A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três
Foi onde começaram a notar alguma coisa.…
Empurrar.
Foi onde começaram a notar alguma coisa. Empurrar a cadeira de
rodas por uma praia de areia fina teria sido tão impossível quanto dirigir
um carro em estradas onde não tivessem removido a neve. Sem dúvida
aquela praia, com sua superfície áspera, coberta de cascalho, tornava o
movimento da cadeira possível, embora longe de fácil. A cadeira rolava
suavemente por algum tempo, esmagando conchas e atirando pedrinhas
com os duros pneus de borracha... Então, de repente, atingia uma vala
para onde a areia mais fina fora soprada e Eddie tinha de empurrar com
mais força, resmungando, reclamando do peso da passageira e do fato de
ela ser incapaz de ajudar. A areia se agarrava avidamente às rodas. Era
preciso simultaneamente empurrar e fazer peso contra os guidons da ca-
deira para ela não cair de frente na areia da praia com sua ocupante amar-
rada.
Detta dava uma gargalhada quando ele tentava empurrar sem levan-
tar a cadeira.
— Tá se divertindo aí atrás, meu querido? — perguntava ela cada vez
que a cadeira esbarrava numa daquelas fendas.
A certa altura o pistoleiro se aproximou para ajudar, mas Eddie fez
sinal para que se afastasse.
— Mais tarde terá sua chance — disse. — Vamos nos revezar. — Mas
acho que meu turno vai ser tremendamente mais demorado que o dele,
falou uma voz em sua cabeça. Pela aparência de Roland, acho que
muito breve ele terá dificuldade até para se mover, que dirá mover a
mulher que está nesta cadeira. Não, cavalheiro, estou desconfiado que
o lance vai ser todo seu. E a vingança de Deus, sabia? Por todos
aqueles anos que passou como viciado... E sabe de uma coisa? Enfim
você agora é uma mula, só que empurrando uma cadeira.
Deixou escapar um risinho breve e sem fôlego.
— O que é tão engraçado, menino branco? — perguntou Detta, e
embora Eddie achasse que ela pretendia parecer sarcástica, a coisa soou
com o timbre de uma pequena raiva.
Para mim, na realidade, não há nada engraçado, pensou ele. Absoluta-
mente nada. Nem haverá enquanto ela estiver no meio.
— Você não entenderia, garota. Deixe estar.
— Tô deixando tu estar antes de eu resolve acaba cum a diversão —
disse ela. — Qui inda vou vê tu e teu companheiro pé no saco reduzido a
pó por toda esta praia. Claro. Enquanto isso é melhó tu guarda o fôlego pra
continua empurrando esta coisa. E já parece meio sem ar.Bem, você fala
por nós dois, não é? — Eddie estava ofegante. —
Você nunca parece perder o fôlego.
— Sei engolir o vento, otário! Pra depois despejar na tua cara morta!
— Ameaças, ameaças. — Eddie empurrava a cadeira para fora de
uma vala e pegava um trecho de cascalho onde era relativamente mais fácil
andar... pelo menos por alguns metros. O sol ainda não estava inteira
mente no alto, mas Eddie já havia começado a suar.
Vai ser um dia divertido e revelador, pensou ele. Já consigo perceber isto.
Parar.
Esse era o outro detalhe.
Tinham atingido um trecho de praia com solo mais firme. Eddie
empurrava a cadeira com mais rapidez, pensando vagamente que se pu-
desse manter aquele adicional de velocidade extra, talvez conseguisse trans-
por a próxima vala apenas no embalo.
Então a cadeira parou. Bruscamente. A barra que ligava os guidons
atingiu com força o peito de Eddie. Ele resmungou. Roland olhou em
volta, mas nem mesmo os reflexos de gato do pistoleiro puderam impedir
a cadeira da Dama de emborcar, exatamente como ameaçara fazer em
cada uma das outras valas que atravessara. A cadeira virou e Detta foi
junto, amarrada e indefesa, mas rindo sem parar. Ainda ria quando Roland
e Eddie conseguiram endireitar a cadeira. Algumas das cordas tinham fi-
cado tão esticadas que, com certeza, deviam estar deixando marcas cruéis
na carne de Detta, levando a circulação para as extremidades; havia um
talho em sua testa e o sangue gotejava para as sobrancelhas. Mesmo assim
ela não parava de rir.
Os dois homens estavam arquejantes, realmente sem fôlego, quando
finalmente conseguiram repor a cadeira em sua posição normal. Os pesos
combinados da cadeira e da mulher deviam ter totalizado mais de cem
quilos, a maioria dos quais saída da cadeira. Ocorreu a Eddie que se o
pistoleiro tivesse arrebatado Detta no mesmo quando dele, 1987, a cadeira
pesaria uns 25 quilos a menos.
Detta deu uma risadinha, depois bufou e piscou com os olhos muito
injetados.