A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três

Stephen King · Capítulo 3 de 274

Páginas do PDF

A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três

Ele sacou com a mão direita e…

Ele sacou com a mão direita e só percebeu que os dois dedos

necessários para executar a antiga operação de extermínio tinham

sumido quando o revólver bateu na areia.

A monstruosidade investiu ansiosa em sua direção. — Não, desgraçada! — rosnou Roland ao chutá-la. Foi como

chutar um bloco de rocha... que mordia. Ela acabou de despedaçar a bota direita de Roland, arrancou a maior parte de seu dedão do pé e acabou arrancando a própria bota.

O pistoleiro se curvou, pegou o revólver, deixou-o cair, disse

um palavrão, mas finalmente conseguiu. O que antes havia sido

uma coisa tão fácil, que ele fazia sem pensar, de repente se transformara quase num movimento de malabarista.

A criatura estava agachada sobre a bota do pistoleiro, rasgando-

a sem parar de fazer perguntas naquela língua truncada. Uma onda

rolou para a praia, a espuma equilibrada na crista parecendo pálida e morta na fraca luminosidade da meia-lua. A lagostrosidade parou de trabalhar na bota e levantou as garras

naquela pose de boxeador.

Roland sacou com a mão esquerda e puxou três vezes o gatilho.

Clique, clique, clique.

Pelo menos agora sabia do estado das balas no tambor. Pôs o revólver esquerdo no coldre. Para guardar o direito

teria de virar o cano para baixo com a mão esquerda e deixá-lo escorregar para o lugar certo. O sangue cobria a madeira gasta das coronhas; o sangue manchava o coldre e o velho jeans ao qual o

coldre estava preso por tiras de couro. Escorria dos cotos onde seus dedos costumavam ficar.

O mutilado pé direito continuava dormente demais para doer,

mas a mão direita ardia terrivelmente. Os fantasmas dos dedos talentosos e longamente treinados, já se decompondo entre os sucos digestivos

nas entranhas daquela coisa, insistiam que ainda estavam ali, e que estavam ardendo.

Vejo sérios problemas à frente, pensou o pistoleiro

remotamente.

A onda recuou. A monstruosidade baixou as garras, abriu um

novo buraco na bota do pistoleiro e concluiu que o dono devia ser

bem mais saboroso que aquele pedaço de pele que acabara cuspindo.

"Chum?", a coisa perguntou e se lançou para cima dele com

terrível velocidade. O pistoleiro recuou sobre pernas que mal podia sentir, percebendo que a criatura devia ter alguma inteligência; havia se aproximado cautelosa, talvez numa longa jornada pela praia, sem

saber o que ele era ou do que poderia ser capaz. Se o banho que a onda lhe deu não o tivesse acordado, a coisa teria despedaçado seu rosto enquanto ainda estivesse mergulhado em sonhos. Agora a

coisa concluía que ele era não apenas saboroso, mas também vulnerável; uma presa fácil.

Ela estava quase em cima dele, uma coisa de mais de um

metro de comprimento e trinta centímetros de altura, uma criatura

que talvez pesasse trinta quilos e que parecia tão estritamente carnívora quanto David, o falcão que Roland tinha quando garoto

— mas sem o obscuro vestígio de lealdade que havia em David.

O salto da bota esquerda tropeçou num pedregulho que

brotava da areia e ele cambaleou, quase caindo.

"Choc?", perguntou a coisa, aparentemente num tom ansioso,

espreitando o pistoleiro com olhos furtivos, ondulantes, enquanto as garras se estendiam... e então veio uma onda e as garras

assumiram de novo a Posição de Honra. As garras, no entanto, agora oscilavam um pouco; o pistoleiro percebeu que a coisa reagia ao barulho da onda e achou que agora, pelo menos para ela, o

barulho estava diminuindo um pouco.

Ele recuou pulando a pedra e se curvou quando a onda

quebrou na praia com seu barulho áspero. Sua cabeça ficou a centímetros da cara de inseto da criatura. Uma de suas garras poderia facilmente lhe arrancar os olhos, mas aquelas garras

trêmulas, tão parecidas com punhos cerrados, permaneceram erguidas de ambos os lados do bico semelhante ao de um papagaio.

O pistoleiro estendeu a mão para o pedregulho onde quase

tropeçara. Era realmente grande, estava semi-enterrado na areia e sua mutilada mão direita protestou bastante quando os grãos de areia e as pontas afiadas do chão pedregoso atingiram a carne aberta,

sangrando. Mas ele conseguiu puxar o pedregulho e levantá-lo, com os lábios se repuxando contra os dentes.

"Chh... ", começou a monstruosidade, com as garras se

abaixando e se abrindo enquanto a onda quebrava e o som recuava. Então o pistoleiro, com toda a sua força, atirou a pedra em cima dela.

Houve um ruído de algo se esmigalhando quando as costas

articuladas da criatura se quebraram. Ela se debateu freneticamente embaixo da pedra, com o traseiro se erguendo

ligeiramente e batendo no chão, se erguendo e batendo. As interrogações viraram um zumbido de exclamações de dor. As

garras se abriam e fechavam em torno de nada. O bico-goela agarrava torrões de areia e pedras.

E no entanto, quando outra onda quebrou, a criatura tentou de

novo levantar as garras e, quando conseguiu, o pistoleiro pisou em sua cabeça com a bota que havia sobrado. O barulho lembrou um monte de galhinhos secos sendo quebrados. Um líquido grosso jorrou sob

o salto da bota de Roland, esparramando-se em duas direções. Parecia preto. A coisa arqueou o corpo e se contorceu furiosamente. O pistoleiro chapou a bota com mais força.

Uma onda veio.

As garras da monstruosidade subiram um centímetro... dois...

estremeceram e depois caíram, agora se crispando num abrir e

fechar.

O pistoleiro levantou a bota. O bico serrilhado da coisa,

que tinha removido dois dedos da mão e um do pé de seu corpo

vivo, abria e fechava devagar. Uma antena jazia quebrada na

areia. A outra tremia descontroladamente.

O pistoleiro pisou de novo. E de novo.

Removeu o pedregulho com dificuldade, deixando escapar um

gemido, e marchou pelo lado direito do corpo da monstruosidade, pisando-a metodicamente com a bota esquerda, esmagando sua

carapaça, espremendo as tripas esbranquiçadas sobre a areia cinza-escura. Estava morta, mas mesmo assim ele quis levar até o fim aquela tarefa; nunca, em todo o seu longo e estranho tempo de

vida, tinha sido tão drasticamente ferido, e tudo fora tão inesperado.

Continuou até ver a ponta de um de seus dedos na gosma

suja da coisa morta, um dedo que tinha debaixo da unha a poeira branca do gólgota onde ele e o homem de preto haviam travado

sua longa confabulação. Então se virou para o lado e vomitou.

O pistoleiro recuou para a água como um embriagado,

apertando a mão ferida contra a camisa, às vezes olhando para trás,

para certificar-se de que a coisa não estava mais viva, que não era como uma vespa obstinada em que você bate e bate mas ela continua se mexendo, atordoada mas não morta; para certificar-se

que a coisa não estava vindo atrás dele, fazendo suas estranhas perguntas naquele tom de desespero mortal.