A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três
Atravessei. Estou na carruagem celeste, pensou o…
Atravessei. Estou na carruagem celeste, pensou o pistoleiro. E um segundo depois: Ele está me vendo no espelho!
Roland recuou — não saiu mas recuou, como uma criança se reti-
rando para o canto mais distante de uma sala muito comprida. Estava dentro da carruagem celeste; estava também dentro de um homem que
não era ele próprio. Dentro do Prisioneiro. Naquele primeiro momento, quando esteve próximo do front (não soube descrever a coisa de outro
modo), tinha estado mais do que dentro; tinha quase sido o homem. Sen-tiu o mal-estar dele, fosse lá qual fosse, e sentiu que ia vomitar. Roland percebeu que, se precisasse, poderia assumir o controle do corpo daquele
homem. Teria de sofrer suas dores, ser cavalgado por qualquer demônio-macaco que viajasse com ele, mas se precisasse podia tomar a rédea.
Ou poderia ficar ali encolhido, despercebido.
Quando o acesso de vômito do prisioneiro passou, o pistoleiro saltou
para a frente — desta vez indo direto para o front. Compreendia muito pouco daquela estranha situação e agir numa situação que não se compre-
ende é abrir caminho para as mais terríveis conseqüências, mas havia duas coisas que ele precisava saber — e precisava sabê-las tão desesperadamente que a necessidade era mais importante que quaisquer conseqüências que
pudessem advir.
Será que a porta que ele havia atravessado vindo de seu próprio mun-
do ainda estava lá?
E se estivesse, será que seu eu físico continuava no mesmo lugar, desmo-
ronado, oco, morrendo ou já morto sem sua consciência para fazer funcionar automaticamente pulmões, coração e nervos? Mesmo se seu corpo ainda vi-vesse, só poderia continuar assim até a noite cair. Então as lagostrosidades
apareceriam para fazer suas perguntas e procurar jantares à beira-mar.
Girou a cabeça, que por um momento foi a cabeça do homem, numa
rápida olhada para trás.
A porta ainda estava lá, atrás dele. Continuava se abrindo para aquele
mundo, onde as dobradiças se enterravam no aço daquele peculiar ba-nheiro. E sim, lá estava ele, Roland, o último pistoleiro, deitado de lado,
com a mão direita enfaixada em cima da barriga.