A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três
Capítulo 10
Andolini seguiu Eddie até o banheiro. Mantinha o revólver apontado
porque seus nervos estavam à flor da pele.
— Feche a porta — disse Eddie.
— Vá se foder — respondeu Andolini.
— Feche a porta ou nada de coca — disse Eddie.
— Vá se foder — Andolini repetiu. Já um pouco assustado, achando
que estava acontecendo alguma coisa, algo que não compreendia. Andolini
parecia mais decidido que na van.
— Ele não quer fechar a porta — Eddie gritou para Balazar. — Acho
que vou mesmo desistir de negociar, Sr. Balazar. Provavelmente você está com seis capangas aqui, cada um com uns quatro revólveres, e continua com medo de deixar um garoto se trancar no banheiro. E um garoto viciado.
— Feche a porra da porta, Jack! — gritou Balazar.
— Está bem assim — disse Eddie quando Jack Andolini bateu a
porta atrás dele. — Vou ver se você é um homem ou um covarde.
— Ah, rapaz, será que não chega desta merda? — disse Andolini para
ninguém em particular. Levantou o revólver, com o cano para a frente, pretendendo enfiá-lo na boca de Eddie.
Então ficou paralisado, com o revólver parado no ar, o espanto trans-
formando o rosnado que se formara nos dentes num frouxo arregalar de boca. Ele vira o que Col Vincent tinha visto na van.
Os olhos de Eddie passando do castanho ao azul.
— Agora agarre-o!— disse uma voz baixa de comando, que embora
saísse da boca de Eddie, não era a voz de Eddie.
Pirou de vez, pensou Jack Andolini. Ele pirou de vez, mergulhou de vez
na porra da pira...
Mas o pensamento foi interrompido quando as mãos de Eddie agar-
raram-lhe os ombros, porque quando isso aconteceu Andolini viu um buraco aparecer cerca de um metro atrás de Eddie.
Não, não um buraco. As dimensões eram perfeitas demais.
Era uma porta.
— Ave-Maria cheia de graça — disse Jack num gemido baixo.
Através da passagem que se abria quase meio metro sobre o piso
na frente do boxe particular de Balazar, pôde ver uma praia de areia
escura descendo para a arrebentação das ondas. Coisas se
moviam nessa praia. Coisas.
Ele baixou o revólver e o movimento que pretendera quebrar todos
os dentes da frente de Eddie com o cano não fez mais que raspar nos lábios
de Eddie e deixar um pequeno corte. Toda a energia fugia dele. Jack podia
sentir isso acontecendo.
— Avisei que a coisa ia ser braba, Jack — disse Eddie, e puxou-o.
Jack percebeu o que Eddie pretendia fazer no último momento e come-
çou a resistir como um gato selvagem, mas era tarde demais — estavam
rolando para trás através daquela passagem e o ronco abafado da cidade de Nova York à noite, tão familiar e constante que a pessoa nem chega mais
a perceber, a não ser que ele silencie, foi substituído pelo barulho forte das
ondas e as vozes ásperas, interrogadoras, dos horrores sombrios que raste-
javam de um lado para o outro na praia.
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Temos de ir muito depressa ou estamos assados, dissera Roland, e Eddie tinha
absoluta certeza que o cara estava sugerindo que se não agissem o mais
perto possível da velocidade da luz, seriam fritos em azeite fervente. Ele
também acreditava nisso. Em matéria de bandidos, Jack Andolini era como
Dwight Gooden: você podia sacudi-lo, talvez pudesse lhe dar uma
bordoada, mas se o deixasse sair vivo do primeiro tempo, ele o arrasaria
mais tarde.
Mão esquerda!, gritou Roland para si mesmo enquanto eles atravessa-
vam e ele se separava de Eddie. Não esqueça! Mão esquerda! Mão esquerda!
Viu Eddie e Jack tropeçarem, caírem e rolarem pela encosta forrada
de seixos que seguia o contorno da praia, Eddie lutando para tirar o revól-
ver da mão de Andolini.
Roland mal teve tempo de pensar que piada cósmica seria voltar a
seu próprio mundo e descobrir que seu corpo físico morrera enquanto
tinha estado fora... Era tarde demais. Tarde demais para se espantar, tarde
demais para voltar atrás.