A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três
— Significa o que é sempre dito…
— Significa o que é sempre dito ou considerado verdadeiro por
pessoas que só pensam um pouco ou que não pensam absolutamente
nada.
— Sim. Acho que sua maneira de explicar acertou na mosca.
— Ei, rapazes, ainda não começaram a sacudir a vela um do outro?
— A voz de Detta estava ficando rouca e trêmula. — Talvez não estejam
conseguindo achá-las. É isso?
— Vamos lá. — O pistoleiro ficou lentamente de pé. Oscilou um
instante, viu Eddie olhando para ele e sorriu. — Vou continuar bem.
— Por quanto tempo?
— Pelo tempo que for preciso — respondeu o pistoleiro, e a
serenidade em sua voz gelou o coração de Eddie.
12
Naquela noite o pistoleiro usou a última munição considerada efetiva-mente boa para fazer sua caça. Na noite do dia seguinte, começaria a testar
as que acreditava estarem defeituosas, mas achava que a coisa se apresenta-va realmente como Eddie dissera: as balas não poderiam acabar com todas as malditas coisas.
Era como das outras noites: acender a fogueira, cozinhar, abrir as la-
gostas, comer... comida que parecia agora sem gosto e que era servida sem entusiasmo. Estamos apenas passando nosso tempo, pensou Eddie. Ofereceram
comida a Detta, que gritou, riu, disse palavrões, perguntou por quanto tempo iriam tratá-la como burra e começou a atirar freneticamente o corpo de um lado para o outro, não se importando com o fato de os laços irem apertando
cada vez mais. Queria era derrubar a cadeira para um lado ou para o outro, para que tivessem novamente de suspendê-la antes de comer.
Antes que ela conseguisse ter êxito, Eddie agarrou-a e Roland esco-
rou as rodas de ambos os lados com pedras.
— Vou afrouxar um pouco as cordas se ficar quieta — Roland disse
a ela.
— Chupe a merda do meu cu, puto!
— Não sei se essa resposta significa sim ou não.
Ela o encarou, olhos contraídos, suspeitando de alguma farpa oculta
de deboche naquela voz calma (Eddie também suspeitou e não chegou à
conclusão se havia ou não). Após um momento, Detta respondeu num tom mal-humorado: — Vou ficar quieta. Faminta demais pra ficá dando chute. Vão mi dá alguma cumida di verdade ou vão me deixa morrer
de fome? É esse o plano? São muito covardes pra me estrangulá e eu nunca vou comer aquele veneno, por isso o plano deve ser pur aí. Me matá de fome. Bem, vamo ver, claro. Vamo ver. Claro que vamo. —
Ela tornou a lhes oferecer aquele arreganho de dentes que congelava até os ossos.
Não muito tempo depois adormeceu.
Eddie encostou a mão no rosto de Roland. Roland olhou-o de lado,
mas não se esquivou do toque.
— Tudo bem comigo.
— Sim, você é Corpo Fechado. Bem... Sabe de uma coisa, Corpo,
hoje não fizemos grandes progressos.
— Eu sei. — Havia também o problema de ter usado a última bala
garantida, o pistoleiro pensou, mas Eddie não precisava ficar sabendo
disso de imediato, pelo menos naquela noite. Eddie não estava doente,
mas estava exausto. Exausto demais para novas notícias ruins.
Não, ele não está doente, ainda não, mas se ficar muito mais tempo sem
descansar, se levar o cansaço um pouco mais longe, vai ficar doente.
De certa maneira, Eddie já estava; os dois estavam. Herpes tinham
surgido nos cantos da boca de Eddie e sua pele tinha áreas esfoladas. O
pistoleiro, por sua vez, podia sentir os dentes se soltando das gengivas e a
carne entre os dedos dos pés começara a se abrir e a sangrar, o mesmo
acontecendo entre os dedos que lhe sobravam nas mãos. Estavam
comendo, mas comendo a mesma coisa, dia após dia. Poderiam continuar
assim durante algum tempo, mas isso acabaria por levá-los à morte, tão
certamente quanto teriam morrido de fome se não comessem nada.
O que temos é escorbuto, embora não estejamos a bordo de nenhum na-
vio, pensou Roland. Simples assim. Engraçado assim. Precisamos de frutas.
Precisamos de verduras.
Eddie apontou a cabeça para a Dama.
— Detta vai continuar piorando as coisas para nós.
— A não ser que a outra que existe dentro dela consiga voltar.