A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três
— Acho que sim — disse Roland.…
— Acho que sim — disse Roland. Lembrava-se do modo como Eddie
se levantara atrás da mesa, indiferente ao risco, e teve um momento de
dúvida sobre o que fazer com ele.
Mas só um momento.
— E então? Pedro paga a Paulo. Uma mão lava a outra. Só quero dar
um passeio por algumas horas. Comer um frango assado, talvez comprar um pacote de rosquinhas. — Eddie inclinou a cabeça para a porta, onde as
coisas tinham começado de novo a se mexer. — Então, o que me diz?
— Não — falou o pistoleiro, embora naquele instante não estivesse
pensando muito em Eddie. O movimento corredor acima... Bem, aquela
Dama, quem quer que ela fosse, não estava se movendo do modo como uma pessoa comum se moveria... Não estava se movendo, por exemplo, do modo como o próprio Roland se movia ou do modo como Eddie se
movia quando Roland olhava através dos olhos dele (percebia isso agora, quando tinha parado para pensar no assunto, o que jamais fizera antes, assim como jamais parará para pensar nem nunca realmente notara a
presença de seu nariz no limite inferior de sua visão periférica). Quando a pessoa andava, a visão se tornava um suave pêndulo: perna esquerda, perna direita, perna esquerda, perna direita, o mundo
balançando de um lado para o outro, tão sutil e suavemente que após algum tempo — talvez logo após se começar a andar — a pessoa simplesmente ignorava o movimento. Nada havia desse movimento de
pêndulo no caminhar da Dama... Ela simplesmente avançava maciamente pelo corredor, como se deslizasse sobre trilhos. Ironicamente, Eddie tivera a mesma percepção... só que para
ele a coisa parecia como um movimento de carrinho no cinema. Achara a sensação agradável, porque já lhe era familiar.
Para Roland era estranha... mas logo Eddie quebrava o silêncio, a voz
aguda.
— Bem, por que não? Simplesmente me diga por que porra não? — Porque você não quer um frango assado — disse o pistoleiro. —
Sei como chama as coisas que quer, Eddie. Você quer um "pico". Você
quer "viajar".
E daí? — gritou Eddie, quase se esgoelando. — E daí se quero? Eu disse
que voltaria com você! Tem minha palavra! Tem a porra da minha
palavra de HONRA! O que mais você quer? Quer que eu jure em nome
da minha mãe? Tudo bem, juro pela minha mãe morta! Quer que eu
jure em nome do meu irmão Henry? Tudo bem, eu juro! Eu juro! EU
JURO!
Enrico Balazar teria lhe dito, mas o pistoleiro não precisava que tipos
como Balazar lembrassem uma realidade tão simples da vida: jamais con-
fie num viciado.
Roland moveu a cabeça para a porta.
— Pelo menos até chegarmos à Torre — disse —, essa parte de sua
vida está encerrada. O que vai acontecer depois não me importa. Depois
você terá a liberdade de ir para o inferno como muito bem entender. Até
lá eu preciso de você.
— Ah, seu mentiroso fodido de merda — disse Eddie em voz baixa.
A emoção não transparecia em sua voz, mas o pistoleiro viu um brilho de
lágrimas em seus olhos. Não disse nada e Eddie continuou: — Você sabe
que não vai haver nenhum depois, nem para mim, nem para ela, nem
para aquela terceira pessoa escolhida, seja quem for. Provavelmente
nem para você... porque você parece tão fodidamente arrasado como
Henry em seus piores momentos. Se não morrermos a caminho de sua
Torre, vamos sem dúvida nenhuma morrer quando chegarmos lá. Por
que está me escondendo isso?
O pistoleiro experimentou um deprimente sentimento de vergonha,
mas limitou-se a repetir:
— Ao menos por ora, essa parte de sua vida está encerrada.
— Sério? — disse Eddie. — Bem, tenho umas notícias para você,
Roland. Sei o que vai acontecer a seu verdadeiro corpo quando
atravessar para lá e entrar no corpo dela. Sei porque já vi antes. Não
preciso de seus revólveres. Eu estou segurando você pelo saco, meu
amigo. Vire a cabeça dela do modo como virava a minha e fique
observando o que vou
fazer com seu corpo enquanto você for apenas seu maldito ka. E quando
a noite cair, vou arrastá-lo para a beira da água. Aí vai poder observar as
lagostas mastigarem o resto de você. Procure arranjar um tempinho para
assistir.
Eddie fez uma pausa. O áspero quebrar das ondas e o contínuo e
cavernoso murmúrio do vento pareciam muito altos.