se você pode suportar isto, pensou George mais tarde, recordando os membros decepados entre as sobras do

alumínio dos flaps, as almofadas dos assentos e o pedaço rombudo de cauda com o número 17, um grande T vermelho e parte de um W, recordando o olho que vira pousado em cima de uma mala Samsonite

carbonizada, ou recordando o urso de pelúcia de uma criança, os botões dos olhos arregalados ao lado de um pequeno tênis vermelho com o pé da criança ainda lá dentro, se você pode suportar isto, garoto, pode suportar

qualquer coisa. E George conseguira suportar tudo muito bem. Continuou suportando tudo muito bem até chegar em casa. Continuou suportando tudo muito bem durante o jantar, tarde da noite, em que

comeu um peru da Swanson, vendo televisão. Foi dormir sem nenhum problema, o que provava sem a menor sombra de dúvida que estava suportando tudo muito bem. Então, numa hora escura e morta da

madrugada, despertara de um pesadelo infernal no qual a coisa pousada em cima da mala Samsonite, a mala carbonizada, não era um urso de

pelúcia mas a cabeça de sua mãe, e os olhos dela tinham se aberto, e eles tinham sido queimados; eram os olhos de botão, arregalados e inexpressivos do ursinho, e a boca tinha se aberto, revelando os restos dos

caninos que tinham feito parte de uma dentadura até o Tri-Star da TWA

ser atingido por um relâmpago no último trecho da aproximação final e

ela ter murmurado: você não conseguiu me salvar, George, nós fomos

mesquinhos por sua causa, nós economizamos por sua causa, nós andávamos

sem nada por sua causa, seu pai consertou a confusão em que você se meteu

com aquela moça e MESMO ASSIM VOCÊ NÃO CONSEGUIU ME

SALVAR MALDITO SEJA, e ele acordara gritando, e teve uma vaga

noção de alguém batendo na parede, mas a essa altura já estava entrando

bruscamente no banheiro, onde mal teve tempo de se ajoelhar em posição

de penitente diante do altar de porcelana antes do jantar lhe subir pela

garganta. Veio como uma entrega especial, quente, soltando vapor e

ainda cheirando a peru industrializado. Ele ficou ali ajoelhado, olhando

para dentro do vaso, vendo os pedaços do peru meio digeridos e as cenou-

ras que ainda nem tinham perdido o tom fluorescente original. Então

uma palavra lampejou em sua mente em grandes letras vermelhas:

 

CHEGA

 

Correto.

 

Era: