A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três

Stephen King · Capítulo 24 de 274

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A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três

Fora aquela sensação de sonolência.

Tomou outro gole da bebida e deixou os olhos se fecharem.

Por que apagou?

Não cheguei a apagar, ou a aeromoça estaria correndo atrás de toda a

tralha de emergência que carregam.

Quase apagou, então. Seja como for, não é bom. Você nunca teve isso

em sua vida. Vacilar sim, mas nunca apagar.

Algo estranho também na mão direita. Era como se palpitasse um

pouco, como se tivesse sido acertada por um martelo.

Flexionou-a sem abrir os olhos. Nenhuma dor. Não mais a

palpita-ção. Nada de olhos azuis de artilheiro. Quanto aos brancos, eram apenas uma combinação de estar sem a droga e um bom exemplo do que o grande oráculo e eminente sei lá o que chamaria de estresse do

contrabandista.

Mas mesmo assim vou dormir, pensou. O que me diz disso? A cara de Henry flutuou para ele como um balão solto. Não se preo-

cupe, dizia Henry. Você vai ficar bem, irmãozinho. Vai voar para Nassau e se registrar no Aquinas, onde um homem vai encontrá-lo sexta à noite. Um dos caras legais. Ele vai cuidar de você, vai te deixar uma parada para você

passar o final de semana. Na noite de domingo, ele traz o pó e você entrega a chave do cofrinho no banco. Segunda de manhã você cumpre a rotina exatamente como Balazar mandou. Mas o sujeito vai fazer um jogo; ele sabe

como as coisas devem acontecer. Segunda ao meio-dia você viaja e com essa sua cara honesta vai passar como uma brisa pela alfândega e vai estar

comendo bife no Sparks antes de o sol se pôr. Vai ser moleza, irmãozinho, só uma brisa fresca.

Mas ele já estava enfrentando uma brisa meio quente.

O problema com ele e Henry era serem como Charlie Brown e Lucy. A única diferença era que, de vez em quando, Henry dava chance na quadra para que Eddie pudesse fazer o ponto - não com freqüência, mas

de vez em quando. Num de seus delírios com heroína, Eddie chegara a pensar que devia escrever uma carta a Charles Schultz. Caro Sr. Schultz, diria ele. Está perdendo uma parada por colocar SEMPRE Lucy

tirando a bola no último segundo. Ela devia deixar a bola lá de vez em quando. Nada que Charlie Brown pudesse prever, sabe como é. Às vezes ela poderia dar-lhe a chance de chutar três, até mesmo quatro vezes, uma atrás da outra,

depois ficaria um mês sem lhe dar nada, depois mais uma chance, depois nada por três ou quatro dias, e então, sabe como é, o senhor está entendendo a idéia. Isso iria foder MESMO o garoto, não é?

Eddie sabia que isso iria foder mesmo o garoto. Sabia por experiência própria.

Um dos caras legais, Henry tinha dito, mas o cara que apareceu fora

uma coisa de pele amarelada e sotaque inglês, um bigode fino que parecia saído de um filme noir dos anos 1940, e dentes amarelos inclinados para

dentro como os dentes de uma velhíssima armadilha para animais.

— Tem a chave, Señor? — perguntou, só que com um sotaque inglês

de classe alta, e a palavra soou como sênior.

— A chave está segura — disse Eddie —, se é isso que quer saber. — Então me dê.

— Não é assim que funciona. Você deveria ter alguma coisa para eu

passar o final de semana. E domingo à noite você deve me trazer outra coisa.

Aí eu lhe dou a chave. Segunda você vai até a cidade e usa a chave para

conseguir uma terceira coisa. Não sei o quê, porque não é do meu

departamento.

De repente surgiu uma pequena e ligeiramente azulada pistola auto-

mática na mão da criatura de pele amarela.

— Por que não me dá logo a chave, Señor? Eu pouparia tempo e

esforço; o senhor pouparia sua vida.

Havia muita disposição em Eddie Dean, com droga ou sem. Henry

sabia disso; melhor ainda, Balazar sabia. Por isso ele fora mandado. A

maioria deles achava que ele fora escolhido por estar amarrado pela de-

pendência da droga. Ele sabia disso, Henry sabia, Balazar também. Mas só

ele e Henry sabiam que teria ido mesmo se fosse careta como uma beata.

Por Henry. Balazar não tinha realmente chegado tão longe em sua avalia-

ção, mas foda-se Balazar.

— Por que não afasta essa coisa, seu pequeno verme? — perguntou

Eddie. — Ou está querendo que Balazar mande alguém aqui para

arrancar os olhos da sua cabeça com uma faca enferrujada?

A coisa amarela sorriu. O revólver desapareceu como mágica; em seu

lugar apareceu um pequeno envelope. Ele o entregou a Eddie.

— Só uma brincadeirinha, você sabe.

— Se você diz...

— A gente se vê domingo à noite. — Ele se virou para a porta.