A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três
Mas Henry nunca o chamou disso na…
Mas Henry nunca o chamou disso na cara, pensou Eddie. Não, claro que
não. Chamar Jack de alguma coisa na cara dele seria um maravilhoso meio
de conseguir morrer. Era um sujeito enorme, com a testa projetada de um
homem das cavernas e um maxilar saliente combinando com ela. Era paren-
te de Enrico Balazar por casamento... uma sobrinha, uma prima, uma porra
qualquer. As mãos gigantescas aderiam ao volante da van de entregas como
as mãos de um macaco agarradas num galho. Grossos tufos de cabelo lhe
saíam das orelhas. Eddie agora só podia ver uma daquelas orelhas, pois Jack
Andolini permanecia de perfil, sem nunca olhar para o lado.
O Duplo-horror. Mas nem mesmo Henry (que, Eddie tinha de ad-
mitir, nem sempre era o cara mais perceptivo do mundo) jamais cometeu
o erro de chamá-lo de Dupla-estupidez. Colin Vincent não era mais que
um prestigiado menino de recados. Jack, contudo, tinha suficientes
neurônios atrás da testa de Neanderthal para ser o capanga número um
de Balazar. Eddie não gostou do fato de Balazar ter enviado um homem de
tamanha importância. Não gostou nada mesmo.
— Oi, Eddie — disse Col. — Soube que teve um problema.
— Nada que eu não pudesse superar — disse Eddie. Percebeu que estava
coçando um braço depois do outro, um dos típicos movimentos de viciado
que tentou tão arduamente controlar enquanto esteve detido. Fez força para
parar. Mas Col estava sorrindo e Eddie sentiu uma enorme vontade de chapar
um punho até o fundo daquele sorriso (e saindo pelo outro lado). Talvez
tivesse mesmo feito isso... se Jack não estivesse lá. Jack continuava com os olhos fixos à frente. Parecia ruminar pensamentos rudimentares enquanto
observava o mundo sob uma simplicidade de cores primárias e movimentos
elementares, que era tudo que um homem com seu intelecto (assim a pessoa
pensaria, olhando para ele) poderia perceber. Eddie, no entanto, achava que
Jack via mais num único dia que Col Vincent em toda a sua vida.
— Bom — disse Col. — Que bom.
Silêncio. Col olhava para Eddie, sorrindo, esperando que Eddie re-
começasse a Dança da Fissura, coçando, se apoiando ora num pé, ora no
outro, como um garoto que precisasse ir ao banheiro. Col esperava que
Eddie perguntasse o que estava acontecendo e se, por acaso, não tinham
alguma coisinha para ele tomar.