A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três

Stephen King · Capítulo 65 de 274

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A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três

para si próprio: uma vida inteira num…

para si próprio: uma vida inteira num mundo estranho, onde podem morrer tão facilmente quanto animais de zoológico soltos numa área selvagem.

A Torre, pensou Roland febrilmente. Assim que eu tiver chegado à

Torre e feito o que devo fazer lã, cumprido qualquer ato fundamental de restauração ou redenção para o qual fui destinado, então talvez eles...

A risada estridente do homem de preto, o homem que estava morto

mas sobrevivia como enodoada consciência do pistoleiro, não o deixou

continuar com o pensamento.

Mas de forma nenhuma o medo de cometer alguma deslealdade o

desviaria de seu curso.

Conseguiu avançar outros dez metros, olhou para trás e viu que

mesmo o maior dos monstros rastejantes não se aventurava a ultrapassar seis metros da linha da maré alta. E ele já completara três vezes aquela

distância.

Está bem, então.

Nada está bem, respondeu o homem de preto num tom divertido, e

você sabe disso.

Cale a boca, pensou o pistoleiro e, por milagre, a voz realmente se

calou.

Roland empurrou os saquinhos de pó-do-diabo para uma fenda

entre duas rochas e cobriu-os com punhados de um ralo capim. Feito isso, descansou brevemente, a cabeça latejando, a pele alternadamente

quente e fria. Depois cruzou a porta para aquele outro mundo, aquele outro corpo, deixando por algum tempo para trás a infecção cada vez mais letal.

 

Na segunda vez que retornou a si mesmo, entrou num corpo tão profun-damente adormecido que, por um momento, achou que caíra em estado

comatoso... um estado de funções orgânicas tão lentas que, a qualquer momento, sentiria sua própria consciência dar início a uma longa descida para a escuridão.

Forçou seu corpo a entrar em estado de vigília pleno, espicaçando-o, esmurrando-o até retirá-lo da caverna escura para a qual se arrastara. Fez o coração bater mais rápido, fez os nervos tornarem a sentir a dor que

fervilhava através da pele e acordou sua carne para a pungente realidade.

Era noite agora. As estrelas tinham surgido. As coisas tipo popquim

que Eddie lhe comprara eram pedacinhos de calor na friagem.

Não sentiu vontade de comê-las, mas ia comê-las. Primeiro, no

entanto...

Contemplou os comprimidos brancos em sua mão. Asmina, Eddie

os chamara. Não, não era bem essa a palavra, mas Roland não conseguia pronunciar a palavra que o prisioneiro dissera. O importante é que era um

medicamento. Um medicamento daquele outro mundo.

E Roland pensou sombriamente: se alguma coisa do seu mundo puder

me ajudar, prisioneiro, acho bem mais provável que sejam suas poções, não

seus popquins.

Precisava tentar. Mesmo que não fosse a coisa de que realmente pre-

cisava — como Eddie afirmara — mas apenas algo capaz de reduzir sua

febre.

Três agora, três mais tarde. Se houvesse um mais tarde.

Colocou três comprimidos na boca, depois puxou a tampa — uma

estranha coisa branca que não era nem papel nem vidro mas que tinha um

pouco dos dois — do copo de papel onde estava o refrigerante e engoliu os

comprimidos.

O primeiro gole da bebida o surpreendeu tão completamente que,

por um momento, ele ficou imóvel, escorado numa pedra, os olhos tão

arregalados, tão imóveis e tão cheios da luz refletida das estrelas que seria

certamente dado como morto por alguém que, por acaso, passasse por ali.

Então bebeu avidamente, segurando o copo com as duas mãos, mal repa-

rando nos ferimentos podres, pulsantes nos tocos dos dedos, totalmente

absorvido pela bebida.

Doce! Deuses, que doçura! Que doçura! Que...

Um dos pequenos e chatos cubos de gelo da bebida agarraram em

sua garganta. Ele tossiu, bateu no peito e cuspiu. Agora havia uma nova

dor em sua cabeça; a dor ressonante que vinha de beber uma coisa fria

demais, rápido demais.

Continuou parado, sentindo o coração funcionar como bomba-

dágua, sentindo um novo surto de energia brotar tão depressa em

seu corpo que teve a impressão de que poderia explodir. Sem

pensar no que estava fazendo, rasgou outro pedaço da camisa -

logo não sobraria mais que um trapo preso em volta do pescoço - e

esticou-o numa perna. Quando a bebida acabou, derramou o gelo

no pedaço de pano e fez uma compressa para a mão ferida. Sua

mente, no entanto, estava longe. Doce!, seu íntimo não parava de

gritar, tentando captar o sentido da coisa ou convencer-se de que havia

sentido naquilo, mais ou menos como Eddie tentara se convencer de que o

outro era um ser real e não alguma convulsão mental que colocava uma

parte de si mesmo enganando a outra. Doce! Doce! Doce!

