A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três

Stephen King · Capítulo 224 de 274

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A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três

Mesmo que aquele pequeno show tivesse sido…

Mesmo que aquele pequeno show tivesse sido encenado para ela, não

era possível que o Homem Realmente Mau tivesse outro objetivo em mente,

um objetivo que nem ela nem Eddie poderiam descobrir com facilidade?

Talvez o Homem Realmente Mau estivesse pensando: se ela ouvir este

atirar boas balas, vai pensar que aquele que pegou de Eddie pode

fazer a mesma coisa.

Mas vamos supor que ele tenha adivinhado que Eddie tiraria um

cochilo? Não iria deduzir que Detta estaria esperando exatamente por isso,

esperando essa oportunidade para surrupiar a arma e depois voltar lenta-

mente pelas encostas, rastejando até a segurança? Sim, aquele Homem

Realmente Mau poderia ter previsto tudo. Era esperto para um branco

puto. Pelo menos esperto até o ponto de compreender que Detta saberia

tirar o melhor proveito daquele rapazinho branco.

Sendo assim, talvez aquele Homem Realmente Mau tivesse carrega-

do o revólver com falsa munição. Já a fizera uma vez de boba; por que não

fazer de novo? Dessa vez tomara o cuidado de mostrar que não havia ape-

nas cápsulas vazias no tambor; sim, os tiros pareciam ter vindo de balas

verdadeiras, mas isso não significava que fossem. Ele nem precisava torcer

para uma delas estar seca o bastante para atirar, precisava? Todas poderiam

ser de festim. Revólveres, afinal, eram a especialidade do Homem Real-

mente Mau. Por que ele faria isso? Ora, para induzi-la a se expor, é claro!

Assim Eddie poderia tomar dela o revólver realmente capaz de funcionar e,

cansado ou não, não cometeria o erro de deixá-lo cair pela segunda vez em

sua mão. Teria, de fato, um cuidado todo especial para não cometer o

mesmo erro duas vezes justamente por estar cansado.

Bela tentativa, branco puto, pensou Detta em seu sombrio covil, aquele

lugar escuro e apertado, mas de certa forma confortável, cujo piso estava

forrado com os ossos decompostos e amolecidos de pequenos animais.

Bela tentativa, mas não vou cair nessa merda.

Não precisava atirar em Eddie; só precisava esperar.

Seu único medo era que o pistoleiro voltasse antes que Eddie

caísse no sono, mas ele ainda não chegara. O corpo caído na soleira da

porta não se mexia. Talvez estivesse tendo dificuldade para conseguir o

remédio de que precisava - talvez estivesse em alguma encrenca.

Homens como ele pareciam se meter em encrenca com a mesma

facilidade que uma cadela no cio encontra um cão vagabundo.

Duas horas já tinham se passado com Eddie procurando a mulher

que chamava de "Odetta" (ah, como ela odiava o som desse nome), ro-

dando de um lado para o outro no pé dos morros e gritando até não lhe

restar mais nenhuma voz.

Por fim Eddie fez aquilo que ela estava esperando: retrocedeu pelo

pequeno ângulo da praia e sentou-se ao lado da cadeira de rodas, olhando

em volta com ar desconsolado. Tocou uma das rodas da cadeira e o toque

foi quase uma carícia. Então sua mão desabou e ele extraiu dos pulmões

um suspiro profundo.

Aquela visão trouxe uma dor metálica para a garganta de Detta; a dor

lhe atravessou a cabeça de um lado a outro como um relâmpago de verão

e ela pareceu ouvir uma voz chamando... chamando ou reclamando.

Não, não vai, pensou ela, não sabendo em quem estava pensando

ou a quem estava se dirigindo. Não, não vai, não desta vez, não agora. Não agora, talvez nunca mais. Aquela fisgada de dor irrompeu de novo em

sua cabeça e ela cerrou com força as mãos. O rosto fez seu próprio movi-mento de contração, convertendo-se num esgar concentrado — uma expressão notável e arrebatadora em sua mistura de feiúra e quase beata

determinação.

A fisgada de dor não retornou. Nem a voz que às vezes parecia falar

através dessas dores.

Ela esperou.

Eddie apoiou o queixo nos punhos, mas manteve a cabeça erguida.

Logo a cabeça começou a cair e os punhos foram subindo pelas faces. Detta esperava, olhos negros brilhando.

A cabeça de Eddie deu um solavanco. Ele lutou para se levantar,

desceu até a água e borrifou o rosto.

Isso mesmo, menino branco. Pena num ter anfetamina neste

mundo ou tu taria também tomando uma pra se ligar, num tô certa?

Dessa vez Eddie sentou na cadeira de rodas, que dificilmente lhe

pareceria demasiado confortável. Então, após uma longa olhada pela porta