A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três
O pistoleiro poderia ter levantado a subtraída…
O pistoleiro poderia ter levantado a subtraída mão direita e dito: Pense
você mesmo no que isto significa, seu tolo idiota, mas seria tão estúpido fazer
este comentário quanto perguntar por que tinha de estar acontecendo com
Eddie, dentre todas as pessoas em todos os universos que pudessem existir.
— Isso é ka — disse ele, encarando pacientemente Eddie.
— O que é ka? — O tom de Eddie foi truculento. — Nunca ouvi
falar. Só sei que se disser duas vezes vira a palavra que os bebês usam para
merda.
— Não sei do que está falando — disse o pistoleiro. — Ka significa
dever, destino ou, num sentido popular, o lugar para onde se tem de ir.
Eddie conseguiu parecer deprimido, irritado e divertido, tudo ao
mesmo tempo.
— Então diga duas vezes, Roland, porque palavras como essa
continuam soando como merda para este garotão.
— Não discuto filosofia — disse o pistoleiro dando de ombros. —
Não estudo história. Tudo que sei é que o que é passado é passado e o que
está à frente está à frente. O segundo é o ka, que cuida de si mesmo.
— Sério? — Eddie olhava para o norte. — Bem, o que vejo à frente
é só uns nove bilhões de milhas desta mesma porra de praia. Se é isso o que
está à frente, ka e kaka são a mesma coisa. Podemos ter um número sufi-
ciente de balas boas para explodir o nariz de mais cinco ou seis daquelas
lagostas, mas depois vamos ficar caídos na ponta das rochas olhando para
elas. Para onde você acha que estamos indo? Por um instante, Roland teve
de fato vontade de saber se Eddie nunca pensara em fazer perguntas
desse gênero ao irmão, por mais que perguntas do gênero pudessem
também ser convites para muita discussão sem sentido. Ele só levantou
um polegar para o norte e disse:
— Para lá. Começamos por lá.
Eddie olhou e não viu nada além daquela extensão de praia salpicada
de conchas e pedrinhas cinzentas. Tornou a olhar para Roland, pronto
para zombar dele. Tornou a olhar de novo, ao ver a serena convicção em
seu rosto. Olhou para a frente e estreitou os olhos. Com a mão direita,
protegeu o lado direito do rosto do sol poente. Queria desesperadamente
ver alguma coisa, qualquer coisa, merda, até uma miragem servia, mas não
havia nada.