A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três

Stephen King · Capítulo 29 de 274

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A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três

Capítulo 10

 

Agora, o pistoleiro pensou. Agora vamos ver, não é?

Conseguira vir de seu mundo para aquele corpo através da porta na

praia. O que precisava descobrir era se poderia reverter as coisas. Ah, não

reverter a si mesmo; tinha certeza de que poderia voltar pela porta e tornar a entrar em seu próprio corpo intoxicado, doente, quando quisesse. Esta-va se referindo a outras coisas. Coisas físicas. Ali, por exemplo, na frente

dele, havia comida: algo que a mulher de uniforme chamara de sanduíche de atum. O pistoleiro não fazia idéia do que fosse atum, mas sabia reco-nhecer um popquim, embora aquele parecesse curiosamente malcozido.

Seu corpo precisava comer e precisava beber, mas antes de mais nada

seu corpo precisava de algum tipo de remédio. Sem isso, ele morreria da mordida da lagostrosidade. Talvez houvesse tal medicamento naquele

mundo; num mundo onde aparelhos voam pelo ar muito acima do ponto onde mesmo as águias mais fortes conseguiriam voar, qualquer coisa parecia possível. Mas não importava quanta medicação poderosa

houvesse ali se ele não conseguisse carregar nada físico através da porta.

Você poderia viver neste corpo, pistoleiro, murmurou a voz do homem

de preto bem no fundo de sua cabeça. Deixe aquele pedaço de carne

respiradora lá mesmo para as coisas-lagosta. De qualquer forma, é apenas uma casca.

Ele não faria isso. Em primeiro lugar, seria o mais criminoso tipo de

furto, pois não se contentaria em ser apenas um passageiro daquele corpo, alguém olhando pelos olhos do homem como um viajante olhando pela

janela de um vagão para a paisagem que passa.

Em segundo lugar, ele era Roland. Se tivesse de morrer, pretendia

morrer como Roland. Morreria se arrastando para a Torre, se era o que

exigiam dele.

Então o singular e frio senso prático que convivia com o romantismo

em sua natureza, como um tigre com uma corça, tornou a se afirmar. Não

havia necessidade de pensar em morrer com o experimento ainda não realizado.

Pegou o popquim. Ele havia sido cortado em duas metades. Pôs

cada uma numa das mãos. Abriu os olhos do prisioneiro e olhou por eles. Ninguém o estava observando (embora, na cozinha, Jane Dorning estivesse pensando nele, e muito concentradamente).

Roland se virou para a porta e a atravessou, levando as metades do

popquim nas mãos.

 

11

Primeiro ouviu o barulho áspero de uma onda se aproximando, em segui-

da a balbúrdia de muitos albatrozes esvoaçando nas rochas mais próximas

e disputando um lugar para pousar (covardemente, os malandros iam se

insinuando, pensou, e muito em breve estariam me dando bicadas, estivesse

eu ainda respirando ou não — não passavam de abutres com uma camada de

tinta}; então tomou consciência de que a metade de um popquim — a

que estava em sua mão direita — tinha caído na dura areia cinza porque

ele o estivera segurando com a mão inteira quando atravessou a porta e

agora estava — ou havia estado — segurando-o com a mão que tinha

sofrido uma redução de quarenta por cento.

Pegou-o desajeitadamente, apertou-o entre o polegar e o anular, ti-

rou o máximo de areia que pôde dele e deu uma mordida cautelosa. Um

instante depois o estava devorando, sem sequer reparar em alguns grãos de

areia que triturava entre os dentes. Segundos depois, voltou sua atenção

para a outra metade. Ela desapareceu em três dentadas.

O pistoleiro não fazia idéia do que fosse atum — só sabia que era

delicioso. Aparentemente, isso bastava.

 

12

 

No avião, ninguém viu um sanduíche de atum desaparecer. Ninguém viu

as mãos de Eddie Dean agarrarem suas duas metades com força suficiente

para deixar profundas marcas de polegares no pão branco.

Ninguém viu o sanduíche ficar transparente, depois sumir, deixando

apenas alguns farelos.

Cerca de vinte segundos após isto ter acontecido, Jane Dorning apa-

gou seu cigarro e cruzou a frente da cabine. Tirou seu livro da bolsa, mas

o que realmente queria era dar outra olhada na 3A.