A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três

Stephen King · Capítulo 122 de 274

Páginas do PDF

A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três

boneco saltar ao contrário numa caixa de…

boneco saltar ao contrário numa caixa de surpresas. Eddie olhou para

Henry. Henry olhou para Eddie. Parece um anjo com alguns quilos a mais,

disse Henry em voz baixa, e então começaram a uivar de rir. Apoiaram-se

um no outro, bateram nas costas um do outro, Henry voltou a entrar e,

daí a umas duas semanas, Eddie também estava cheirando e já não conse-

guia entender por que diabo tinha armado tamanho rolo em torno daqui-

lo; afinal era só uma cheirada, merda, te deixava numa legal e, como Henry

(que Eddie começaria finalmente a rotular de sábio e eminente viciado)

dizia, num mundo que obviamente caía de cabeça no inferno, qual era o

problema de ficar meio doido?

O tempo passou. Eddie não disse quanto tempo. O pistoleiro não

perguntou. Achou que Eddie tinha percebido que havia mil desculpas

para ficar doidão, mas nenhuma decisiva, e que por isso tentara manter

seu vício estritamente sob controle. Também achava que no início Henry

devia ter conseguido manter o dele sob controle. Já não tão bem quanto

Eddie, mas num nível ainda capaz de impedi-lo de ficar completamente

desarticulado. E tivesse Eddie visto ou não a verdade (na profundidade

que Roland achava que era preciso ver), Henry certamente percebera uma

coisa: as posições dos dois tinham se invertido. Agora era Eddie quem

pegava a mão de Henry na hora de atravessar a rua.

Veio o dia em que Eddie pegou Henry não cheirando, mas espe-

tando uma coisa na veia. Houve outra discussão histérica, uma repeti-

ção quase exata da primeira, com a única diferença de ter sido no quarto

de Henry. Acabou quase exatamente da mesma maneira, com Henry

chorando e repetindo aquela implacável, inatacável defesa de quem ad-

mitia extrema rendição e fazia extrema admissão de culpa: Eddie estava

certo, ele era um desajustado na vida, não merecia nem comer o lixo da

sarjeta. Iria embora. Eddie jamais teria de vê-lo outra vez. Só esperava

que não esquecesse todas as...

E a coisa foi virando um sussurro monótono não muito diferente do

som pedregoso das ondas quebrando e entrando na praia. Roland já conhecia a história e ficou calado. Era Eddie quem não conhecia a história, o mesmo Eddie que, naquele momento, pela primeira vez em

dez anos ou mais, estava vendo tudo com mais clareza. Eddie não estava contando a história para Roland; Eddie estava finalmente contando a história para si mesmo.Era ótimo que fosse assim. Pelo que o

pistoleiro podia entender, tempo era algo que eles tinham de sobra. Conversar era um meio de preenchê-lo.

Eddie disse que vivera perseguido pelo joelho do Henry, pela cicatriz

que repuxava de cima a baixo o tecido da perna (sem dúvida já curada de todo, Henry praticamente nem mancava... a não ser quando discutia com Eddie; aí a coisa parecia sempre ter piorado). Eddie viveu perseguido por

todas as coisas de que Henry tinha desistido por causa dele e perseguido por algo ainda mais pragmático: Henry não sobreviveria um segundo na rua. Seria como um coelho solto numa selva repleta de tigres. Sem nin-

guém para olhar por ele, Henry acabaria na cadeia ou numa clínica em menos de uma semana.

Então, naquela segunda briga, Eddie implorou para que o irmão ficasse

e Henry finalmente consentiu em continuar rondando por ali. Seis meses depois, Eddie também já havia começado a se picar. Desse momento em

diante, as coisas tinham começado a se mover na firme e inevitável espiral descendente que levara à viagem para as Bahamas e à súbita irrupção de Roland na vida de Eddie.

Outro homem, menos pragmático e mais introspectivo que Roland,

poderia ter perguntado (para si mesmo, se não em voz alta): Por que ele?

Por que exatamente esse homem? Por que alguém que só parece revelar fraque-za, esquisitice ou completo fracasso?

O pistoleiro nunca fez a pergunta; na realidade, jamais chegou a

formulá-la sequer mentalmente. Cuthbert teria perguntado; Cuthbert teria questionado tudo. Cuthbert se envenenara de perguntas, morrera com uma na boca; agora elas tinham cessado, todas. Os últimos pistoleiros

de Cort, os 13 sobreviventes de uma turma que se iniciara com 56, esta-vam todos mortos. Todos com exceção de Roland. Ele era o último pistoleiro, avançando decidido num mundo que ficara caduco, estéril e

vazio.

Treze, lembrava-se do comentário de Cort na véspera das Cerimônias

de Conclusão. Esse é um número mau. E no dia seguinte, pela primeira vez

em trinta anos, Cort não estivera presente às Cerimônias. Então sua última safra de alunos foi até seu chalé para se ajoelhar a seus pés, curvar os pescoços num gesto indefeso, se levantar, receber o beijo de

congratulações, ver Cort pôr a primeira munição em seus revólveres. Nove semanas depois, Cort estava morto. Envenenado, disseram alguns. Dois anos após a morte dele, a derradeira e sangrenta guerra civil havia

começado. A carnificina alcançara o último bastião da civilização, da luz, da sanidade, liquidando, com a distraída facilidade de uma onda que leva o

castelo de areia de uma criança, tudo que as pessoas julgavam haver de mais sólido.Assim ele passou a ser o último pistoleiro e talvez tenha sobrevivido pelo fato de o romantismo sombrio ter se misturado em seu

temperamento ao espírito prático e à simplicidade. Compreendia de fato que só três coisas tinham importância: a mortalidade, o ka e a Torre.

O que já era mais que suficiente para alimentar o pensamento.

Eddie terminou a história por volta das quatro da tarde, no terceiro

dia da jornada dos dois para o norte, subindo a praia desolada. A praia em si nunca parecia mudar. Para notar algum sinal de avanço era preciso

olhar para a esquerda, para o leste. Ali os picos denteados das monta-nhas começavam a ficar um pouco mais rasos e suaves. Talvez, se conti-nuassem seguindo para o norte, as montanhas se transformassem em

meras colinas.

Com sua história contada, Eddie caiu no silêncio e assim os dois

andaram por meia hora ou mais. De vez em quando Eddie olhava de

relance para o outro. Roland sabia que Eddie não tinha consciência de estar fazendo isso; ele continuava fechado demais em si mesmo. Roland tam-

bém sabia o que Eddie estava esperando: uma reação. Algum tipo de rea-ção. Qualquer tipo. Duas vezes Eddie abriu a boca, mas logo voltou a fechá-la. Finalmente perguntou aquilo que o pistoleiro sabia que ia

perguntar.

— Então? O que acha?

— Acho que você continua aí.

Eddie parou, plantando as mãos fechadas na cintura.

— Só isso? Mais nadai

— É o que posso dizer — o pistoleiro respondeu. Os dedos perdidos

da mão e do pé latejavam e coçavam. Lamentou não ter nenhuma asmina do mundo de Eddie.

— Não tem qualquer opinião sobre o que essa porra toda significa?