A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três
Capítulo 16
As duas mulheres estavam frente a frente, corpos erguidos como serpentes prontas para o bote, dedos com impressões digitais idênticas agarrando gargantas marcadas com rugas idênticas.
A mulher estava tentando matá-la mas a mulher não era real, assim
como a menina não fora real; era um sonho criado por um tijolo caindo... mas agora o sonho era real, o sonho punha as garras em sua garganta e
tentava matá-la enquanto o pistoleiro tentava salvar seu amigo. O sonho-feito-realidade estava gritando obscenidades e fazendo chover cuspe quente em sua cara. "Peguei a travessa azul porque aquela mulher me abandonou
no hospital e além disso eu não tinha nenhuma travessa muito especial e eu a quebrei porque ela precisava ser quebrada e quando vi um garoto branco
que eu podia quebrar ora eu também o quebrei eu machuco os garotos brancos porque eles precisam ser machucados eu roubo das lojas que só vendem coisas que são muito especiais para gente branca enquanto os irmãos e irmãs passam
fome no Harlem e os ratos comem seus bebês, eu sou a única, sua puta, eu sou a única, eu... eu... eu!
Mate-a, pensou Odetta, e sabia que não podia. Não podia matar a megera e sobreviver, assim como a megera não
poderia matá-la e ir embora tranqüila. Podiam sufocar uma à outra até
a morte enquanto Eddie e o
{Roland)/{Homem Realmente Mau)
que tinha trazido as duas era comido vivo lá embaixo, na beira da
água. Mas isso acabaria com todos eles. Ou ela podia
{amar) / {odiar)
soltar.
Odetta soltou a garganta de Detta, ignorando as mãos febris da ou-
tra, que também queriam estrangulá-la, esmagar sua traquéia. Em vez de
usar as mãos para sufocar, Odetta usou-as para abraçar.
— Não, sua puta! — gritou Detta, mas foi um grito infinitamente
complexo, ao mesmo tempo raivoso e grato. — Não, me deixe em paz, só
me deixe em paz...
Odetta não tinha voz com que responder. Enquanto Roland chutava
a primeira lagostrosidade que atacava e a segunda se aproximava para
almoçar um pedaço do braço de Eddie, ela se limitava a sussurrar no ouvido da bruxa:
— Eu amo você.
Por um momento as mãos de Detta se apertaram num laço fatal... e
então afrouxaram.
Sumiram.
Ela estava sendo de novo virada pelo avesso... e então, de repente,
abençoadamente, estava inteira. Pela primeira vez desde que um homem chamado Jack Mort tinha jogado um tijolo na cabeça de uma criança. A
criança só estava ali para ser atacada porque um taxista branco, depois de dar uma olhada nos passageiros, se recusara a pegá-los (e porque o pai da criança, em seu orgulho, se recusara a chamar outro táxi com medo de
enfrentar uma segunda recusa). Ela estava inteira. Era Odetta Holmes, mas e a outra...?
Depressa, puta!, berrou Detta... mas era ainda sua própria voz; ela e
Detta tinham se fundido. Haviam sido uma; haviam sido duas; agora o
pistoleiro havia criado uma terceira. Depressa ou eles vão ser jantados!
Olhou para as balas. Não havia tempo de usá-las; quando acabasse de
carregar os revólveres tudo estaria perdido. Ela só podia torcer por um
milagre.
Ou será que poderia fazer mais alguma coisa?, perguntou a si mesma, e
sacou a arma.
E de repente suas mãos marrons se encheram de trovões.
17
Eddie viu uma das lagostrosidades aparecer na sua frente, olhos enrugados
imóveis, mas brilhando horrendamente de horrenda vida. As garras desciam
para seu rosto.
Ch..., começou ela, e então foi impelida para trás e feita em pedaços
e borrifos.
Roland viu uma criatura deslizar entre os golpes de sua mão esquerda
e pensou: aí vai a outra mão... Então, de repente, no escuro da noite, a
lagostrosidade se transformou num esvoaçar de lascas de carapaça e tripas
esverdeadas.