A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três
— Posso ver aquela travessa tão claramente…
— Posso ver aquela travessa tão claramente quanto posso vê-lo ago-
ra, Eddie. Minha mãe deu-a à irmã Azul e ela não parava de chorar. Acho
que vira uma travessa igual quando ela e minha mãe eram crianças, só, é
claro, que os pais delas jamais poderiam ter se dado ao luxo de possuir
uma coisa como aquela. Nenhuma delas teve qualquer coisa especial
quando criança. Depois da recepção, tia Azul e o marido saíram para
passar a lua-de-mel no Great Smokies. Seguiram no trem. — Ela olhou
para Eddie.
— No vagão de Jim Corvo — disse ele.
— Isso! No vagão de Corvo! Corvo naquela época era onde os negros
viajavam e onde eles comiam. É o que estamos tentando mudar em Oxford
Town.
Odetta o olhou, quase certamente esperando que ele repetisse que ela
estava ali mesmo, mas Eddie caíra de novo na teia de sua própria memória:
fraldas molhadas e aquelas palavras. Oxford Town. Então, de repente,
chegaram outras palavras, só um único verso, mas ele se lembrou de Henry
a cantá-lo repetidamente até a mãe perguntar se ele não podia, por favor,
parar para ela escutar a televisão.
Melhor que alguém investigue logo. As palavras eram essas. Cantadas
repetidamente por Henry num monótono tom nasal. Tentou se lembrar
de mais alguma coisa, mas não conseguiu, o que realmente não era de
espantar. Talvez não tivesse mais que três anos naquela época. Melhor que
alguém investigue logo. As palavras lhe deram um calafrio.
— Eddie, você está bem?
— Sim. Por quê?
— Estremeceu.
Ele sorriu.
— O pato Donald deve ter passado sobre o meu túmulo.
Ela riu e continuou:
— De qualquer modo, pelo menos eu não estraguei o casamento. A
coisa aconteceu quando estávamos voltando para a estação ferroviária.
Tínhamos passado a noite na casa de um amigo de tia Azul e, de manhã,
meu pai chamou um táxi. O táxi veio quase de imediato, mas quando o
motorista viu que éramos negros, deu meia-volta como se tivesse a cabeça
em chamas e o rabo em brasas. O amigo da tia Azul tinha ido na nossa
frente para a estação, levando a nossa bagagem... Era muita coisa,
porque íamos passar uma semana em Nova York. Lembro de meu pai
dizendo que não podia esperar a hora de ver meu rosto se iluminar
quando o relógio do Central Park desse as horas e todos os animais
começassem a dançar.
"Meu pai disse que podíamos perfeitamente ir a pé até a estação.
Minha mãe concordou em menos de uma fração de segundo, dizendo que
era uma ótima idéia, não passava de um quilômetro e meio e seria bom
esticarmos as pernas depois de três dias no trem que tinha ficado para
trás e meio dia no que tínhamos pela frente. Meu pai disse que sim, e o
ar estava sem dúvida muito agradável, mas acho que, mesmo aos cinco
anos, percebi que ele estava furioso, ela constrangida e ambos com medo
de chamar outro táxi porque a mesma coisa poderia acontecer de novo.
"Então começamos a descer a rua. Eu ia perto da parede porque minha mãe tinha medo de me deixar muito perto dos carros. Me lembro de ter perguntado se o papai achava mesmo que meu rosto iria brilhar
ou algo parecido quando eu visse o tal relógio no Central Park e se aquilo não iria doer. Então foi nesse momento que o tijolo caiu na minha cabeça. Durante algum tempo, tudo ficou escuro. E aí os sonhos começaram.
Sonhos nítidos."
Ela sorriu.
— Como este sonho, Eddie — disse. — O tijolo realmente caiu ou alguém o jogou em você? — Nunca encontraram ninguém. A polícia (minha mãe me contou
isso muito tempo depois, quando eu já tinha uns 16 anos) achou o lugar onde achavam que estava o tijolo. Havia outros tijolos faltando e alguns soltos. Era o parapeito de uma janela de um apartamento de quarto andar,
num prédio que estava condenado. Mas naturalmente o lugar continuava sendo habitado por muita gente. Principalmente à noite.
— Sem dúvida — disse Eddie.
Ninguém viu ninguém deixando o prédio e a coisa foi encarada como acidente. Minha mãe dizia que também achava que tinha sido um acidente, mas desconfio que ela estava mentindo. E nunca sequer
mencionou o que meu pai achava. O fato é que os dois continuaram se ressentindo bastante do modo como o motorista do táxi nos dispensara um olhar e fugira. Era aquele detalhe que podia fazer as pessoas acreditarem
que havia alguém mais que o motorista por ali, talvez simplesmente nos observando, alguém que nos viu caminhando e decidiu jogar um tijolo nos crioulos... Bem, não está na hora das criaturas-lagostas aparecerem?
— Não — disse Eddie. — Não aparecem antes de a noite cair. Então
uma de suas idéias é que tudo isto é o sonho de um estado de coma, como
os sonhos que teve quando foi acertada pelo tijolo. Só que desta vez acha que foi um porrete ou algo do gênero.
— É .
— E qual a outra idéia?
O rosto e a voz de Odetta estavam bastante calmos, mas a cabeça se
enchera de uma feia teia de imagens que não paravam de se somar a Oxford
Town, Oxford Town. Como era mesmo a música? Dois homens mortos sob a luz da lua, Melhor que alguém investigue logo. Talvez não fosse exatamente assim, mas estava perto. Perto.
— É que posso ter ficado louca — disse ela.
7
As primeiras palavras que chegaram à mente de Eddie foram: Se você acha
que pirou, Odetta, então pirou mesmo.
Uma breve consideração, no entanto, fez isto parecer uma linha nada
construtiva de argumentação.
E Eddie ficou algum tempo em silêncio, sentado ao lado da cadeira
de rodas dela, os joelhos erguidos, as mãos entrelaçadas.
— Você foi mesmo viciado em heroína?
— Ainda sou — disse ele. — É como ser alcoólatra ou viciado em
crack. Algo que, no fundo, você nunca vai superar. Eu costumava ouvir
isso e pensava "tudo bem, tudo bem, é exagero", mas agora compreendo.
Ainda quero a droga e acho que uma parte de mim sempre vai querer, mas
a necessidade física passou.
— O que é crack! — perguntou ela. — Uma coisa que ainda não foi inventada no seu quando. Algo que
se faz a partir da cocaína, só que é como converter TNT numa bomba de
hidrogênio.
— Você tomava?