A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três

Stephen King · Capítulo 38 de 274

Páginas do PDF

A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três

Jane sorriu. Aquiesceu. Perguntou-se o que, em…

Jane sorriu. Aquiesceu. Perguntou-se o que, em nome de Deus, acon-

teceria agora.

— Você estava olhando para as mãos dele — disse Susy, e riu. Jane

riu também. — Eu estava vendo o que acontecia com a camisa quando ele se curvou para pegar a sacola. Lá debaixo tem coisa suficiente para encher

um balcão de miudezas de uma loja de departamentos. Só que não acho que ele esteja carregando o tipo de coisa que se pode comprar em lojas.

Jane atirou a cabeça para trás e riu de novo, mas sentindo o corpo

duro como o de uma marionete.

— O que vamos fazer? — Susy era uma veterana com cinco anos de

serviço e Jane, que um minuto atrás achara que tinha a situação sob o mais desesperado tipo de controle, agora dava graças a Deus por ter Susy do seu lado.

— Nós, nada. Conte ao comandante quando estivermos taxiando. O

comandante fala com a alfândega. Seu amigo ali entra na fila como todo mundo, só que vai ser tirado da fila por uns homens que vão escoltá-lo até

uma salinha. Acho que para ele vai ser a primeira de uma sucessão bastante longa de salinhas.

— Meu Deus! — Jane estava sorrindo, mas calafrios alternadamente

quentes e frios varavam seu corpo depressa.

Ela mexeu na fivela do cinto para soltá-lo quando a reversão dos

motores começou a arrefecer, passou a garrafa térmica para Susy, levan-

tou-se e correu para a cabine.

Não era um terrorista, era um traficante. Graças a Deus por esse

pequeno favor. Mesmo assim, de certa forma, ela odiava o que ia fazer. Ele

era uma gracinha.

Não muito, mas um pouco.

 

Ele ainda não percebeu, pensou o pistoleiro com raiva e um início de desespero. Deuses!

Eddie se curvara para pegar os papéis de que precisava para o

ritual e quando levantou a cabeça a mulher do exército o encarava de olhos esbugalhados, as faces brancas como as coisas de papel nas costas das poltronas. O tubo de prata com a tampa vermelha, que o

pistoleiro a princípio tomara por algum tipo de cantil, era sem dúvida uma arma. Ela agora a segurava entre os seios. Roland achou que dali a poucos instantes ela iria jogar aquilo em cima dele ou girar a

tampa vermelha e alvejá-lo.

Então ela relaxou e prendeu seus arreios, embora o baque seco tivesse

informado ao pistoleiro e ao prisioneiro que a carruagem aérea já havia

pousado. Ela se virou para a outra mulher do exército que estava sentada a seu lado e disse alguma coisa. A outra mulher riu e concordou com a

cabeça, mas se aquilo era um riso sincero, o pistoleiro era um sapo de rio.

O pistoleiro se perguntou como o homem cuja mente abrigava tem-

porariamente o seu próprio ka podia ser tão estúpido. Parte da estupidez

era devida ao que ele havia posto em seu corpo, é claro, uma das versões da erva do diabo existentes naquele mundo. Parte, mas não toda. Ele não

parecia tão mole e distraído como os outros, mas ainda assim deixava

muito a desejar.

Eles são como são porque vivem na luz, pensou o pistoleiro de repente.

Aquela luz da civilização que você aprendeu a adorar sobre todas as outras

coisas. Eles vivem num mundo que não seguiu adiante.

Se era nisso que as pessoas se transformavam num mundo assim,

Roland talvez preferisse as trevas. "Aconteceu antes de o mundo seguir

adiante", diziam as pessoas em seu próprio mundo, e isso sempre era dito num tom de tremenda tristeza... mas talvez fosse tristeza sem pensamento, sem reflexão.

Ela pensou que eu/ele pretendíamos pegar uma arma quando (eu/ele) nos

abaixamos para pegar os papéis. Relaxou quando viu os papéis e agiu como todo mundo agiu antes de a carruagem descer novamente para o solo. Agora

ela e sua amiga estão falando e rindo mas seus rostos — especialmente o rosto dela, o rosto da mulher com o tubo de metal— têm alguma coisa errada. Elas estão conversando, sim, mas estão apenas fingindo rir... e isso acontece porque

o assunto da conversa é ele/eu.

A carruagem aérea estava agora se movendo pelo que parecia ser uma

longa estrada de concreto, uma dentre muitas. Embora estivesse concen-

trado principalmente nas mulheres, o pistoleiro via pelo canto do olho outras carruagens aéreas se movendo aqui e ali ao longo de outras estradas. Algumas andavam devagar; outras se deslocavam com incrível velocidade,