A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três
Falou, valeu, irmãozinho, respondia Henry, transpiração zero, tudo
sob controle, mas às vezes, olhando para as cinzas do rosto e o fogo morto
nos olhos de Henry, Eddie percebia que o irmão jamais voltaria a ter
qualquer coisa sob controle.
O que ele queria dizer a Henry e não conseguia nada tinha a ver
com o fato de Henry levar uma dura ou de ambos levarem uma dura. O
que ele queria dizer era Henry, é como se você andasse procurando um
lugar para morrer. E isso que eu acho e quero que você desista da porra
dessa idéia. Porque se você morrer, para que eu vivi até agora?
— Henry não está bem — disse Jack Andolini. — Precisa que
alguém tome conta dele. Precisa... como é aquela música? De uma
ponte sobre águas revoltas. É do que Henry precisa. Uma ponte sobre
águas revoltas. // Roche está sendo essa ponte.
Il Roche é uma ponte para o inferno, pensou Eddie. Em voz alta ele
perguntou:
— É onde está Henry? Na casa de Balazar?
— É .
— Dou a parada a ele e ele me entrega Henry?
— Henry e as suas coisas — disse Andolini —, não esqueça.
— Em outras palavras, o acordo volta ao normal.
— É isso.
— Agora me diga se acha que isso vai realmente acontecer. Vamos lá,
Jack. Me diga. Quero ver se consegue fazer isso de cara séria. E se conseguir fazer isso de cara séria, quero ver até onde o seu nariz vai
crescer. Não estão te entendendo, Eddie.
— Claro que está. Balazar acha que eu tenho a mercadoria? Se está
pensando isso, tem de ser estúpido e sei que ele não é estúpido.
— Não sei o que ele está pensando — disse Andolini num tom
sereno. — Não é meu trabalho adivinhar o que ele pensa. Ele sabe que
você tinha a mercadoria quando saiu das Ilhas, sabe que foi agarrado pelos
caras da alfândega e depois liberado, sabe que está aqui e não a
caminho da prisão, sabe que a mercadoria tem de estar em algum lugar.
— E sabe que os caras da alfândega continuam grudados em mim
como um traje impermeável num mergulhador, porque você soube disso e enviou algum tipo de mensagem codificada pelo rádio da van. Algo como "queijo duplo, segure as enchovas", certo, Jack? Jack Andolini
ficou calado e parecia sereno.
— Só que estava dizendo a ele algo que ele já sabia. É como ligar os
pontos de uma figura que você já sabe qual é.
Parado na luz dourada do pôr-do-sol, que aos poucos ia virando
uma fornalha laranja, Andolini continuou de ar sereno e absolutamente calado.
— Balazar acha que me dobraram. Acha que entrei na deles. Acha
que pude ser estúpido a ponto de dar o serviço. Até certo ponto posso entender essa reação. Afinal, por que não? Uma cabeça perturbada pode fazer qualquer coisa. Não quer verificar se estou usando algum microfone?
— Sei que não está — disse Andolini. — Tenho uma coisa na van. É
como um interceptador de freqüência, só que capta transmissões de rádio de pouco alcance. E pelo que me consta, não acho que esteja prestando serviços aos federais.
— Sério?
— Sério. Então entramos na van e vamos até o centro ou não?
— Tenho escolha?
Não, disse Roland dentro da cabeça dele.
— Não — disse Andolini.
Eddie voltou para a van. O garoto com a bola de basquete continuava
parado do outro lado da rua, a sombra agora tão comprida que parecia um
guindaste.
— Saia daqui, garoto — disse Eddie. — Nunca esteve aqui, nunca
viu nada nem ninguém. Desinfete.
O garoto correu. Col
estava sorrindo.
— Puxe o carro, campeão — disse Eddie.
— Acho que você deveria sentar no meio, Eddie.
— Puxe o carro — repetiu Eddie. Col olhou-o, depois olhou para
Andolini, que não virou a cabeça. Andolini se limitou a fechar a porta do
motorista e fixar serenamente o olhar à frente, como Buda nos seus dias de folga, deixando os dois resolverem sozinhos aquele problema dos lugares. Col olhou mais uma vez para a cara de Eddie e resolveu ficar no meio.