A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três
Mesmo que aquele pequeno show tivesse sido…
Mesmo que aquele pequeno show tivesse sido encenado para ela, não
era possível que o Homem Realmente Mau tivesse outro objetivo em mente,
um objetivo que nem ela nem Eddie poderiam descobrir com facilidade?
Talvez o Homem Realmente Mau estivesse pensando: se ela ouvir este
atirar boas balas, vai pensar que aquele que pegou de Eddie pode
fazer a mesma coisa.
Mas vamos supor que ele tenha adivinhado que Eddie tiraria um
cochilo? Não iria deduzir que Detta estaria esperando exatamente por isso,
esperando essa oportunidade para surrupiar a arma e depois voltar lenta-
mente pelas encostas, rastejando até a segurança? Sim, aquele Homem
Realmente Mau poderia ter previsto tudo. Era esperto para um branco
puto. Pelo menos esperto até o ponto de compreender que Detta saberia
tirar o melhor proveito daquele rapazinho branco.
Sendo assim, talvez aquele Homem Realmente Mau tivesse carrega-
do o revólver com falsa munição. Já a fizera uma vez de boba; por que não
fazer de novo? Dessa vez tomara o cuidado de mostrar que não havia ape-
nas cápsulas vazias no tambor; sim, os tiros pareciam ter vindo de balas
verdadeiras, mas isso não significava que fossem. Ele nem precisava torcer
para uma delas estar seca o bastante para atirar, precisava? Todas poderiam
ser de festim. Revólveres, afinal, eram a especialidade do Homem Real-
mente Mau. Por que ele faria isso? Ora, para induzi-la a se expor, é claro!
Assim Eddie poderia tomar dela o revólver realmente capaz de funcionar e,
cansado ou não, não cometeria o erro de deixá-lo cair pela segunda vez em
sua mão. Teria, de fato, um cuidado todo especial para não cometer o
mesmo erro duas vezes justamente por estar cansado.
Bela tentativa, branco puto, pensou Detta em seu sombrio covil, aquele
lugar escuro e apertado, mas de certa forma confortável, cujo piso estava
forrado com os ossos decompostos e amolecidos de pequenos animais.
Bela tentativa, mas não vou cair nessa merda.
Não precisava atirar em Eddie; só precisava esperar.
Seu único medo era que o pistoleiro voltasse antes que Eddie
caísse no sono, mas ele ainda não chegara. O corpo caído na soleira da
porta não se mexia. Talvez estivesse tendo dificuldade para conseguir o
remédio de que precisava - talvez estivesse em alguma encrenca.
Homens como ele pareciam se meter em encrenca com a mesma
facilidade que uma cadela no cio encontra um cão vagabundo.
Duas horas já tinham se passado com Eddie procurando a mulher
que chamava de "Odetta" (ah, como ela odiava o som desse nome), ro-
dando de um lado para o outro no pé dos morros e gritando até não lhe
restar mais nenhuma voz.
Por fim Eddie fez aquilo que ela estava esperando: retrocedeu pelo
pequeno ângulo da praia e sentou-se ao lado da cadeira de rodas, olhando
em volta com ar desconsolado. Tocou uma das rodas da cadeira e o toque
foi quase uma carícia. Então sua mão desabou e ele extraiu dos pulmões
um suspiro profundo.
Aquela visão trouxe uma dor metálica para a garganta de Detta; a dor
lhe atravessou a cabeça de um lado a outro como um relâmpago de verão
e ela pareceu ouvir uma voz chamando... chamando ou reclamando.
Não, não vai, pensou ela, não sabendo em quem estava pensando
ou a quem estava se dirigindo. Não, não vai, não desta vez, não agora. Não agora, talvez nunca mais. Aquela fisgada de dor irrompeu de novo em
sua cabeça e ela cerrou com força as mãos. O rosto fez seu próprio movi-mento de contração, convertendo-se num esgar concentrado — uma expressão notável e arrebatadora em sua mistura de feiúra e quase beata
determinação.
A fisgada de dor não retornou. Nem a voz que às vezes parecia falar
através dessas dores.
Ela esperou.
Eddie apoiou o queixo nos punhos, mas manteve a cabeça erguida.
Logo a cabeça começou a cair e os punhos foram subindo pelas faces. Detta esperava, olhos negros brilhando.
A cabeça de Eddie deu um solavanco. Ele lutou para se levantar,
desceu até a água e borrifou o rosto.
Isso mesmo, menino branco. Pena num ter anfetamina neste
mundo ou tu taria também tomando uma pra se ligar, num tô certa?
Dessa vez Eddie sentou na cadeira de rodas, que dificilmente lhe
pareceria demasiado confortável. Então, após uma longa olhada pela porta