A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três

Stephen King · Capítulo 251 de 274

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A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três

— Sr. Katz — chamou o vendedor…

— Sr. Katz — chamou o vendedor num tom que parecia estranha-

mente pastoso. — Acho que temos um probl...

Houve outro grito. Que foi seguido pelo estampido de um revólver.

Isso o assustou de tal forma que, por um momento, ele achou que seu

coração fosse produzir algum estalo monstruoso no peito e depois parar

para sempre.

Quando abriu os olhos, deu de frente com os olhos do pistoleiro.

Katz abaixou a cabeça e viu o revólver no punho do homem. Olhou para

a esquerda e viu Ralph, o guarda, alisando uma das mãos e encarando o

ladrão com olhos que pareciam estar lhe saltando do rosto. O revólver de

Ralph, o 38 que carregara dedicadamente durante 18 anos como policial

(e com o qual só atirara durante o treino de tiro, no subsolo da 23 delega-

cia, embora dissesse que o havia sacado duas vezes no cumprimento do

dever... mas quem podia saber?), era agora um destroço jogado no canto.

— Quero Keflex — disse o homem com os olhos de atirador com ar

neutro. — Quero muitos. Agora. E não importa a RÉCITA.

Por um momento, Katz só conseguiu ficar de boca aberta olhando

para o homem, o coração lutando no peito, uma nauseante panela ferven-

te de acidez NO estômago.

Quem foi que disse que ele já tinha atingido o fundo do poço?

Será que tinha mesmo?

 

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— Não está entendendo — Katz conseguiu finalmente dizer. Sua voz

pareceu estranha a ele próprio e nisso realmente não havia nada de muito

singular, já que sua boca parecia ter se transformado numa camisa de

flanela e sua língua num floco de algodão. — Não tem cocaína aqui.

Essa droga não é receitada em nenhuma cir...

— Eu não disse cocaína — falou o homem de terno azul e óculos de

aro dourado. — Eu disse Keflex.

Bom, mas foi isso que achei que você disse, Katz quase falou para aquele monstrengo maluco, mas acabou achando que a coisa poderia provocá-lo. Já tinha ouvido falar de drogarias sendo assaltadas para

fornecer anfetaminas, barbitúricos e uma meia dúzia de outras coisas (incluindo o precioso Valium da Sra. Rathbun), mas achava que aquele era o primeiro roubo de penicilina da história.

A voz de seu pai (que Deus fizesse apodrecer o velho pilantra) man-

dou que parasse de engolir em seco e tremer e fizesse alguma coisa.

Mas não conseguia pensar em nada para fazer.

O que havia de estranho naquele homem não vinha apenas do fato

de ele estar armado.

— Ande — disse o homem com o revólver. — Estou com pressa.

— Q-quantos você quer? — perguntou Katz. Seus olhos flutuaram

um instante sobre o ombro do gatuno e viram algo em que mal puderam

acreditar. Não naquela cidade. Mas ainda assim parecia estar mesmo acontecendo. Sorte? Katz seria capaz de ter alguma sorte de verdade Do tipo que pudesse figurar no The Guinness Book of World Records?

— Não sei — disse o homem com o revólver. — Tanto quanto

puder colocar numa sacola. Uma sacola grande. — E sem absolutamente

qualquer aviso, deu meia-volta e o revólver em sua mão tornou a disparar. Um homem gritou. Uma placa de vidro voou para a calçada e o meio da rua numa centelha de cacos e lascas. Vários pedestres que por ali passavam

tiveram cortes, mas nenhum sério. No interior da drogaria de Katz, mulheres (e não poucos homens) gritaram. O alarme contra roubo

começou a emitir seu próprio ruído. Os fregueses, em pânico, iam saindo em disparada pela porta. O homem com o revólver tornou a se virar para Katz e sua expressão não sofrerá a menor alteração: o rosto exibia o

mesmo ar de assustadora (mas não inesgotável) paciência que o acompanhara desde a chegada. — Faça logo o que estou pedindo. Estou com pressa.

Katz engoliu em seco.

— Sim, senhor — disse ele.

 

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O pistoleiro tinha visto e admirado o espelho curvo no alto do canto esquerdo da loja enquanto estava a caminho do balcão atrás do qual

eram guardadas as poções poderosas. A criação de um espelho assim curvado estava além da capacidade de qualquer artesão em seu próprio mundo, embora mesmo lá tenha havido um tempo em que

tais coisas - e muitas das que via no mundo de Eddie e Odetta - poderiam ter sido feitas. Ele tinha visto os restos de algumas no túnel sob as montanhas, e também as vira em outros lugares... relíquias tão

antigas e misteriosas quanto as pedras druites que às vezes eram encontradas nos pontos onde havia demônios.

Também compreendeu a finalidade do espelho.

Demorara um segundo para ver o movimento do segurança (pois

ainda não havia percebido como as lentes que Mort usava restringiam

desastrosamente sua visão periférica), mas ainda teve tempo de se virar e atirar, arrancando o revólver da mão dele. Um tiro que para Roland era mera rotina, embora tivesse sido obrigado a acelerar um pouco o movi-

mento do dedo. O segurança, contudo, tinha uma opinião diferente. Ralph Lennox iria jurar até o fim de seus dias que o sujeito dera um tiro impos-sível... só comparável, talvez, aos daqueles velhos faroestes de seu tempo

de garoto, como Annie Oakley.

Foi também graças ao espelho, obviamente colocado onde estava para

detectar ladrões, que Roland pôde cuidar com mais rapidez do outro homem.

