A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três

Stephen King · Capítulo 2 de 274

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A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três

O pistoleiro despertou de um sonho confuso que parecia consistir

PRÓLOGO

 

O Marinheiro

 

O pistoleiro despertou de um sonho confuso que parecia consistir

de uma única imagem: a do Marinheiro no baralho de tarô do qual

o homem de preto extraíra (ou fingira extrair) o deplorável futuro

do pistoleiro.

Ele se afoga, pistoleiro, o homem de preto estava dizendo, e

ninguém entra na água para salvá-lo. O garoto Jake.

Mas aquilo não era um pesadelo. Era um sonho bom. Era

bom porque era ele quem estava se afogando, e isso significava que

ele não era absolutamente Roland mas Jake, o que era um alívio,

pois seria muito melhor se afogar como Jake do que viver como

Roland, um homem que, pela frieza de um sonho, traíra uma

criança que havia confiado nele.

Bom, sem problema, vou me afogar, pensou ele ouvindo o

rugido do mar. Que eu me afogue. Mas aquele som não era o da

entrada nas profundezas; era o barulho áspero de água num lugar

cheio de pedras. Seria ele o Marinheiro? Se assim fosse, por que a

terra estava tão perto? E, aliás, será que ele não estava na terra? Era

como se...

Água gelada encharcou suas botas e lhe subiu pelas pernas até

a virilha. Seus olhos então se abriram e o que o tirou do sonho não

foram os testículos congelando - subitamente encolhidos, reduzidos

mais ou menos ao tamanho de nozes - nem o horror à sua direita,

mas a lembrança de seus revólveres... seus revólveres e, ainda mais

importante, suas balas. Revólveres molhados podiam ser

rapidamente desmontados, enxugados, lubrificados, enxugados de

novo, lubrificados de novo e remontados; balas molhadas, assim

como fósforos molhados, podiam ficar inutilizadas para sempre.

O horror era uma coisa rastejante que devia ter sido trazida

por uma onda. Arrastava penosamente um corpo molhado e

brilhante pela areia. Tinha cerca de um metro e vinte de

comprimento e estava uns quatro metros à sua direita. Olhava para Roland com olhos vazios, semicerrados. O longo bico serrilhado, que estava aberto, começou a emitir um ruído estranhamente

parecido com fala humana: perguntas num tom de lamento, quase de desespero, numa língua estranha. Chic? Chum? Cham? Chec?

O pistoleiro já tinha visto lagostas. Aquilo não era uma delas,

embora dentre as coisas que já tinha visto as lagostas fossem as únicas com que a criatura pelo menos vagamente se parecia. Não parecia absolutamente estar com medo dele. O pistoleiro não sabia

se era perigosa ou não. Mas não se importava com sua própria confusão mental — a temporária incapacidade de se lembrar de onde estava ou como havia chegado lá, se tinha realmente alcançado

o homem de preto ou se tudo não passava de um sonho. Só sabia que tinha de se afastar da água antes que ela molhasse sua munição.

Ouviu o barulho áspero, cada vez mais volumoso da água e

desviou os olhos da criatura (ela havia parado e, levantando as garras com as quais viera se arrastando, ficara absurdamente

parecida com um boxeador assumindo a postura inicial de guarda que, como Cort lhes ensinara, chamava-se Posição de Honra) para a arrebentação que se aproximava com seus dejetos de espuma.

Ela está ouvindo a onda, pensou o pistoleiro. Seja lá o que for,

tem ouvidos. Tentou se levantar, mas suas pernas, dormentes demais para serem sentidas, se curvaram sob ele.

Ainda estou sonhando, pensou, mas apesar do estado confuso

em que se encontrava aquilo pareceu uma idéia tentadora demais para ser digna de crédito. Tentou se levantar de novo, quase

conseguiu, mas acabou caindo. A onda estava quebrando. Não dava mais tempo. A única solução era se mover quase da mesma maneira que a criatura à sua direita parecia estar se movendo: enfiou

as duas mãos na areia e arrastou o traseiro pela praia pedregosa, para longe da onda.

Não avançou o bastante para evitar de todo a onda, mas

chegou suficientemente longe para se dar por satisfeito. A única coisa que a onda cobriu foram suas botas. A água lhe chegou quase

aos joelhos e depois recuou. Talvez a primeira não tenha chegado tão longe quanto pensei. Talvez...

Havia uma meia-lua no céu. Uma auréola de névoa a cobria,

mas ela derramava luz suficiente para o pistoleiro ver que os coldres estavam bem escuros. Pelo menos os revólveres tinham tomado um banho. Era impossível avaliar o dano causado ou saber se as

balas que estavam nos tambores e as que estavam nos cinturões cruzados também haviam sido molhadas. Antes de verificar, ele teve de se esquivar da água. Teve de...

"Choc?" Aquela chegou muito mais perto. Preocupado com a

água, se esquecera da criatura que a água havia trazido. Olhou ao redor e viu que agora ela estava a pouco mais de um metro de

distância. Com as garras enterradas na areia coberta de pedrinhas e conchas da praia, a coisa se arrastava. De repente ergueu o corpo carnudo, serrilhado, ficando parecida com um escorpião,

embora Roland não visse nenhum ferrão na ponta daquele corpo.

Outro barulho áspero, agora muito mais alto. A criatura

imediatamente parou e tornou a levantar as garras em sua própria e

peculiar versão da Posição de Honra.

Aquela onda foi maior. Roland ia começar novamente a se

arrastar pelo aclive da praia mas, quando estendeu as mãos, a

criatura de garras moveu-se com uma rapidez que seus

movimentos anteriores não faziam de modo algum prever.

O pistoleiro sentiu uma forte pontada de dor na mão direita,

só que naquele momento não teve tempo de pensar nisso. Deu

impulso com os saltos das botas encharcadas, agarrou-se com as

mãos e conseguiu esquivar-se da onda.

"Chic?", indagava a monstruosidade em seu tom de lamento

— não vai me ajudar?, não vê que estou desesperada?—, e Roland

viu as pontas de seu primeiro e segundo dedos da mão direita

desaparecerem no bico denteado da criatura. Ela tornou a atacar

e Roland ergueu mão direita pingando sangue bem a tempo de

salvar o que restava dos dois dedos.

"Chum? Cham?"

O pistoleiro conseguiu ficar de pé. A coisa rasgou o jeans

gotejando água, cortou uma bota cujo couro velho era macio, mas

resistente como ferro, e tirou um naco de carne da barriga da

perna de Roland.