A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três
O pistoleiro não apontara para a cabeça…
O pistoleiro não apontara para a cabeça de Andolini, mas para o revólver
na mão dele. Não sabia se ainda iriam precisar daquele homem, talvez
precisassem; era alguém importante para Balazar, e como Balazar provara minuciosamente ser tão perigoso quanto Roland achava que ele era, não
havia por que se arriscar a providências desnecessárias.
A pontaria tinha sido boa, o que não era surpresa; surpresa foi o que
aconteceu ao revólver de Andolini e ao próprio Andolini. Roland vira a
coisa acontecer, mas só duas vezes em todos os seus anos de vida tinha visto homens atirarem simultaneamente um no outro.
A sorte não estava do seu lado, irmão, pensou o pistoleiro quando
Andolini cambaleou para a praia, gritando. O sangue escorria por sua camisa e calça. A mão que estivera segurando o Colt Cobra estava perdida
do meio da palma para baixo. O revólver virarà um pedaço inútil de metal
retorcido caído na areia.
Eddie olhou para ele, atônito. Ninguém mais julgaria troglodita a
expressão do rosto de Jack Andolini, pois ele já não tinha rosto; onde
havia um rosto sobrava agora uma pasta de carne exposta e o imenso bu-raco negro de sua boca.
— Meu Deus, o que houve?
— Minha bala deve ter atingido o tambor do revólver de Andolini
no segundo exato em que ele puxou o gatilho — disse o pistoleiro. Falou
com a frieza de um professor dando uma aula de balística numa academia
de polícia. — O resultado foi uma explosão que arrebentou o cabo do revólver dele. E acho que umas duas ou três balas que estavam no tambor
devem ter explodido.
— Acabe com ele — disse Eddie, tremendo mais do que nunca,
e agora não era apenas a combinação de friagem da noite, brisa marinha e
corpo nu que causava aquilo. — Acabe de matar. Tire o homem dessa agonia, pelo amor de Deus...
— Tarde demais — disse o pistoleiro com um tom de tamanha
indiferença que a carne de Eddie gelou até os ossos.
E Eddie virou o rosto tarde demais para não ver as lagostrosidades avançarem para os pés de Andolini e rasgarem seus mocassins da Gucci... com os pés ainda dentro, é claro. Gritando, sacudindo
freneticamente os braços, Andolini caiu para a frente. As lagostrosidades avançaram num enxame sobre ele, sem parar de questioná-lo ansiosamente durante todo o tempo em que o comiam vivo: Chac? Chie?
Chum? Choc?Meu Deus — gemeu Eddie. — O que vamos fazer?
— Agora pegue exatamente a quantidade de
(pó-do-diabo, disse o pistoleiro; cocaína, Eddie ouviu)
que prometeu dar ao tal de Balazar — disse Roland —, nem mais
nem menos. E vamos voltar. — Olhou dentro dos olhos de Eddie. —
Pelo menos desta vez tenho de voltar com você. Como eu mesmo.
— Meu Deus do céu — disse Eddie. — Você consegue fazer isso? —
E respondeu de imediato à sua própria pergunta. — Claro que consegue.
Mas por quê?
— Porque você não vai conseguir cuidar disto sozinho — disse
Roland. — Venha cá.
Eddie se virou para trás e viu, na areia, o monte retorcido das criatu-
ras com garras. Nunca tivera simpatia por Jack Andolini, mas mesmo
assim sentiu um aperto no estômago.
— Venha cá — repetiu Roland impaciente. — Temos pouco tempo
e não estou gostando nada do que vou ter de fazer agora. É algo que nunca
fiz. Nunca achei que teria de fazer. — Sua boca se contorceu
amargamente. — Bem, já estou me acostumando a fazer coisas
estranhas.
Eddie se aproximou devagar do vulto esquálido. Sentia as pernas cada
vez mais fracas e sua pele nua brilhava esbranquiçada na escuridão daquele
mundo. Exatamente quem é você, Roland?, ele pensou. O que você é? E esse
calor que eu sinto se emanando de você... é apenas febre? Ou alguma espécie de
loucura? Acho que pode ser ambas as coisas.
Meu Deus, ele precisava de uma dose. Pior: ele merecia uma dose. — Nunca fez o que antes? — perguntou. — Do que você está falando? — Pegue — disse Roland, fazendo um gesto para seu revólver mais
antigo, no lado direito da cintura; não exatamente apontando para o
revólver, não havia dedo com que apontar, só um coto volumoso,
enrolado num pedaço de pano. — Não está servindo para mim. Não
agora, talvez nunca mais.
— Eu... — Eddie engoliu em seco. — Não quero pegar nisso.