A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três
Capítulo 10
Agora, o pistoleiro pensou. Agora vamos ver, não é?
Conseguira vir de seu mundo para aquele corpo através da porta na
praia. O que precisava descobrir era se poderia reverter as coisas. Ah, não
reverter a si mesmo; tinha certeza de que poderia voltar pela porta e tornar a entrar em seu próprio corpo intoxicado, doente, quando quisesse. Esta-va se referindo a outras coisas. Coisas físicas. Ali, por exemplo, na frente
dele, havia comida: algo que a mulher de uniforme chamara de sanduíche de atum. O pistoleiro não fazia idéia do que fosse atum, mas sabia reco-nhecer um popquim, embora aquele parecesse curiosamente malcozido.
Seu corpo precisava comer e precisava beber, mas antes de mais nada
seu corpo precisava de algum tipo de remédio. Sem isso, ele morreria da mordida da lagostrosidade. Talvez houvesse tal medicamento naquele
mundo; num mundo onde aparelhos voam pelo ar muito acima do ponto onde mesmo as águias mais fortes conseguiriam voar, qualquer coisa parecia possível. Mas não importava quanta medicação poderosa
houvesse ali se ele não conseguisse carregar nada físico através da porta.
Você poderia viver neste corpo, pistoleiro, murmurou a voz do homem
de preto bem no fundo de sua cabeça. Deixe aquele pedaço de carne
respiradora lá mesmo para as coisas-lagosta. De qualquer forma, é apenas uma casca.
Ele não faria isso. Em primeiro lugar, seria o mais criminoso tipo de
furto, pois não se contentaria em ser apenas um passageiro daquele corpo, alguém olhando pelos olhos do homem como um viajante olhando pela
janela de um vagão para a paisagem que passa.
Em segundo lugar, ele era Roland. Se tivesse de morrer, pretendia
morrer como Roland. Morreria se arrastando para a Torre, se era o que
exigiam dele.
Então o singular e frio senso prático que convivia com o romantismo
em sua natureza, como um tigre com uma corça, tornou a se afirmar. Não
havia necessidade de pensar em morrer com o experimento ainda não realizado.
Pegou o popquim. Ele havia sido cortado em duas metades. Pôs
cada uma numa das mãos. Abriu os olhos do prisioneiro e olhou por eles. Ninguém o estava observando (embora, na cozinha, Jane Dorning estivesse pensando nele, e muito concentradamente).
Roland se virou para a porta e a atravessou, levando as metades do
popquim nas mãos.
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Primeiro ouviu o barulho áspero de uma onda se aproximando, em segui-
da a balbúrdia de muitos albatrozes esvoaçando nas rochas mais próximas
e disputando um lugar para pousar (covardemente, os malandros iam se
insinuando, pensou, e muito em breve estariam me dando bicadas, estivesse
eu ainda respirando ou não — não passavam de abutres com uma camada de
tinta}; então tomou consciência de que a metade de um popquim — a
que estava em sua mão direita — tinha caído na dura areia cinza porque
ele o estivera segurando com a mão inteira quando atravessou a porta e
agora estava — ou havia estado — segurando-o com a mão que tinha
sofrido uma redução de quarenta por cento.
Pegou-o desajeitadamente, apertou-o entre o polegar e o anular, ti-
rou o máximo de areia que pôde dele e deu uma mordida cautelosa. Um
instante depois o estava devorando, sem sequer reparar em alguns grãos de
areia que triturava entre os dentes. Segundos depois, voltou sua atenção
para a outra metade. Ela desapareceu em três dentadas.
O pistoleiro não fazia idéia do que fosse atum — só sabia que era
delicioso. Aparentemente, isso bastava.
12
No avião, ninguém viu um sanduíche de atum desaparecer. Ninguém viu
as mãos de Eddie Dean agarrarem suas duas metades com força suficiente
para deixar profundas marcas de polegares no pão branco.
Ninguém viu o sanduíche ficar transparente, depois sumir, deixando
apenas alguns farelos.
Cerca de vinte segundos após isto ter acontecido, Jane Dorning apa-
gou seu cigarro e cruzou a frente da cabine. Tirou seu livro da bolsa, mas
o que realmente queria era dar outra olhada na 3A.