A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três

Stephen King · Capítulo 260 de 274

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A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três

Capítulo 11

 

Estou morto!, gritava Jack Mort. Estou morto, conseguiu que me matassem, estou morto, estou...

Não, respondeu o pistoleiro. Através da fenda dos olhos, viu os poli-

ciais se aproximarem, as armas ainda apontadas. Mais jovens e mais rápi-dos que aqueles que tinham estacionado perto da loja de armas. Sim, mais rápidos. E pelo menos um deles era um tremendo atirador. Mort — e

Roland junto com ele — deveriam estar mortos, estar morrendo ou pelo menos seriamente feridos. Andy Staunton tinha atirado para matar e a

bala atravessara a lapela esquerda do paletó de Mort. Além disso, também perfurara o bolso da camisa Arrow — mas isso foi o máximo que aconte-ceu. A vida dos dois, o homem por dentro e o homem por fora, foi salva

pelo isqueiro de Mort.

Mort não fumava, mas seu chefe — cujo cargo Mort esperava confi-

antemente estar ocupando nessa mesma época do ano seguinte — sim. E por causa disso, Mort havia comprado um isqueiro de prata de duzentos dólares na Dunhill's. Não acendia todo cigarro que o Sr. Framingham en-

fiava na boca quando os dois estavam juntos — isso o teria feito se sentir muito parecido com um puxa-saco. Só acendia de vez em quando... e geralmente quando alguém de hierarquia ainda mais alta estava presente,

alguém que pudesse apreciar: a) a sóbria gentileza de Jack Mort e b) o bom gosto de Jack Mort.

O feliz acaso continuava dando cobertura.

Desta vez a cobertura havia salvado sua vida e a de Roland. A bala de

Staunton atingira o isqueiro prateado em vez do coração de Mort (um

coração sem grife; a paixão de Mort pelas grifes — boas grifes — feliz-mente se limitava ao tecido que lhe cobria a pele).

Mesmo assim ele estava ferido, é claro. Quando se é atingido por um

coice de grosso calibre, não existe essa coisa de sair impune. O isqueiro foi impelido contra seu peito com força suficiente para criar um buraco. Ele se achatou e depois se despedaçou, abrindo alguns sulcos, ainda que rasos,

na pele de Mort; um estilhaço quase cortou o mamilo de Mort em dois. A bala quente também provocou ignição no pavio do isqueiro, ensopado de combustível. Mesmo assim, o pistoleiro permaneceu imóvel quando eles se

aproximaram. O policial que não atirara mandava as pessoas recuarem, só recuarem, porra.

Estou pegando fogo!, berrava Mort. Pegando fogo, tire isso daqui! Tire

daqui! TIRE ISSO DAQUIIIIII...

O pistoleiro continuou imóvel, ouvindo o rangido dos sapatos dos

pistoleiros na calçada, ignorando os gritos de Mort, tentando ignorar o

pavio brilhando contra seu peito e o cheiro de carne frita.

Um pé deslizou sob suas costas e, quando este se ergueu, o pistoleiro

se deixou rolar como um corpo sem ossos. Os olhos de Jack Mort estavam

abertos. Seu rosto estava inerte. A despeito dos restos estraçalhados e ar-dentes do isqueiro, não havia sinal do homem que gritava dentro daquele corpo.

— Meu Deus — murmurou alguém —, você atirou nele com uma

bazuca, cara?

A fumaça se erguia do buraco na lapela do paletó de Mort em uma

coluna regular. Escapava pela beirada da lapela em rolos menos firmes. Os

tiras sentiram o cheiro de carne queimada quando a bucha do pavio do

isqueiro destroçado, ensopada de fluido, realmente começou a arder.

Andy Staunton, que até ali tivera uma atuação impecável, cometeu

então seu único erro, um erro pelo qual Cort o teria mandado para casa

com uma orelha inchada, apesar da admirável performance anterior. Cort

lhe diria que, na maioria das vezes, bastava um erro para liquidar com a

vida de homem. Staunton fora capaz de acertar no cara — algo que ne-

nhum tira realmente sabe se conseguirá fazer antes de se defrontar com a

situação em que terá de descobrir — mas a idéia de que sua bala tinha de

alguma forma incendiado o sujeito encheu-o de um irracional sentimento

de horror. Foi aí que, sem pensar, ele se curvou para apagar o fogo e os pés

do pistoleiro atingiram sua barriga antes que ele tivesse tempo de fazer

mais do que registrar o brilho de consciência em olhos que juraria estarem

mortos.

Staunton caiu em cima de seu parceiro. A pistola voou de sua mão.

Wheaton continuava segurando a dele, mas quando conseguiu se esquivar

de Staunton, ouviu um tiro, e seu revólver tinha magicamente sumido. A

mão onde ele estivera parecia dormente, como se tivesse sido atingida pelo

golpe de um martelo muito grande.