A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três

Stephen King · Capítulo 8 de 274

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A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três

Pôs as balas realmente duvidosas em outra pilha.

Ainda tinha a bolsa. Uma coisa positiva. Colocou-a no colo e lenta-

mente desmontou os revólveres e executou o ritual de limpeza. Quando

acabou, duas horas haviam se passado e a dor era tão intensa que dava

vertigens; o pensamento consciente se tornara difícil. Ele queria dormir.

Nunca na vida quisera tanto fazer isso. Mas no exercício do dever nunca

havia qualquer razão aceitável para ceder a fraquezas.

— Frase de Cort — disse ele numa voz que foi incapaz de reconhe-

cer, e riu secamente.

Devagar, bem devagar, foi montando os revólveres e carregando-os

com as balas que presumia estarem secas. Quando o trabalho foi con-

cluído, pegou o revólver que estava ao alcance da mão esquerda, engati-

lhou-o ... e lentamente tornou a baixar o cão da arma. Queria saber, sim.

Queria saber se haveria uma detonação satisfatória quando apertasse o

gatilho ou apenas um daqueles cliques inúteis. Mas um clique não signifi-

caria nada, e uma detonação só reduziria vinte balas utilizáveis a 19... ou

nove... ou três... ou nenhuma.

Rasgou outro pedaço da camisa, pegou as outras balas — as que ha-

viam sido molhadas — e as amarrou no pedaço de pano usando a mão

esquerda e os dentes. Colocou-as na bolsa.

Durma, seu corpo exigia. Durma, você precisa dormir agora, antes do

anoitecer, não falta fazer nada, você está esgotado...

Pôs-se de pé tropegamente e olhou de cima a baixo a praia deserta.

Era da cor de uma roupa branca que tivesse ficado um longo tempo sem

lavar, coberta de conchas do mar descoradas. Aqui e ali grandes pedras se

projetavam da areia grossa, e as pedras estavam cobertas de guano cujas

camadas mais antigas lembravam o amarelo de dentes velhos, e as mais

novas eram borrões esbranquiçados.

A linha da maré alta estava marcada com algas que começavam a

ressecar. Perto dessa linha ele viu pedaços de sua bota direita e os cantis.

Achou que era quase um milagre que os cantis não tivessem sido levados

para o mar pela forte arrebentação. Caminhando devagar, mancando

muito, o pistoleiro andou até lá. Pegou um dos cantis e o sacudiu perto do

ouvido; ainda tinha um pouco de água. O outro estava vazio. A maioria das

pessoas não seria capaz de notar a diferença entre os dois, mas o

pistoleiro conhecia cada um tão bem quanto uma mãe reconhece cada um

de seus gêmeos idênticos. Estava viajando com aqueles cantis há muito,

muito tempo. A água se sacudindo dentro de um deles era bom - uma

dádiva. A criatura que o atacara ou qualquer uma das outras podia ter

rasgado os cantis com uma simples mordida ou movimento de garra, mas

nenhuma delas o fizera. E a maré também poupara os cantis. Aliás, da

criatura que ele matara já não havia qualquer sinal, embora os dois

houvessem se atracado bem acima da linha da maré. Talvez outros

predadores a tivessem levado; talvez sua própria espécie tivesse lhe dado

um enterro no mar, assim como os elafauntes, criaturas gigantes de que

ouvira falar nas histórias infantis, costumavam enterrar seus mortos.

Ergueu o cantil com o cotovelo esquerdo, bebeu em goles profundos

e sentiu alguma energia retornando. A bota direita estava, é claro, destro-

çada... mas ele sentiu uma centelha de esperança. A sola permanecia intacta

— muito arranhada, mas intacta — e talvez fosse possível cortar a outra bota para as duas combinarem, fazendo algo que duraria pelo menos um

certo tempo...

A fraqueza foi tomando conta dele. Tentou resistir, mas seus joelhos

oscilaram e ele teve de sentar, mordendo estupidamente a língua.

Não vá cair inconsciente, disse severamente para si mesmo. Não aqui,

não onde outra daquelas coisas pode voltar à noite para acabar o trabalho.

Então ficou de pé e amarrou o cantil vazio na cintura, mas só conse-

guiu andar vinte metros na direção do lugar onde deixara os revólveres e a bolsa. Caiu outra vez, semidesmaiado. Ficou deitado um pouco ali, um

lado do rosto apertado contra a areia, a ponta de uma concha machucan-do a ponta do queixo quase a ponto de tirar sangue. Conseguiu beber do cantil e depois rastejou para o lugar onde havia despertado. Havia uma

iúca vinte metros encosta acima — era mirrada, mas ofereceria pelo me-nos um pouco de sombra.

Para Roland, os vinte metros foram como vinte quilômetros.

Mesmo assim, ele empurrou penosamente o que sobrava de suas pos-

ses para aquela pequena poça de sombra. Ficou lá deitado com a cabeça na grama, já fraquejando no que poderia ser sono, inconsciência ou morte.

Deu uma olhada no céu e tentou ter noção das horas. Não era exatamente meio-dia, mas o tamanho da poça de sombra em que estava se deitando