A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três
Capitulo 4 · Detta do Outro Lado
1
Você deve ficar de guarda, disse o pistoleiro e Eddie havia concordado, mas
o pistoleiro sabia que Eddie não sabia muito bem do que ele estava falan-do; toda a metade de trás da mente de Eddie, onde a sobrevivência tem êxito ou não, deixara de captar a mensagem.
O pistoleiro viu isso.
Foi uma boa coisa para Eddie ele ter percebido.
No meio da noite, os olhos de Detta Walker se abriram de repente. Esta-vam cheios do brilho das estrelas e cheios de clara percepção.
Ela se lembrava de tudo: de como os enfrentara, de como a tinham
amarrado na cadeira, de como tinham zombado dela, chamando-a crioulaputa, crioulaputa.
Lembrava-se dos monstros saindo das ondas e lembrava de como um dos homens - o mais velho — matara um dos monstros. O mais novo acendera uma fogueira, cozinhara o monstro e, sorrindo, lhe oferecera carne de
monstro fumegante no espeto. Ela se lembrava de ter cuspido no rosto dele, lembrava-se do sorriso se convertendo numa irada careta branca. Ele havia lhe batido no rosto e dito: Bem, está muito bem, você vai mudar de idéia,
crioulaputa. Tenha certeza que vai. Então ele e o Elemento Realmente Mau tinham rido e o Homem Realmente Mau comera um pedaço do lombo que havia posto no espeto e cozinhado devagar na fogueira, ali no litoral daquele
lugar estranho para onde a haviam levado.
O cheiro da carne sendo lentamente assada era apetitoso, mas ela não
dera sinal de satisfação. Mesmo quando o mais jovem sacudiu um pedaço
perto de seu rosto, cantando Morda isso, crioulaputa, pode morder isto, con-tinuou imóvel como pedra, mantendo-se firme.
Depois dormira e agora estava acordada. As cordas com que fora
amarrada haviam sumido. Não estava mais em sua cadeira mas estendida
num cobertor e debaixo de outro, bem longe dos limites da maré alta, onde as coisas-lagostas continuavam perambulando, fazendo suas perguntas
e interrompendo o vôo de uma solitária e infeliz gaivota.
Ela olhou para a esquerda e não viu nada.
Olhou para a direita e viu dois homens dormindo enrolados em duas
pilhas de cobertores. O mais novo estava mais próximo e o Homem Real-
mente Mau tirara os cinturões dos revólveres e os depositara a seu lado.
Os revólveres continuavam nos cinturões.
Cometeu um tremendo erro, chifrudo, pensou Detta, rolando para a
direita. O raspão e o chiado de seu corpo na areia eram inaudíveis sob o vento, as ondas, as criaturas indagadoras. Ela rastejou devagar pela areia (como se fosse uma das lagostrosidades), os olhos brilhando.
Estendeu a mão para os cinturões e puxou um dos revólveres. Era muito pesado, o cabo liso e particularmente letal em sua mão. 0
peso não a incomodava. Eram fortes os braços de Detta Walker, sem dú-
vida eram.
Ela rastejou um pouco mais.
O homem mais novo não era mais que uma pedra que roncava,
mas o Homem Realmente Mau se mexeu um pouco no sono e ela ficou imóvel, o rosnado despontando entre os dentes até ele se aquietar de novo.
O cara é um safado fiodaputa. Ti cuida, Detta. Presta atenção, ti cuida. Encontrou o pino que soltava o tambor, tentou empurrá-lo para cima,
nada aconteceu, então puxou-o para baixo. O tambor estava solto.
Carregado! Incrível, carregado! Primeru tu pega u pica moli du más
novo. Quandu aquele Homem Realmente Mau acordar tu mostra pra ele um