A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três
Ele pegou a carteira, abriu-a e, incrivelmente,…
Ele pegou a carteira, abriu-a e, incrivelmente, pôs quatro notas de
vinte dólares no vidro do balcão. Depois enfiou a carteira no bolso.
— Pela munição — disse Roland. — Tirei as balas de seu revólver.
Pretendo jogá-las fora quando deixar a loja. Acho que, com um revólver
descarregado e sem carteira, aqueles dois vão achar difícil acusá-lo de algum
crime.
Johnny Gordo engoliu em seco. Foi uma das poucas vezes na vida
em que ficou sem fala.
— Agora me diga onde posso encontrar uma... — pausa — ...
drogaria?
Johnny Gordo compreendeu — ou achou que tinha compreendido
— tudo. O sujeito era um tremendo viciado, é claro. Era essa a explicação.
Não era de admirar que fosse tão estranho. Provavelmente estava drogado
até a raiz dos cabelos.
— Há uma farmácia na esquina. A meia quadra daqui. Rua 49.
— Se estiver mentindo, vou voltar e pôr uma bala no seu cérebro. — Não estou mentindo! — gritou Johnny Gordo. — Juro diante de
Deus-Pai! Juro diante de todos os Santos! Juro por minha mãe...
Mas a porta já estava batendo. Johnny Gordo ficou um instante em
absoluto silêncio, incapaz de acreditar que o maluco fora embora.
Então contornou o balcão o mais depressa que pôde e foi até a porta.
Ficou de costas para ela e tateou até conseguir agarrar e virar a maçaneta.
Tateou mais um pouco até conseguir fechar também o ferrolho.
Só então se permitiu escorregar lentamente para uma posição senta-
da, arfando, gemendo e jurando em nome de Deus e de todos os Seus
santos e anjos que iria a uma igreja, a de Santo Antônio, naquela mesma
tarde, assim que um daqueles porcos acordasse e o tirasse das algemas. Iria
se confessar, fazer sua penitência e comungar.
Johnny Gordo Holden queria acertar os ponteiros com Deus.
Aquela tinha passado perto demais.
11
O sol poente tornou-se um arco sobre o mar Ocidental. E foi se
estreitando até se transformar numa linha brilhante que feria os olhos de
Eddie. Olhar demais para uma luz daquelas poderia provocar queimadura
permanente nas retinas. Esse era apenas um dos interessantíssimos fatos que aprendera na escola, fatos que o ajudaram a conseguir um gratificante trabalho de meio expediente como o de barman e a
desenvolver o interessante hobby de procurar em tempo integral bocas de
venda de heroína e os dólares com os quais comprá-la. Eddie não parava
de olhar para o sol. Não achava que ficar ou não de olho queimado fosse
ter importância por muito tempo.
Não pediu socorro à bruxa que estava lá atrás. Em primeiro lugar,
porque seria inútil. Em segundo, implorar ajuda o degradaria por completo.
Ele tivera uma vida degradante; descobria agora que não tinha vontade de
se degradar ainda mais nos últimos minutos dela. Minutos era tudo que
lhe sobrava. Tudo que restava antes que a linha brilhante desaparecesse e
o tempo das lagostrosidades chegasse.
Já não esperava que alguma milagrosa metamorfose trouxesse Odetta
de volta no último minuto, assim como já não esperava que Detta reco-
nhecesse que sua morte iria quase certamente prendê-la para sempre na-
quele mundo. Até 15 minutos atrás, acreditara que ela estava blefando;
agora sabia que não.
Bem, será melhor do que me estrangular centímetro por centímetro com
essa corda, pensou ele, se bem que, após ver as hediondas coisas-lagostas
noite após noite, realmente não acreditava que isso fosse verdade. Talvez
conseguisse morrer sem gritar. Não achava que fosse possível, mas preten-
dia tentar.
— Elas tão vindo te pegar, puto! — guinchou Detta. — A qual-
qué instante vão tá chegando! Vai sê o melhor jantá da vida daquelas
bonequinhas!
De fato não era um blefe. E Odetta não ia voltar... nem ela nem o
pistoleiro. E de certa forma era essa história de Roland que doía mais. Eddie
tivera certeza que ele e o pistoleiro tinham se tornado... pelo menos parcei-
ros, se não irmãos... durante aquela jornada praia acima. Tivera certeza que
Roland faria pelo menos um esforço para não abandoná-lo.
Mas Roland não ia voltar.
Talvez o problema não fosse que ele não quisesse vir. Talvez não
pudesse. Talvez já estivesse morto, baleado por algum segurança numa
drogaria — merda, isso seria um deboche, o último pistoleiro do mundo morto
por um segurança de farmácia... Ou poderia ter sido atropelado por um táxi.
Talvez estivesse morto e a porta para sempre desaparecida. Talvez seja por
isso que Detta não está blefando. Talvez já não haja nada sobre o que ela
possa blefar.
— Vão chegá a qualqué instante! — gritava Detta, e Eddie não preci-
sou mais se preocupar com as retinas, porque aquela última réstia brilhante
de luz desapareceu, deixando apenas um clarão.
Contemplando as ondas, enquanto a imagem do crepúsculo impres-
sa em sua retina ia lentamente se apagando, Eddie esperou que a primeira lagostrosidade saísse aos trambolhões das ondas.
12
Eddie tentou virar a cabeça para evitar a primeira, mas foi lento demais. Ela tirou uma amostra de seu rosto com a garra, reduzindo o olho esquer-
do a gelatina e expondo, no crepúsculo, a superfície brilhante do osso.
Fazia suas perguntas, e a Mulher Realmente Má não parava de rir...
Pare com isso!, Roland ordenou a si mesmo. Imaginar essas coisas não é
apenas inútil; é uma distração. E não precisa ser assim. Talvez ainda haja
tempo.
E ainda havia — naquele momento. Enquanto Roland descia a pas-
sos largos a rua 49 no corpo de Jack Mort, braços balançando, olhos de
atirador concentrados com firmeza na placa que indicava DROGARIA, indiferente aos olhares que atraía e ao modo como as pessoas se desviavam
dele, o sol ainda estava de pé no mundo de Roland. A superfície mais
baixa de seu disco ainda levaria uns 15 minutos para atingir o ponto onde
mar e céu se tocavam. Se o tempo de agonia de Eddie fosse mesmo chegar,
ainda estava um pouco à frente.
O pistoleiro, contudo, não tinha certeza; pelo correr normal das ho-
ras deveria ser mais cedo no seu mundo do que no mundo onde se encon-trava, e o sol ainda não teria se posto, mas sem dúvida a suposição de que
o tempo corria na mesma velocidade nos dois mundos poderia ser muito
perigosa... especialmente para Eddie, que poderia ter aquela morte de in-concebível horror que sua mente insistia em tentar imaginar.