A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três
— Você parece um disco arranhado! —…
— Você parece um disco arranhado! — Pela primeira vez ele parecia
genuinamente irritado. — Cada vez que alguém abre um buraco em sua
bela historinha, você se retira para a merda do tal "nada disso está acontecendo". Tem de ficar mais esperta, Detta.
— Não me chame assim! Detesto isso!— ela gritou de modo tão áspero
que Eddie chegou a se encolher.
— Desculpe. Meu Deus! Eu não imaginava...
— Passei da noite para o dia, de estar sem roupa para estar vestida, de
minha sala de estar para esta praia deserta. E o que realmente houve foi que algum caipira racista e barrigudo me acertou na cabeça com um cace-
te. Foi isso que aconteceu!
— Mas suas lembranças não param em Oxford — disse ele
suavemente.
— C-como? — De novo a dúvida. Ver a coisa e não querer aceitar.
Como no caso dos anéis.
— Se você foi atacada em Oxford, como suas memórias não param lá?
— Coisas como essa nem sempre têm muita lógica. — Estava
esfregando novamente as têmporas. — E agora, se não fizer diferença para você, Eddie, gostaria de encerrar a conversa. Minha dor de cabeça
voltou. E está muito forte.
— Acho que a dose de lógica que existe em tudo depende do que
você quer acreditar. Eu a vi na Macy's, Odetta. Eu a vi roubando. Você
diz que não faz esse tipo de coisa, mas também me disse que não usava nenhuma jóia. Me disse isso baixando várias vezes os olhos para as mãos. Os anéis estavam lá, mas era como se você não conseguisse vê-los até eu cha
mar sua atenção, até obrigá-la a reconhecê-los.
— Não quero falar nisso! — gritou ela. — Minha cabeça está doendo!
— Tudo bem. Mas sabe onde parou de ter consciência do tempo, e
não foi em Oxford.
— Me deixe em paz — disse ela sombriamente.
Eddie viu o pistoleiro se aproximando devagar com dois cantis cheios
d'água, um amarrado na cintura e outro pendurado nos ombros. Parecia
muito cansado.
— Gostaria de poder ajudá-la — disse Eddie —, mas para fazer
isso, acho que eu teria de ser real.
Continuou um instante a seu lado, Odetta de cabeça baixa, massageando sem parar a testa com as pontas dos dedos. Eddie foi ao
encontro de Roland.
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— Sente-se. — Eddie pegou os cantis. — Você parece arrasado.
— E estou. Estou ficando doente de novo.
Eddie olhou para o rosto e a testa vermelhos do pistoleiro, para seus
lábios rachados, e balançou a cabeça.
— Torci para isso não acontecer, mas não estou muito surpreso, cara.
Você não completou o ciclo do remédio. O Keflex de Balazar foi pouco.
— Não estou entendendo.
— Se a pessoa não toma uma droga à base de penicilina pelo tempo necessário, a infecção não acaba. Fica apenas latente. E volta alguns dias depois. Vamos precisar de mais medicamento, mas pelo menos temos uma
porta. Enquanto isso, terá de levar a coisa da melhor maneira possível. — Enquanto falava, Eddie pensava com tristeza na perda das pernas de Odetta e nas viagens cada vez mais longas que tinham de fazer para encontrar água.
E se perguntava se Roland não podia ter escolhido um momento pior para ter uma recaída (achava que era possível, só não sabia como).
— Tenho de lhe dizer uma coisa sobre Odetta.
— E o nome dela.
— Hã-hã.
— Muito bonito — disse o pistoleiro.
— É. Também acho. O que não é tão bonito é o modo como ela
encara este lugar. Não acha que esteja aqui.
— Eu sei. E não gosta muito de mim, não é?
Não, pensou Eddie, mesmo que o encare como mero fantasma de uma
alucinação. Ele não disse isso, só sacudiu a cabeça.
— As razões são quase as mesmas — continuou o pistoleiro. — Ela
não é a mulher
que eu trouxe para cá, percebe? Absolutamente não é.
Eddie olhou-o fixamente, depois sacudiu a cabeça, agitado. Aquele
reflexo borrado no espelho... aquela face contorcida... o homem tinha
razão. Meu Deus, é claro que tinha! Não era absolutamente Odetta.