A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três

Stephen King · Capítulo 111 de 274

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A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três

Embaralhada

 

O período que se seguiu àquela noite foi, para Roland, tempo que na

verdade não existiu absolutamente como tempo. Ele só se lembrava de uma série de imagens, momentos, conversas fora de contexto; imagens lampejando como rápidos valetes, cartas de três, de nove e a Negra e Tre-

menda Puta, Rainha das Aranhas, numa rápida embaralhada digna de um trapaceiro.

Mais tarde, ele perguntou a Eddie quanto tempo aquele período havia

durado, mas Eddie também não sabia. O tempo fora destruído para am-bos. Não há tempo no inferno e cada um estava em seu inferno particular:

Roland no inferno da febre e da infecção, Eddie no inferno da privação.

— Foi menos de uma semana — disse Eddie. — É só disso que eu

tenho certeza.

— E como sabe?

— Comprimidos para uma semana era tudo que eu tinha para lhe

dar. Depois disso, você teria de se encarregar de uma de duas opções.

— Ficar bom ou morrer.

— Certo.

 

embaralhada

 

Há um tiro quando o crepúsculo chega à escuridão, um estampido seco

invadindo o inevitável e contínuo barulho das ondas quebrando na praia desolada: KA-BLAM! Há um leve cheiro de pólvora. Problema, o

pistoleiro pensa vagamente, e estende a mão para revólveres que já não

estão lá. Ah não, isto ê o fim, é...Mas não há mais tiros e alguma coisa começa a cheirar

 

embaralhada

 

bem na escuridão. Alguma coisa, depois de todo aquele longo tempo es-curo e árido, alguma coisa está cozinhando. Não é apenas o cheiro. Ele

pode ouvir o estalar e quebrar da lenha, pode ver o fraco brilho alaranjado de uma fogueira. Às vezes, quando sopra a brisa marinha, há também um perfume na fumaça além daquele cheiro de dar água na boca. Comida, ele

pensa. Meu Deus, será que estou com fome? Se estou com fome, talvez esteja melhorando.

Eddie, tenta chamar, mas sua voz não existe mais. A garganta dói, dói

muito. Deveríamos ter trazido alguma asmina, também, ele pensa, e tenta dar uma risada: todas as drogas para ele, nenhuma para Eddie.

Eddie aparece. Tem um prato de metal, um prato que o pistoleiro

reconheceria em qualquer lugar: vem, afinal, de sua própria bolsa. Nele há

pedaços fumegantes de uma carne branca e rosada.

O que é isso?, tenta perguntar, e a única coisa que sai de sua boca é um

leve e guinchante barulho de peido.

Eddie lê o movimento de seus lábios.

— Não sei — responde de mau humor. — Só sei que não me matou.

Coma, porra.

O pistoleiro vê que Eddie está muito pálido, Eddie está tremendo.

Sente um cheiro de Eddie que lembra merda ou morte e percebe que Eddie

não está bem. Estende uma das mãos, querendo dar apoio. Eddie se esquiva.

— Vou te dar comida — Eddie fala irritado. — Não sei por que estou

fazendo esta porra. Deveria te matar. Só não faço isso porque, se você

conseguiu atravessar uma vez para o meu mundo, talvez consiga fazer isso de novo.

Eddie olha em volta.

— E também não te mato porque ficaria sozinho. Na companhia

delas.