A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três
— Sinto muito, Sra. Holmes.
— Não — disse ela, esfregando novamente as têmporas. — Quem
sente sou eu. Foram três dias difíceis, Andrew.
— Não duvido — disse ele num tom chocado de solteirona que a
fez rir, mesmo a contragosto. Mas a maior parte dela não estava rindo.
Achava que tinha percebido no que estava se metendo, achava que tinha
previsto adequadamente como seria desagradável. Estava errada.
Três dias difíceis. Bem, era pelo menos um modo de expor o assun-
to. Outro modo seria dizer que os três dias passados em Oxford, no
Mississipi, haviam sido uma curta temporada no inferno. Mas certas
coisas não podiam ser ditas. Coisas que a pessoa preferiria morrer a di-
zer... a não ser que a intimassem a depor diante do Trono de Deus, Pai
Todo-Poderoso, onde mesmo as verdades que causavam as infernais tem-
pestades naquela estranha geléia cinzenta entre suas orelhas tinham de
ser admitidas (os cientistas diziam que a geléia cinzenta não tinha ner-
vos, mas se isso fosse verdade ela não entendia como toda a sensibilidade
era irradiada para lá).
— Só quero chegar em casa, depois banho, banho, banho, depois
dormir, dormir, dormir. Depois acho que fico novinha em folha.
Sim, claro! É assim que a senhora vai ficar! — Andrew queria se
desculpar por alguma coisa e aquilo foi o mais perto a que ele pôde chegar.
Mas sem dúvida ele não quis se arriscar a mais conversa e os dois rodaram,
num silêncio inabitual, até o cinzento edifício vitoriano na esquina da
Quinta Avenida com o Central Park South, um prédio cinza bastante
exclusivo. Odetta acreditava que isso a tornava um verdadeiro sucesso,
mas sabia que havia gente naqueles apartamentos chiques que só lhe
dirigiriam a palavra se fosse absolutamente indispensável. No fundo, no
entanto, ela não se importava. Estava de fato acima deles e eles sabiam
disso. Já havia lhe ocorrido, em mais de uma ocasião, que algumas pessoas
deviam ficar tremendamente irritadas sabendo que havia uma negra
morando na cobertura daquele ótimo, sóbrio e antigo prédio, onde
antigamente as únicas mãos negras autorizadas a circular tinham de usar
luvas brancas ou talvez as finas luvas de couro preto de um chofer. Ela
esperava que isso de fato os irritasse tremendamente, mas também se
repreendia por ser tão mesquinha, por ser anticristã, mas realmente queria
isso, não fora capaz de deter a urina vazando entre as pernas de sua fina
calcinha de seda importada e também não parecia ser capaz de deter
aquele outro fluxo de sentimentos. Era mesquinho, era anticristão e quase
tão mau quanto Oxford - não, pior. Pelo menos no que dizia respeito ao
Movimento era totalmente contraproducente. Eles iriam garantir os direitos
que precisavam garantir, e provavelmente naquele ano: Johnson, ciente do
legado que lhe fora deixado pelo presidente morto (e talvez esperando pôr
mais um prego no caixão de Barry Goldwater), faria mais do que
supervisionar a aprovação da Carta de Direitos Civis; se fosse preciso, iria
cravá-la em lei. Por isso era importante minimizar a mágoa e a cicatriz.
Havia mais trabalho a ser feito. A raiva não iria ajudar a fazer esse trabalho
. A raiva iria, de fato, sabotá-lo.
Mas às vezes, e apesar de tudo, a raiva continuava.
Oxford Town também lhe ensinara isso.
Detta Walker não tinha o menor interesse no Movimento e suas preocupações eram bem mais modestas. Ela morava no sótão de um
descascado prédio de apartamentos em Greenwich Village. Odetta não
conhecia o sótão, Detta não conhecia a cobertura e a única pessoa a suspeitar que algo não estava de todo certo era Andrew Feeny, o
motorista. Ele começara a trabalhar para o pai de Odetta quando ela
tinha 14 anos e Detta Walker mal havia nascido.
Às vezes Odetta desaparecia. Esses desaparecimentos podiam levar
horas ou dias. No verão anterior ela ficara três semanas sumida e, num
final de tarde, quando Andrew já estava à beira de chamar a polícia,
Odetta ligara para ele, pedindo que estivesse disponível com o carro às
dez do dia seguinte — pretendia fazer umas compras.
Os lábios dele tinham tremido com vontade de gritar: Sra. Holmes! Onde esteve? Mas já fizera essa pergunta antes e só recebera como
resposta olhares confusos - olhares realmente confusos, tinha certeza. Eu estava aqui, ela diria. Ora, aqui mesmo, Andrew... Então você não tem me levado a dois ou três lugares por dia? Não está começando a
ficar um pouco mole da cabeça, está?' Aí ela ria e se estivesse se sentindo especialmente bem (como freqüentemente parecia ficar se sentindo após os desaparecimentos), daria uma beliscada no rosto
dele.— Muito bem, Sra. Holmes — ele tinha dito. — Às dez então. Dando por encerrado o alarmante período de três semanas durante o qual
ela ficara ausente, Andrew pôs o telefone no gancho, fechou os olhos e fez uma rápida prece à Virgem Maria pelo feliz retorno da Sra. Holmes. Depois ligou para Howard, o porteiro do prédio.
— A que horas ela chegou?
— Uns vinte minutos atrás — disse Howard.
— Quem a trouxe?
— Não sei. Você sabe como é. Sempre um carro diferente. Às vezes
estacionam depois da esquina e não consigo ver nada, nem sei se é ela
mesma quem está no banco de trás. De repente escuto o interfone, dou
uma olhada e vejo que é. — Howard fez uma pausa, depois acrescentou:
— Ela está com um tremendo roxo num lado do rosto.
Howard tinha razão. Sem dúvida era um tremendo roxo e agora esta-
va piorando. Andrew nem gostava de imaginar que aparência teria aquele
roxo logo depois de feito. A Sra. Holmes compareceu pontualmente às
dez horas da manhã seguinte. Usava uma saia de seda de listras finas como
espaguete (isto acontecera no final de julho) e o ferimento já começara a
ficar amarelo. Não fizera mais que um esforço superficial para disfarçá-lo
com maquiagem, como se achasse que deixar transparecer um cuidado
excessivo para cobri-lo só chamaria mais atenção.
— Como fez isso, Sra. Holmes? — perguntou Andrew.
Ela riu com ar alegre.
— Você me conhece, Andrew... sempre descuidada. Ontem, quando
eu estava saindo da banheira, minha mão escorregou num corrimão... Estava apressada para pegar o jornal na tevê. Caí e bati com o lado do rosto. — E Odetta examinou o rosto dele. — Está pronto para começar
a falar de médicos e exames, não está? Não precisa nem perguntar; depois de todos esses anos leio as coisas no seu rosto como num livro. Não vou
ao médico, por isso não precisa se dar ao trabalho de perguntar. Na rea-lidade nunca me senti tão bem. Vamos lá, Andrew! Pretendo comprar metade da Saks', toda a Gimbels e, entre as duas, comer tudo que tiver no
Four Seasons.