A bebida escura estava temperada com açúcar, mais açúcar do que

Marten — que fora um grande glutão por trás de um exterior grave e

ascético — colocava em seu café da manhã e nos cafés dos finais de tarde.

Açúcar... branco... pó...

Os olhos do pistoleiro se deslocaram para os saquinhos, quase invi-

síveis embaixo do capim que fora atirado sobre eles. Por um instante se

perguntou se a coisa naquela bebida e a coisa nos sacos não seria a mes-

ma. Sabia que Eddie o compreendera perfeitamente ali na praia, onde

eles eram duas criaturas físicas distintas; suspeitava que se atravessasse

corporalmente para o mundo de Eddie (e compreendia instintivamente

que isso poderia ser feito... o problema é que se a porta se fechasse en-

quanto estivesse lá, ficaria lá para sempre, como Eddie ficaria aqui para

sempre numa situação inversa), compreenderia a linguagem deles com a

mesma perfeição. Sabia, por ter estado na mente de Eddie, que as lin-

guagens dos dois mundos eram similares. Similares, mas não idênticas.

Na praia, um sanduíche era um popquim. No mundo de Eddie, arran-

jar era encontrar alguma coisa para comer. Então... não seria possível

que a droga que Eddie chamava de cocaína fosse, no mundo do pistoleiro, chamada de açúcar

Uma reflexão mais detida tornava a idéia improvável. Eddie comprara

a bebida abertamente, sabendo que estava sendo vigiado pelas pessoas que serviam aos Sacerdotes da Alfândega. Além disso, Roland percebeu que pagara relativamente pouco dinheiro por ela. Menos até que pelos

popquins de carne. Não, açúcar não era cocaína, mas Roland não conseguia entender por que alguém iria querer cocaína ou, pela mesma

razão, qualquer outra droga ilegal num mundo onde uma droga tão poderosa quanto o açúcar era tão abundante e tão barata.

Tornou a olhar para os popquins de carne, sentiu as primeiras sensa-

ções de fome... e percebeu com espanto e confusa gratidão que estava se sentindo melhor.

A bebida? Era isso? O açúcar na bebida?

Podia ser parte da coisa — mas uma parte pequena. O açúcar era

capaz de revigorar por algum tempo a energia debilitada de uma pessoa;

desde criança ele sabia disso. Mas o açúcar não era capaz de amortecer a dor ou estancar o fogo da febre em seu corpo quando alguma infecção o transformava numa fornalha. E era exatamente isso que tinha lhe aconte-

cido... ainda estava acontecendo.

O tremor convulsivo havia parado. O suor secava na testa. A sensação de

anzóis tomando conta da garganta parecia estar sumindo. Por mais incrível que fosse, era um fato inegável, não apenas fruto de sua imaginação ou de um desejo fantástico que transformasse suas fantasias em realidades (na verdade, o

pistoleiro não era capaz de tais frivolidades há muitas e imemoráveis décadas). Os dedos perdidos nas mãos e nos pés ainda davam fisgadas e latejavam, mas ele acreditava que até mesmo essas dores estivessem silenciando.

Roland pôs a cabeça para trás, fechou os olhos e agradeceu a Deus. A Deus e a Eddie Dean.

Não cometa o erro de pôr seu coração perto da mão dele, Roland, falou

uma voz vindo das camadas mais profundas de sua mente — não era a voz nervosa, cheia de risadinhas maliciosas, do homem de preto, nem o tom grosseiro de Cort; o pistoleiro achava que lembrava a voz do pai. Você sabe

que o que ele fez por você atendeu à sua própria necessidade pessoal, assim como você sabe que aqueles homens — Inquisidores ou não — estão parcial ou completamente certos. Ele é um fraco, e a razão por que o pegaram não era

ilegítima nem falsa. Há fibra dentro dele, não discuto isso. Mas também há fraqueza. É como Hax, o cozinheiro. Hax nos envenenou com relutância... mas a relutância jamais emudeceu os gritos dos moribundos quando seus intes-

tinos se rompiam. E existe ainda outra razão para ficar esperto...

Mas Roland não precisava que nenhuma voz lhe dissesse qual era

essa outra razão. Já a tinha visto nos olhos de Jake quando o garoto final-

mente começou a entender seu objetivo.