Ao ver os olhos do alquimista piscarem um segundo sobre seu om-

bro, a atenção do pistoleiro se voltara de imediato para o espelho. Foi lá que viu um homem de jaqueta de couro subindo o corredor central por

trás dele. Tinha uma faca comprida na mão e, sem dúvida, imagens de glória na cabeça.

O pistoleiro se virou e deu um único tiro, logo deixando o revólver

cair no coldre, consciente de que poderia ter errado aquele primeiro tiro por não estar familiarizado com a arma, mas não querendo ferir os fregue-

ses parados atrás do pretenso herói. Melhor, se fosse preciso, atirar a se-

gunda vez da própria cintura, acertando mercadorias que causariam alvo-roço voando para o alto, mas sem ameaçar os presentes, do que se arriscar

a matar alguma senhora cujo único crime tivesse sido escolher o dia erra-do para comprar perfume.

O revólver estava bem cuidado. A pontaria era fiel. Lembrando os

olhares imprecisos, mal treinados dos pistoleiros de quem tomara aqueles revólveres, achou que os dois cuidavam melhor das armas que

usavam do que das armas que eles próprios eram. Parecia um comportamento estranho, mas sem dúvida aquele era um mundo estranho e Roland não era capaz de julgar; não tinha tempo para julgar,

a verdade era essa.

O tiro foi bom, acertando a faca do homem na base da lâmina, dei-

xando apenas o cabo em sua mão.

Roland encarou calmamente o homem de jaqueta de couro e algo em

seu olhar deve ter feito o candidato a herói se lembrar de algum importante encontro marcado fora dali, pois o homem deu meia-volta, deixou cair o

resto da faca e somou-se ao êxodo geral.

Roland tornou a se virar para o alquimista e deu suas ordens. Uma agita-

ção a mais e o sangue iria correr. Quando o alquimista virou as costas, Roland

bateu-lhe no ombro ossudo com o cano do revólver. O homem deixou esca-par um som estrangulado — Mi!— e tornou de imediato a ficar de frente.

— Não você. Você fica aqui. Deixe seu aprendiz fazer isso.

— Q-Quem?

— Ele. — O pistoleiro gesticulou com impaciência para o ajudante. — O que devo fazer, Sr. Katz? — Os restos da acne adolescente do

balconista se destacavam intensamente no rosto branco.

— Faça o que ele está dizendo, sua anta! Pegue o remédio! Keflex! O balconista foi até uma das prateleiras atrás do balcão e pegou um vidro.

— Vire para que eu possa ver as palavras escritas aí — disse o pistoleiro. O rapaz obedeceu. Roland não conseguiu ler; muitas letras não fa-

ziam parte de seu alfabeto. Consultou o arquivo Mort. Keflex, Mort con-firmou, e Roland percebeu que aquela checagem fora uma estúpida perda de tempo. Roland sabia. que não podia ler tudo naquele mundo, mas aque-

les homens não.

— Quantas pílulas nesse frasco?

— Bem, na realidade são cápsulas — disse nervoso o balconista. —

Se está interessado em penicilina em forma de pílula comum, há...

— Esqueça isso. Quantas doses?

— Oh. Hum... — Agitado, o balconista leu o que estava no frasco

e quase o deixou cair. — Duzentas.

Roland teve a mesma emoção da loja de armas, ao descobrir

quanta munição podia ser comprada naquele mundo por uma soma trivial de dinheiro. Havia nove amostras grátis de Keflex no compartimento

secreto do armário do banheiro de Enrico Balazar, 36 doses ao todo e isso havia bastado para deixá-lo bem. Se não conseguisse liquidar a infecção com duzentos doses, nada iria acabar com ela.

— Me dê isso — disse o homem de terno azul.

O balconista passou-lhe o vidro.

O pistoleiro puxou a manga do paletó, revelando o Rolex de Jack Mort. — Não tenho dinheiro, mas isto pode ser uma compensação

adequada. Pelo menos é o que espero.

Ele se virou, inclinou a cabeça para o segurança, que continuava senta-

do no chão ao lado de seu banco derrubado e fitando o pistoleiro com olhos

arregalados. Depois saiu.

Simples assim.

Durante cinco segundos, o único ruído na drogaria foi o zumbido do alar-

me, suficientemente alto para abafar até mesmo o vozerio das pessoas na rua.

— Meu Deus do céu, Sr. Katz, o que fazemos agora? — sussurrou o

balconista.

Katz levantou o relógio e avaliou seu peso.

Ouro. Ouro maciço.

Não conseguia acreditar.

Tinha de acreditar.

Algum maluco que passava na rua tinha entrado lá, tirado o revólver

de seu segurança e uma faca da mão de outro homem, tudo para obter o mais improvável remédio que se poderia imaginar.

Keflex.

Talvez Keflex no valor de uns sessenta dólares.

E havia pagado com um Rolex no valor de 6.500 dólares. — Fazer? — perguntou Katz. — Fazer?'A primeira coisa que você vai

fazer é colocar esse relógio embaixo do balcão. Você nunca o viu. — Olhou para Ralph. — Nem você.

— Não senhor — concordou Ralph de imediato. — Desde que eu

ganhe minha parte quando ele for vendido, nunca vi esse relógio.

— Vão matar esse homem lá fora como se mata um cachorro —

disse Katz com inconfundível satisfação.

— Keflex! E o sujeito nem parecia estar fungando — disse o balconista

com ar de espanto.