A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três
Então ele se lembrou das mãos que tinham tateado aparentemente
distraídas pelo mostruário e, com a mesma distração, iam enfiando a falsa
pedraria numa grande bolsa — quase como se ela quisesse ser apanhada.
Os anéis estavam lá.
Os mesmos anéis.
Mas isso não significava necessariamente as mesmas mãos, pensou ele
febrilmente. A idéia, no entanto, só se sustentou por um segundo. Tinha
examinado as mãos delas. Eram as mesmas, de dedos longos, delicadas.
— Não — continuou o pistoleiro. — Não é ela. — Seus olhos azuis
estudaram Eddie cuidadosamente.
— As mãos dela...
— Escute — disse o pistoleiro — e escute com atenção. Nossas vidas
podem depender disso. A minha porque estou ficando outra vez doente e
a sua porque você se apaixonou por ela.
Eddie não disse nada.
— Ela é duas mulheres no mesmo corpo. Era uma pessoa quando a
trouxe para cá e outra quando voltei com a água.
Agora Eddie não conseguiu dizer nada.
— Havia mais alguma coisa nela — continuou Roland —, alguma
coisa estranha. Ou não fui capaz de compreendê-la ou fui capaz, num
primeiro momento, mas ela me escapou. Parecia importante.
O olhar de Roland, ultrapassando Eddie, se concentrou na cadeira de
rodas à beira-mar, isolada na extremidade de um curto rastro que vinha
de lugar nenhum. Então Roland tornou a olhar para Eddie.
— Entendo muito pouco disto, de como algo assim pode estar
acontecendo, mas você deve ficar de guarda. Entendeu?
— Sim. — Eddie tinha a sensação de estar faltando ar em seus
pulmões. Percebia... ou pelo menos tinha uma percepção de cinéfilo do
tipo de risco a que o pistoleiro estava se referindo... mas não tinha
coragem de deixar a coisa em pratos limpos sequer para si mesmo,
ainda não. Era como se Roland tivesse drenado todo seu ânimo.
— Ótimo. Porque a mulher que eu trouxe do outro lado da porta é
tão letal quanto aquelas coisas-lagostas que aparecem à noite.