A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três

Stephen King · Capítulo 97 de 274

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A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três

O pistoleiro não apontara para a cabeça…

O pistoleiro não apontara para a cabeça de Andolini, mas para o revólver

na mão dele. Não sabia se ainda iriam precisar daquele homem, talvez

precisassem; era alguém importante para Balazar, e como Balazar provara minuciosamente ser tão perigoso quanto Roland achava que ele era, não

havia por que se arriscar a providências desnecessárias.

A pontaria tinha sido boa, o que não era surpresa; surpresa foi o que

aconteceu ao revólver de Andolini e ao próprio Andolini. Roland vira a

coisa acontecer, mas só duas vezes em todos os seus anos de vida tinha visto homens atirarem simultaneamente um no outro.

A sorte não estava do seu lado, irmão, pensou o pistoleiro quando

Andolini cambaleou para a praia, gritando. O sangue escorria por sua camisa e calça. A mão que estivera segurando o Colt Cobra estava perdida

do meio da palma para baixo. O revólver virarà um pedaço inútil de metal

retorcido caído na areia.

Eddie olhou para ele, atônito. Ninguém mais julgaria troglodita a

expressão do rosto de Jack Andolini, pois ele já não tinha rosto; onde

havia um rosto sobrava agora uma pasta de carne exposta e o imenso bu-raco negro de sua boca.

— Meu Deus, o que houve?

— Minha bala deve ter atingido o tambor do revólver de Andolini

no segundo exato em que ele puxou o gatilho — disse o pistoleiro. Falou

com a frieza de um professor dando uma aula de balística numa academia

de polícia. — O resultado foi uma explosão que arrebentou o cabo do revólver dele. E acho que umas duas ou três balas que estavam no tambor

devem ter explodido.

— Acabe com ele — disse Eddie, tremendo mais do que nunca,

e agora não era apenas a combinação de friagem da noite, brisa marinha e

corpo nu que causava aquilo. — Acabe de matar. Tire o homem dessa agonia, pelo amor de Deus...

— Tarde demais — disse o pistoleiro com um tom de tamanha

indiferença que a carne de Eddie gelou até os ossos.

E Eddie virou o rosto tarde demais para não ver as lagostrosidades avançarem para os pés de Andolini e rasgarem seus mocassins da Gucci... com os pés ainda dentro, é claro. Gritando, sacudindo

freneticamente os braços, Andolini caiu para a frente. As lagostrosidades avançaram num enxame sobre ele, sem parar de questioná-lo ansiosamente durante todo o tempo em que o comiam vivo: Chac? Chie?

Chum? Choc?Meu Deus — gemeu Eddie. — O que vamos fazer?

— Agora pegue exatamente a quantidade de

(pó-do-diabo, disse o pistoleiro; cocaína, Eddie ouviu)

que prometeu dar ao tal de Balazar — disse Roland —, nem mais

nem menos. E vamos voltar. — Olhou dentro dos olhos de Eddie. —

Pelo menos desta vez tenho de voltar com você. Como eu mesmo.

— Meu Deus do céu — disse Eddie. — Você consegue fazer isso? —

E respondeu de imediato à sua própria pergunta. — Claro que consegue.

Mas por quê?

— Porque você não vai conseguir cuidar disto sozinho — disse

Roland. — Venha cá.

Eddie se virou para trás e viu, na areia, o monte retorcido das criatu-

ras com garras. Nunca tivera simpatia por Jack Andolini, mas mesmo

assim sentiu um aperto no estômago.

— Venha cá — repetiu Roland impaciente. — Temos pouco tempo

e não estou gostando nada do que vou ter de fazer agora. É algo que nunca

fiz. Nunca achei que teria de fazer. — Sua boca se contorceu

amargamente. — Bem, já estou me acostumando a fazer coisas

estranhas.

Eddie se aproximou devagar do vulto esquálido. Sentia as pernas cada

vez mais fracas e sua pele nua brilhava esbranquiçada na escuridão daquele

mundo. Exatamente quem é você, Roland?, ele pensou. O que você é? E esse

calor que eu sinto se emanando de você... é apenas febre? Ou alguma espécie de

loucura? Acho que pode ser ambas as coisas.

Meu Deus, ele precisava de uma dose. Pior: ele merecia uma dose. — Nunca fez o que antes? — perguntou. — Do que você está falando? — Pegue — disse Roland, fazendo um gesto para seu revólver mais

antigo, no lado direito da cintura; não exatamente apontando para o

revólver, não havia dedo com que apontar, só um coto volumoso,

enrolado num pedaço de pano. — Não está servindo para mim. Não

agora, talvez nunca mais.

— Eu... — Eddie engoliu em seco. — Não quero pegar nisso.