A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três

Stephen King · Capítulo 128 de 274

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A Torre Negra, Vol. 2: A Escolha dos Três

A Dama

DAS SOMBRAS

CAPÍTULO 1

 

Detta e Odetta

 

Despido do jargão, o que o psicólogo Alfred Adler disse foi isto: o perfeito esquizofrênico — se existisse tal pessoa — seria um homem ou uma mulher

não apenas inconsciente de sua(s) outra(s) persona(e), mas inconsciente de que houvesse qualquer coisa falha em sua vida.

Adler deveria ter conhecido Detta Walker e Odetta Holmes.

 

1

 

— ... último pistoleiro — disse Andrew.

Já estava falando há um bom tempo, mas Andrew sempre falava e

Odetta geralmente apenas deixava a coisa fluir por sua mente do modo como deixamos a água quente fluir por nosso cabelo e rosto quando estamos no banho. Aquilo, no entanto, fez mais do que atrair sua atenção; agar-

rou-a como se fosse um espinho.

— O que você disse?

— Ah, foi só uma coluna no jornal — respondeu Andrew. — Não

sei quem escreveu. Não reparei. Um daqueles políticos. Provavelmente a senhora sabe quem é, Sra. Holmes. O fato é que eu gostava muito do presidente e chorei na noite em que ele foi eleito...

Ela sorriu, comovida, mesmo contra a vontade. Andrew dizia que sua

incessante tagarelice era algo que não conseguia deter, algo pelo qual não

se sentia responsável; era apenas o irlandês dentro dele se manifestando e, embora em geral ele só falasse bobagens - intrigas e fuxicos sobre parentes e amigos que ela jamais iria encontrar, opiniões políticas semi-

articuladas, estranhos comentários científicos colhidos de um certo número de fontes misteriosas (entre outras coisas, Andrew acreditava firmemente em discos voadores, que chamava de OVNIS inimigos) -, aquilo a

comoveu porque ela também havia chorado na noite em que o presidente fora eleito. — Mas não chorei quando aquele filho-da-puta... perdoe meu francês, Sra. Holmes... quando aquele filho de uma puta do Oswald

atirou nele e não tenho chorado desde que isso aconteceu, quando foi... há dois meses, né?

Três meses e dois dias, pensou ela.

— Algo por aí, eu acho.

Andrew assentiu.

— Então ontem li essa coluna... acho que foi no The Daily News...

sobre como Johnson provavelmente vai fazer um governo muito bom, mas

as coisas nunca mais serão as mesmas. O cara disse que os Estados Unidos assistiram à passagem do último pistoleiro do mundo.

— Não acho absolutamente que John Kennedy fosse isso — disse

Odetta, e se sua voz estava mais estridente do que aquela que Andrew estava acostumado a ouvir (e devia estar, porque Odetta viu os olhos dele darem

uma piscada de sobressalto no retrovisor, uma piscada que lembrava um movimento de recuo), isso aconteceu porque ela também se sentia afetada pela coisa. Era absurdo, mas era também um fato. Havia algo naquela

frase — os Estados Unidos assistiram à passagem do último pistoleiro do mundo

— que tocou fundo em sua mente. Era uma frase feia, não era verdadeira — John Kennedy fora um pacificador, não alguém tipo Billy the Kid, coberto de couro, que estava sem dúvida mais na linha de Goldwater —,

mas tinha, por alguma razão, a deixado arrepiada.

— Bem, o cara disse que não faltariam atiradores no mundo —

continuou Andrew, contemplando-a nervosamente pelo retrovisor. — Mencionou Jack Ruby, como exemplo, e Castro, e aquele sujeito no

Haiti...

— Duvalier — disse ela. — Papa Doc.

— Sim, ele, e o Diem...

— Os irmãos Diem já morreram.