A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três

Stephen King · Capítulo 175 de 274

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A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três

Foi onde começaram a notar alguma coisa.…

Empurrar.

Foi onde começaram a notar alguma coisa. Empurrar a cadeira de

rodas por uma praia de areia fina teria sido tão impossível quanto dirigir

um carro em estradas onde não tivessem removido a neve. Sem dúvida

aquela praia, com sua superfície áspera, coberta de cascalho, tornava o

movimento da cadeira possível, embora longe de fácil. A cadeira rolava

suavemente por algum tempo, esmagando conchas e atirando pedrinhas

com os duros pneus de borracha... Então, de repente, atingia uma vala

para onde a areia mais fina fora soprada e Eddie tinha de empurrar com

mais força, resmungando, reclamando do peso da passageira e do fato de

ela ser incapaz de ajudar. A areia se agarrava avidamente às rodas. Era

preciso simultaneamente empurrar e fazer peso contra os guidons da ca-

deira para ela não cair de frente na areia da praia com sua ocupante amar-

rada.

Detta dava uma gargalhada quando ele tentava empurrar sem levan-

tar a cadeira.

— Tá se divertindo aí atrás, meu querido? — perguntava ela cada vez

que a cadeira esbarrava numa daquelas fendas.

A certa altura o pistoleiro se aproximou para ajudar, mas Eddie fez

sinal para que se afastasse.

— Mais tarde terá sua chance — disse. — Vamos nos revezar. — Mas

acho que meu turno vai ser tremendamente mais demorado que o dele,

falou uma voz em sua cabeça. Pela aparência de Roland, acho que

muito breve ele terá dificuldade até para se mover, que dirá mover a

mulher que está nesta cadeira. Não, cavalheiro, estou desconfiado que

o lance vai ser todo seu. E a vingança de Deus, sabia? Por todos

aqueles anos que passou como viciado... E sabe de uma coisa? Enfim

você agora é uma mula, só que empurrando uma cadeira.

Deixou escapar um risinho breve e sem fôlego.

— O que é tão engraçado, menino branco? — perguntou Detta, e

embora Eddie achasse que ela pretendia parecer sarcástica, a coisa soou

com o timbre de uma pequena raiva.

Para mim, na realidade, não há nada engraçado, pensou ele. Absoluta-

mente nada. Nem haverá enquanto ela estiver no meio.

— Você não entenderia, garota. Deixe estar.

— Tô deixando tu estar antes de eu resolve acaba cum a diversão —

disse ela. — Qui inda vou vê tu e teu companheiro pé no saco reduzido a

pó por toda esta praia. Claro. Enquanto isso é melhó tu guarda o fôlego pra

continua empurrando esta coisa. E já parece meio sem ar.Bem, você fala

por nós dois, não é? — Eddie estava ofegante. —

Você nunca parece perder o fôlego.

— Sei engolir o vento, otário! Pra depois despejar na tua cara morta!

— Ameaças, ameaças. — Eddie empurrava a cadeira para fora de

uma vala e pegava um trecho de cascalho onde era relativamente mais fácil

andar... pelo menos por alguns metros. O sol ainda não estava inteira

mente no alto, mas Eddie já havia começado a suar.

Vai ser um dia divertido e revelador, pensou ele. Já consigo perceber isto.

Parar.

Esse era o outro detalhe.

Tinham atingido um trecho de praia com solo mais firme. Eddie

empurrava a cadeira com mais rapidez, pensando vagamente que se pu-

desse manter aquele adicional de velocidade extra, talvez conseguisse trans-

por a próxima vala apenas no embalo.

Então a cadeira parou. Bruscamente. A barra que ligava os guidons

atingiu com força o peito de Eddie. Ele resmungou. Roland olhou em

volta, mas nem mesmo os reflexos de gato do pistoleiro puderam impedir

a cadeira da Dama de emborcar, exatamente como ameaçara fazer em

cada uma das outras valas que atravessara. A cadeira virou e Detta foi

junto, amarrada e indefesa, mas rindo sem parar. Ainda ria quando Roland

e Eddie conseguiram endireitar a cadeira. Algumas das cordas tinham fi-

cado tão esticadas que, com certeza, deviam estar deixando marcas cruéis

na carne de Detta, levando a circulação para as extremidades; havia um

talho em sua testa e o sangue gotejava para as sobrancelhas. Mesmo assim

ela não parava de rir.

Os dois homens estavam arquejantes, realmente sem fôlego, quando

finalmente conseguiram repor a cadeira em sua posição normal. Os pesos

combinados da cadeira e da mulher deviam ter totalizado mais de cem

quilos, a maioria dos quais saída da cadeira. Ocorreu a Eddie que se o

pistoleiro tivesse arrebatado Detta no mesmo quando dele, 1987, a cadeira

pesaria uns 25 quilos a menos.

Detta deu uma risadinha, depois bufou e piscou com os olhos muito

injetados.