A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três
Capítulo 2 · Eddie Dean
Como que para confirmar essa idéia, por mais maluca que fosse, o que o
pistoleiro contemplava através da porta de repente se ergueu e deslizou para o lado. A visão girou (novamente aquela sensação de vertigem, uma
sensação de estar parado numa plataforma com rodas, uma plataforma
com mãos que ele não podia ver e que a moviam de um lado para o outro) e então o corredor foi ultrapassando as beiradas de uma porta. Ele passou
por um lugar onde se encontravam várias mulheres, todas usando o mes-
mo uniforme vermelho. Era um lugar de utensílios de aço e ele teria gos-tado de fazer a visão em movimento parar, a despeito da dor e exaustão
que sentia, para ver o que eram as coisas de aço — algum tipo de máqui-
nas. Uma delas lembrava um pouco um fogão. A mulher de uniforme do exército que ele já vira foi servindo o gim que a voz tinha pedido. A garrafa
da bebida era muito pequena. Era de vidro. O recipiente onde o gim esta-va sendo derramado parecia de vidro, mas o pistoleiro achava que na ver-
dade era de outra coisa.
O que a imagem mostrava se deslocou antes que ele pudesse ver mais.
Foi outro daqueles giros atordoantes e ele se viu olhando para uma porta
de metal. Havia um letreiro iluminado num pequeno entalhe oblongo.
Aquela palavra o pistoleiro conseguiu ler: LIVRE, estava escrito.
A visão deslizou um pouco para baixo. A mão de alguém surgiu
da direita da porta através da qual o pistoleiro estava olhando e agarrou
a maçaneta da porta para a qual o pistoleiro estava olhando. Ele viu o punho de uma camisa azul ligeiramente repuxado, revelando caracóis
eriçados de pêlos pretos. Dedos compridos. Num deles um anel com
uma jóia incrustada que poderia ser um rubi, uma água-marinha ou uma porcaria qualquer mais ou menos vistosa. O pistoleiro acabou se
decidindo pela terceira hipótese - a pedra era grande e vulgar demais
para ser verdadeira.
A porta de metal se abriu e o pistoleiro se deparou com a mais estra-
nha privada que jamais vira. Era toda de metal.
As bordas da porta também de metal ultrapassaram as bordas da por-
ta na praia. O pistoleiro ouviu o barulho da porta sendo fechada e trancada.
Ao ser poupado de outro daqueles vertiginosos rodopios, supôs que o
homem através de cujos olhos estava olhando devia ter estendido a mão
para trás do próprio corpo ao se trancar ali.
Então a visão se deslocou — não uma volta completa, mas uma
meia-volta — e ele estava olhando para um espelho, vendo um rosto que
já vira antes... numa carta de tarô. Os mesmos olhos escuros e os fios de
cabelo preto caídos na testa. O rosto estava calmo, mas pálido, e nos
olhos — olhos que agora voltavam refletidos para ele — Roland viu um
pouco do medo, do terror da criatura cavalgada pelo babuíno na carta
de tarô.
O homem estava tremendo.
Ele também está doente.
Então se lembrou de Nort, o comedor de erva de Tull.
Pensou no Oráculo.
Um demônio tomou conta dele.
De repente o pistoleiro achou que talvez soubesse o que, afinal, era a
HEROÍNA: algo como a erva-do-diabo.
Um pouco perturbador, não é?
Sem pensar, com a simples decisão que o transformara no último de
todos, o último a continuar marchando em frente, muito tempo depois
de Cuthbert e os outros terem morrido, desistido, cometido suicídio, trai-
ção ou simplesmente renegado toda a idéia da Torre; com a determinada
e brava resolução que o impelira pelo deserto, e pelos anos antes do deser-
to, na esteira do homem de preto, o pistoleiro atravessou a porta.